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  • Abril 12, 2019
    postado por
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    “Coisa Mais Linda”, dirigido por Heather Roth e Giuliano Cedroni, estreou no início de Abril na Netflix e é a segunda produção nacional a chegar no serviço mundial de streaming. O elenco principal é formado por Maria Casadevall, Patrícia Dejesus, Fernanda Vasconcellos e Mel Lisboa; desde o momento que foi ao ar, a série ganhou posts e comentários na internet por todo o lugar, por trazer o debate do feminismo à tona. Por mais que nas Universidades, na música e em espaços que há ativismo e formação de opinião o termo seja discutido faz alguns anos, ele ainda é desconhecido de boa parte do público brasileiro. É claro que estamos falando de um serviço pago, ou seja, que também possui seu próprio nicho.

    De certa maneira, a série faz uma boa introdução ao debate da equidade de gêneros, trazendo o panorama de 1959 no Rio de Janeiro, focando na protagonista Maria Luíza (Maria Casadevall), que é abandonada pelo marido em São Paulo, que foge com todo o seu dinheiro. Vinda de família de classe média rica, ela possui seus privilégios e nunca questionou muito bem a sua situação de ser criada para servir ao marido e aos filhos. Essa reviravolta só ocorre quando ela vai até o Rio de Janeiro para tentar encontrar o marido; e ao perceber que foi enganada – após quase uma crise existencial -, precisa rever toda a sua vida.

    Os primeiros episódios fazem uma introdução à vida das personagens, relatando como todas elas possuem suas próprias trajetórias e batalhas internas. Adélia (Patrícia Dejesus) é de longe uma das mais interessantes; inclusive, se houvesse uma segunda temporada, eu iria adorar vê-la como protagonista, dando foco principal à sua narrativa. Adélia possui uma vivência completamente diferente das outras personagens, que sempre estiveram confortáveis no seu privilégio branco. Ela é responsável por criar a filha Conceição, e trabalhar na pensão que Malu mora; divide a casa com a sua irmã e o marido, Capitão, que é músico.

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    A série ganhou destaque ainda maior nos debates por mostrar a clara diferença entre a trajetória da mulher negra e da mulher branca. As duas cenas mais emblemáticas da série mostram como a amizade entre Maria Luiza e Adélia não altera o fato de a primeira não enxergar o quanto Adélia é colocada como subordinada: como por exemplo, na cena em que Lígia chega no bar e automaticamente ordena que a personagem entregue um copo d’água para ela, como se fosse sua empregada. Isso fica bem explícito quando entendemos a ideia do Complexo de Sinhádiscutido por diversas autoras negras:

    Pois bem, um desses entraves podemos seguramente chamar de Síndrome de Sinhô/Sinhá, que acomete pessoas brancas de ambos os gêneros. É a continuidade do comportamento e pensamento colonial que habita no cerne emocional das pessoas brancas, alimentando sua noção de supremacia, de superioridade humana, herdada quase que geneticamente de seus antepassados violentos e gananciosos.” BERTH, Joice para Carta Capital

    No episódio quatro, também vemos a briga entre as duas sócias do bar: Maria Luíza pensa em desistir de tudo, e diz para Adélia que a mesma só está a ajudando por causa do dinheiro. É nesse momento que Adélia diz que a primeira só  enxerga a si mesma, ao dizer o quanto ela está sofrendo, que ela está lutando pelo direito de trabalhar, quando Adélia já faz isso desde criança para sustentar a família. É possível também fazer um parâmetro desses privilégios tão escancarados: ao desistir do bar, Maria Luíza volta para a casa da família rica em São Paulo, enquanto Adélia precisa voltar ao emprego na pensão, onde precisa lidar todos os dias com a sua chefe racista, que inclusive a proíbe de usar o elevador.

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    Nos outros arcos da história, o seriado coloca enfoque em temas que são pautas importantes do movimento feminista. Talvez ao tentar inserir todos eles naquele contexto não consegue trabalhá-los com profundidade (afinal, precisaria-se de muitos episódios para realmente debater esses questões com o espaço que eles precisam). Lígia (Fernanda Vasconcellos), prima de Maria Luíza, é vista no início como a mulher perfeita e esposa ideal; aquela que todos os padrões de 1960 se encaixariam. Mas o seu sonho é ser cantora, algo inimaginável para o seu marido, que quer manter as aparências ao se candidatar para prefeito do Rio de Janeiro.

