Janeiro 8, 2020 por em Destaque, Elas Indicam
filme-bacurau-31.jpg

Bacurau, filme dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, estreou em Agosto no Brasil, após ganhar no Festival de Cannes o prêmio do Palma de Ouro, o mais importante da noite. Um amigo que assistiu ao filme na estreia, lá na França (@pedrocruz), afirmou que os créditos do longa foram recebidos com minutos incessantes de aplausos. Isso aconteceu em Maio, meses antes do lançamento oficial. No Brasil, poucas pessoas chegaram a conseguir assistir ao filme nos cinemas. O desmonte do cinema brasileiro, o pouco acesso às salas dos shoppings — tema de redação do Enem — , é possível citar milhares de motivos que explicam o porquê Bacurau não levou milhões para a sala de cinema.

Mas, em uma época de streamings, torrents e Universidades Federais que resistem, a maioria do público conseguiu assistir o filme, seja em sessões promovidas por espaços de teatro, nas Universidades ao ar livre, ou encontros de amigos.

Foi numa Sexta-Feira à noite, com mais de cem pessoas apinhadas em um bosque na Universidade Federal de Santa Catarina, que eu finalmente assisti Bacurau, exibido por um projetor na parede de um dos prédios de Ciências Humanas. O assunto do dia era esse: “você vai ver Bacurau hoje?”. Por mais que a maioria ainda não tivesse visto o filme, todos já tinham uma expectativa e uma opinião sobre o mesmo: ele era um dos melhores retratos que o cinema brasileiro havia feito este ano.

O cenário de Bacurau nos leva ao Nordeste, em uma cidade pequena, que sim, está presente no mapa, por mais que poucas pessoas a conheçam. O elenco, composto por veteranos como Sônia Braga (Domingas), e Wilson Rabelo (Plínio) e os novatos que roubam a cena, Silvero Pereira (Lunga), Barbara Colen (Teresa), e Thomas Aquino (Acácio) para citar alguns, trás personagens peculiares; todos eles cresceram na cidade. Os seus moradores possuem conexões entre si. E o senso de proteção que cada um deles tem pelo lugar — e que se manifesta de maneira diferente, alguns de maneira mais violenta que outros — , é único.

Guiados por um poderoso psicotrópico, é de maneira apaixonada e com a força brutal que os seus moradores vão defender sua cidade do ataque de um grupo estrangeiro, liderado por norte-americanos, e que possui dois brasileiros do Sudeste na equipe. A crítica feita ao Sudeste e o Sul é memorável; para aqueles que como eu, moram neste último lado do país, sabem que a cutucada feita a essa região foi fiel. “Nós não somos iguais eles”, afirmam os dois sulistas para os americanos, “nós viemos de uma região colonizada por europeus (…) somos como vocês.” Para todo jovem que reside no Sul, sabe muito bem que essa fala é comum na boca de idosos, adultos, e por que não, alguns jovens, no Estado que mais votou em Jair Bolsonaro nas eleições de 2018.

lead_720_405

Dooutro lado da moeda, temos Joker (Coringa), filme internacional que lucrou mais de um bilhão em bilheterias pelo mundo; com lançamento em Outubro de 2019, o filme já era aguardado a alguns anos pelos fãs do personagem. Dirigido por Todd Phillips e estrelado pelo sempre competente Joaquin Phoenix.

Interpretado em anos anteriores pelo icônico Heath Leadger, o Coringa de Phoenix ganha outras nuances e camadas mais profundas; o destaque não fica apenas para o personagem, e sim para a sociedade e o entorno ao redor dele. A cidade fictícia de Gotham City poderia muito bem ser a Nova Iorque dos tempos atuais, nos bairros menos abastados da cidade.

O longa se passa no final da década de 70. Com cenas de cores frias e uma estética depressiva, não é apenas o protagonista, Arthur Fleck, que enfrenta momentos difíceis em sua vida. Gotham City encontra-se em uma recessão; boa parte dos habitantes da cidade perdeu seus empregos ou vive com salários baixos em prédios caindo aos pedaços. Os cenários do filme remetem a ruas apinhadas de lixo e pessoas infelizes. Ironicamente falando, poderia ser uma representação de qualquer metrópole contemporânea.

Como pano de fundo de todo o processo de construção do personagem do Coringa, que é complexo e bem feito durante as quase duas horas de filme, temos uma cidade caótica e uma multidão que enxerga na personalidade do Coringa e na imagem do palhaço com os cabelos verdes e os lábios vermelhos, um grito de revolta contra a elite; aquela, que mesmo com a população de Gotham passando fome, ainda mantém-se em pé.

A abordagem do anti-capitalismo

O longa brasileiro apresenta talvez uma visão mais fácil de ser compreendida da crítica social ao capitalismo e, principalmente, ao imperialismo. A escolha do cenário do filme em uma cidade do Nordeste, com uma população abandonada pelas políticas públicas e um vilarejo chefiado por um político que desagrada a todos os habitantes, e que visivelmente, tenta apenas se aproveitar do seu eleitorado, não foi nada à toa.

