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  • June 10, 2012
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    Definitivamente, ele não gostava de fotos. Se estava passeando no campo e ouvia alguém comentando “Olha o passarinho!”, já fugia.

    Quando aparecia uma pessoa alegremente munida de uma câmera, disposta a tirar uma foto da turma do colégio, da faculdade, dos colegas do trabalho, arranjava uma desculpa. Ia ao banheiro. Inventava um telefonema urgente. Essas coisas.

    Com o passar do tempo, foi ficando mais ágil. “Deixa que eu tiro!”, gritava, assim que as pessoas alegres apareciam com suas câmeras. “Vamos colocar no automático”, disse um amigo, certa vez. Pego de surpreso, tudo o que conseguiu improvisar foi um ar comovido acompanhado por um “Quem tira a foto tem que ter vida”. Nunca mais repetiu aquela resposta patética, apesar de ter ouvido, na ocasião, um ou dois suspiros de pessoas tocadas pela sua sensibilidade – o nível de álcool estava elevado naquela noite.

    Às vezes, tinha que fazer alguma concessão. “Não tenho nenhuma foto com você. Sorria!”, dizia o colega, o amigo, a nova namorada. Resignado, ele olhava para a câmera e lançava seu melhor sorriso amarelo, que dificilmente seria aceito por algum porta-retrato. De fato, ficava orgulhoso ao visitar algum amigo e constatar que nunca havia foto sua nas paredes alheias. Muito menos nas paredes da sua casa: esse, sim, era um lugar que não admitia exceções.

    Fotos dele mesmo, só em documentos. De resto, não tinha fotografia nenhuma, nem da mãe, do pai, da namorada ou de quem quer que fosse. “Toma, coloca na sua carteira”, disse uma namorada, estendendo-lhe sua melhor 3×4. Ele riu do humor da moça. Ela era mesmo uma graça.

    Quando casou, não quis ver as fotos do casamento. Posar para fotos da lua-de-mel, nem pensar. “Que coisa mais anti-romântica”, esbravejou, quando a mulher, esperançosa, sacou uma câmera da bolsa.

    Um dia, eles tiveram um filho. As coisas iam bem, até que a mulher fotografou o bebê e cismou: o marido ia ver ao menos uma das fotos.

    “Ele está aqui na minha frente, não preciso de foto”, ele argumentou. Ela apelou: “E quando você viajar a trabalho, como vai ser? Não vai se lembrar mais de que tem família?” Ele coçou a cabeça. “Fico triste”, confessou. “Eu sempre lembro que tenho família, mas fotos são lembranças em carne viva”.

    Ela não quis nem saber. Esperou que ele fizesse a mala da viagem seguinte e enfiou lá dentro, no meio das roupas, uma foto. Ela segurando o bebê. Dessa vez, ele não ia escapar. Ia se emocionar ao ver sua família e parar com toda essa bobagem.

    Já no hotel, assim que foi pegar uma camisa na mala, ele deu de cara com a foto. Ficou estático. Queria desviar o olhar, mas, sem saber por que, não conseguiu. A imagem de seu filho e de sua mulher brilhava à sua frente, mesmo o papel sendo fosco. Foi tomado por uma emoção desconhecida, uma bola amarga no estômago, uma vontade de chorar.

    Ele colocou a foto na carteira e nunca mais foi o mesmo.

    Sobre o autor: Liliane Prata nasceu em 20 de outubro de 1980 numa cidade pequena de Minas, atualmente mora em São Paulo. É formada em jornalismo e em filosofia. Durante 8 anos foi colunista da revista Capricho. Escreve todo tipo de texto, mas prefere os de ficção. Tem também seu próprio blog: Liliane Prata, sendo seu objetivo mostrar seu trabalho.

    1. Jeniffer Jun 10, 2012

      Que lindo texto! Acredito que a fotografia é uma forma de arte, de se expressar, de ver o mundo de vários ângulos diferentes e que faz muita diferença, foi o que senti lendo esse texto >< Amei a narrativa da autora!

      Beijos

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