    Entra em cena o estupro marital e a violência doméstica. Lígia é aprisionada, vive em uma relacionamento abusiva ao pior dos seus extremos, tudo enquanto o casal tenta – de maneira falha – manter as aparências. É por meio da libertação de encontrar o seu próprio caminho que ela consegue sair daquela relação. Tudo com muita dor, mágoa, e violência física e psicológica. O desfecho dela pode ter parecido “novelesco”, à primeira vista, como foi apontado por algumas críticas, mas é totalmente crível na realidade do feminicídio no Brasil, em que temos casos novos todos dias.

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    Na outra ponta da iceberg temos Thereza (Mel Lisboa), que em algumas reflexões que tive, pude enxergá-la quase como uma representação da mulher contemporânea. Ela não usa a palavra feminismo em nenhum momento, mas já se reconhece como uma mulher que luta pelos seus direitos; seu casamento é aberto e desconstruído. Seu marido aceita que ela tenha relações sexuais com outras pessoas: de longe tudo parece belo, mas os conflitos entre o casal e na vida da própria Thereza também são profundos e nos levam a questionamentos.

    Sendo a única mulher a trabalhar em uma revista feminina – em que todos os repórteres homens escrevem sob pseudônimos -, ela é considerada revolucionária por já estar no mercado de trabalho. Quando contrata uma nova jornalista, Helô (Thaila Ayla), as coisas começam a mudar. As duas se relacionam, mas por mais que Helô queira levar a relação a outro patamar, Thereza insiste que isso não funcionaria no seu casamento. Eu espero que na segunda temporada essa relação seja mais desenvolvida, pois eu notei que a cena entre as duas na série, por fim, se tornou um fetiche da representação de um relacionamento bissexual, já que o arco não foi mais trabalhado nos episódios seguintes.

    Essa também é outra questão: o male gaze se fez presente em diversas cenas. Male gaze é a visão de uma história pelo olhar masculino (algo que ganhou ainda mais pauta após o lançamento do filme Azul É A Cor Mais Quente, dirigido por um homem); nas cenas de sexo, vemos foco nos seios e na bunda das personagens, enquanto o homem praticamente não aparece. Foi assim nas duas relações de Chico e Maria Luiza. 

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    Coisa Mais Linda cumpre um papel necessário ao introduzir debates complexos nas rodas de conversa do brasileiro; é uma série que traz uma versão mais comercial do feminismo, que sim, possui diversos erros e clichês, mas trás aquela cutucada necessária para começar uma troca de informações importantes, que no momento político que estamos caminhando, se faz extremamente necessário. A segunda temporada foi confirmada, e eu espero que os temas sejam debatidos com mais profundidade e mais tempo de tela; é sempre importante fazermos uma análise crítica do produto que consumimos, especialmente quando fala-se de movimentos sociais, que devem possuir caráter questionadores e radicais:

    “Este paternalismo neocolonial já havia sido promulgado para manter as mulheres não-brancas no fundo, de modo que apenas as mulheres brancas conservadoras/liberais fossem as autênticas representantes do feminismo. As mulheres brancas radicais tendem a não ser “representadas”, e, se representadas, elas são retratadas como um elemento fraco. Não é de admirar, então, que o “poder feminista” dos anos 1990 ofereça mulheres heterossexuais brancas ricas como exemplos de sucesso feminista.” HOOKS, Bell, “O Feminismo É para Todo Mundo”

    REFERÊNCIAS

    • “A Síndrome de Sinhá/Sinhô: fragilidade branca elevada à (pre)potência”, BERTH, JOICE, para Carta Capital, acessado em 12/04/2018: https://www.cartacapital.com.br/justica/a-sindrome-de-sinha-sinho-fragilidade-branca-elevada-a-prepotencia/
    • “Feminismo É Para Todo Mundo”, HOOKS, bell, traduzido no Medium por Carol Correia, acessado em 12/04/2018: https://medium.com/qg-feminista/cap%C3%ADtulo-8-de-feminismo-é-para-todos-por-bell-hooks-32bd54af202a

    1. Juliana Rabelo Abr 15, 2019

      Parece ser uma série incrível! Depois desse post, já estou curiosa para assistir!

      Ótimo post!
      >>> https://blogjulianarabelo.blog/

    2. Bruna Morgan Abr 26, 2019

      Ainda não assisti, mas tá todo mundo da minha bolha falando bem hauhauha, quero esperar sentir vibe pra começar a assistir

    3. Bruna Morgan Abr 26, 2019

      Sobre meu livro do Van Gogh, ele fala mais sobre as obras. Fala um pouco da trajetória contextualizando, porém fala mais das pinturas!

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