Janeiro 27, 2020 por em Elas Indicam

Na primeira cena da adaptação de 2019 do livro de Louisa May Alcott, Little Women — Adoráveis Mulheres no Brasil — vemos a protagonista Jo March (Saoirse Ronan), tentando vender um capítulo de uma de suas histórias para um editor de livros, em Nova York; ela afirma que sua amiga o escreveu, sem querer assumir a sua própria identidade como autora. Após o fim da cena, a câmera acompanha de maneira acelerada a corrida de Jo March, uma personagem que nunca quis se adequar às normas sociais e etiquetas impostas às mulheres da época; a cena lembra alguns filmes de Greta Gerwig, e por quê não, o próprio clima rápido de Frances Ha, filme co-escrito e protagonizado pela diretora californiana.

Baseado no romance lançado em 1868, e na qual sua autora se inspirou livremente em sua própria vida para escrever, Little Women, assim como o filme, foi um livro que trouxe mulheres para o protagonismo. São duas horas de longa em que a família, composta por cinco mulheres — quatro delas irmãs — são o foco da narrativa. Jo, Amy (Florence Pugh), Meg (Emma Watson), Beth (Elizabeth Scanlen) e a matriarca, Marmee (Laura Dern) compõem a família March. Desde que o pai das meninas foi para a Guerra, elas tentam se sustentar sozinhas, aos tropeços, vivendo com grandes limitações financeiras; enquanto ajudam outras pessoas que estão ainda mais vulneráveis.

A ideia de abordar a juventude de mulheres no final da Idade Moderna não é exatamente novidade; porém, questionar os padrões sociais da época e mergulhar profundamente na vida de personagens femininos quando absolutamente tudo era sobre os homens, é algo inovador; e isso Louisa May Alcott e Greta Gerwig fazem bem. É possível enxergar inspirações no filme também nas obras de Jane Austen: antes da própria Louisa Alcott nascer, Jane já havia publicado Orgulho e Preconceito, Emma, Razão e Sensibilidade, dentre outras obras marcantes, questionando o direito da mulher seguir outra trajetória que não fosse a de ser uma esposa.

As Irmãs March

A linha temporal utilizada pela diretora do filme para contar a trajetória das irmãs March é um dos melhores momentos do longa. As cenas com cores vivas e mais claras exibem os momentos de adolescência das irmãs; os tons frios como azul e cinza remetem a chegada da vida adulta e dos momentos mais difíceis. Cada irmã possui suas particularidades, e um tempo de tela que nos faz conhecer a família à fundo nas duas horas de filme.

Meg, interpretada com carisma por Emma Watson, é a irmã mais velha e madura; quase como se fosse a líder das quatro. Beth é a mais nova, que se dedica a sua paixão pelo piano e é a caçula da família; Amy, que ganha uma perspectiva diferente do livro no longa, tem destaque ao ser vivida por Florence Pugh (de Mindsommar), e estar em algumas das melhores cenas. O desempenho de Florence rendeu-a uma indicação ao Oscar como Melhor Atriz Coadjuvante. Já Jo, que é a protagonista, tem o sonho de ser uma escritora. Ela é a mais diferente de todas as irmãs.

Mais uma vez, a parceria de Saoirse Ronan e Greta Gerwig dá muito certo: elas criam, juntas, uma personagem independente, com grande personalidade, que é segura de si e quer trilhar o seu próprio caminho; semelhante a Christine de Lady Bird. Os diálogos rápidos e espontâneos, características da diretora, dão espaço para Saoirse fazer uma de suas melhores performances. A cena em que Jo diz: “(…) as mulheres tem ambição, e elas tem talento, e não só beleza, e estou cansada de as pessoas dizerem que as mulheres só tem o amor”, é uma das mais marcantes. Esse trecho, na verdade, não está no livro, mas Greta adicionou-o inspirado em uma carta que a própria autora escreveu.

“(…) as mulheres tem ambição, e elas tem talento, e não só beleza, e estou cansada de as pessoas dizerem que as mulheres só tem o amor”

O significado do remake

Adoráveis Mulheres já recebeu uma infinidade de adaptações para o cinema, o teatro e televisão nos últimos anos. Por quê mostrar nas telas mais uma vez uma história tão conhecida? Como aponta a jornalista Jessica Benett, em sua crítica ao filme para o The New York Times, a nova versão traz questionamentos atuais para a trama que se parecem muito com os que ainda vivemos, em 2020. O final do filme, diferente daquele escrito no livro e em outras versões, foi uma das melhores escolhas de Gerwig; Jo escolhe não se casar, apesar de encontrar um companheiro para a vida.

Decisão essa da personagem que reverbera durante diversos momentos do longa. Amigo próximo da família, Theodore Laurence, interpretado com carisma por Timothée Chalamet, é fiel a sua amizade com Jo; durante anos, os sentimentos dele florescem e ele a enxerga como mais que amiga e confidente. Mas contrariando as expectativas, a protagonista decide que se casar seria uma má escolha; em uma das cenas em que vemos o brilho de Saoirse e Timothée, que já atuaram juntos em Lady Bird, os dois discutem os motivos pela qual ela não quer se tornar noiva dele.

Mas não só de momentos de força de Jo March que vive o filme; todas as personagens femininas possuem seus próprios momentos de roubarem a cena. Em um questionamento inteligente, Gerwig insere no roteiro a questão do casamento por fins econômicos; em um dos momentos que provavelmente lhe rendeu uma indicação ao Oscar, Amy (Florence Pugh) confronta Laurie, que refuta a chance de Amy se casar com um pretendente rico que ela não ama; diferente dele, a família March não é rica: “Como uma mulher, não há uma maneira de eu fazer o meu próprio dinheiro. Não o suficiente para fazer a minha vida ou ajudar a minha família; e se eu tivesse o meu próprio dinheiro (…) ele iria pertencer ao meu marido no momento que nós nos casássemos. Então não me diga que o casamento não é um acordo econômico.”

Dessa maneira, Greta Gerwig consegue levar aos cinemas mais uma história coesa; apesar do seu sucesso no mundo do cinema, a diretora não foi indicada ao prêmio de Melhor Diretora na próxima edição do Oscar; o fato intrigou os críticos, pois o longa recebeu seis indicações, incluindo Melhor Roteiro Adaptado. Porém, a notícia não surpreende tanto: em 92 anos de premiação, apenas cinco diretoras foram indicadas ao Oscar. Na categoria de Melhor Filme, o único deste ano que possui protagonismo somente de mulheres e uma produção majoritariamente feminina, está Little Women.

  1. Tay Ribeiro Fev 03, 2020

    Eu amo essas personagens de um jeito. Ainda não vi esse novo filme e já estou bem ansiosa para ver as mudanças
    Beijos

  2. Simone Benvindo Fev 03, 2020

    Ainda não vi o filme, mas me interessei bastante
    Charme-se ?

  3. Camila Faria Fev 05, 2020

    Não assisti ainda Ana! O gênero não é muito a minha praia, mas gosto da Greta e quero conferir a produção sim. Beijo, beijo :*

  4. Viviane Moraes Fev 07, 2020

    Gostei bastante dos personagens, olha vou agora assistir esse filme.

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