A calmaria — não tão plena — de Bacurau é ameaçada pelos norte-americanos, que veem naquela população alguém “inferior”; eles se subjugam melhores e superiores cultural e politicamente. E de uma maneira cruel, se divertem com a violência que planejam, e praticam, contra os nordestinos. Nas cenas em que empunham as suas armas e literalmente vão à caça daqueles que residem em Bacurau, eles se divertem, riem, entram em êxito. É o sadismo e a cobiça, características tão presentes do imperialismo, sendo representados em tela. No filme, os ataques são feitos pelos estrangeiros, mas também não é novidade para nenhum de nós que esses mesmos povos — do Norte, Nordeste, ribeirinhos, indígenas, negros e as populações nativas — , são alvo fácil do Estado brasileiro, que intervém por políticas genocidas contra o seu próprio povo, e também em defesa de interesses estrangeiros.

No seu aclamado livro “Mulheres, Raça e Classe”, a filósofa Angela Davisexplicita como o capitalismo traz a especificidade da reprodução e produção dos sujeitos, por meio da violência, como uma característica importante para manter o modo de uma vida social permeada por conflitos e desigualdades; ela afirma também, que é impossível haver capitalismo sem o racismo e o sexismo.

E o Coringa?

Coringa aborda questões semelhantes, que também estão presentes em Bacurau (a desigualdade de classes; o enforcamento provocado pelas instituições e o fracasso do capitalismo) de maneira mais sutil; mas ainda assim, muito presentes. Basta um olhar mais aguçado para além do personagem de Joaquin Phoenix para observar como o longa trabalha as manifestações populares, a raiva e o ódio da população, extremamente desamparada. Pode-se fazer um paralelo atual com a revolta da sociedade latino-americana nos últimos meses: Chile, Uruguai, Argentina, Colômbia; são poucos os países que não foram às ruas no final de 2019 protestar contra o neoliberalismo que suga e empobrece populações, mantendo no topo apenas aqueles que se beneficiam deste sistema político.

Em Joker, esse personagem é bem representado pelas elites, chefiada por Thomas Wayne, o pai do futuro Batman, dono de uma das empresas mais ricas de Gotham, e que se candidata à prefeito da cidade, com um discurso meritocrático e que afirma que a população apenas possui raiva daqueles que “conseguiram construir algo”. O que não faltam são exemplos de figuras na política brasileira que sustentam o mesmo discurso individualista.

Todo o contexto da sociedade em que Arthur Fleck vive torna-se um pontapé para a transformação do personagem, que se mune de raiva do próprio status quo. É quando ele perde o serviço de assistência social — cortado pelo governo — , e o único que oferecia os remédios que ele precisava tomar, que a sua personalidade de Coringa vem para ficar. É o seu ato de revolta no metrô contra três homens que representam essa diferença de classes, e que o agridem quando ele está vestido de palhaço, que o torna uma figura emblemática para a população de Gotham. O assassinato que Arthur comete em um momento de loucura, é a fagulha necessária para que a população se una e tome as ruas de Gotham, sem medo de ceder aos seus instintos. A luta de classes é o principal motor que movimenta a parcela renegada da população.

Parasite-2019-film-PLANO-CRITICO-FILME-600x400

O tema ganhou o cinema em 2019

Foram muitas as produções cinematográficas que abordaram a desigualdade entre classes e o fracasso do capitalismo e a ascensão dos discursos de extrema direita e suas consequências práticas na vida da sociedade no último ano; os destaques das premiações ficaram para, além de Bacurau e Coringa, Parasita, filme sul-coreano que estreou em Novembro e ganhou atenção mundial, dirigido por Bong Joon-ho.

Não podemos esquecer também do célebre Jordan Peele, que lançou Nós,estrelado por Lupita Nyong’o e Winston Duke, logo no início do ano. Já em uma perspectiva que mistura comédia e drama, mas com pitadas de sarcasmo e abordando temas como imigração, temos Entre Facas e Segredos, dirigido por Rian Johnson. No longa, uma família que vive às custas da fortuna do avó, um famoso escritor de histórias policiais, vai brigar até o fim pelo dinheiro do testamento do chefe da família, que é assassinado misteriosamente, e deixa todo o seu dinheiro para a sua cuidadora, uma garota imigrante da América do Sul.

Referência: NUNES, Rodrigo. ‘Bacurau’ não é sobre o presente, mas o futuro. 2019. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/brasil/2019/10/05/cultura/1570306373_739263.html>. Acesso em: 04 jan. 2020.
Referência: ALMEIDA, Silvio Luiz de. O marxismo de Angela Davis. 2016. Disponível em: <https://blogdaboitempo.com.br/2016/09/26/o-marxismo-de-angela-davis/>. Acesso em: 05 jan. 2020.
Referência: SILVA, Paulo Henrique. Desigualdade social é gatilho para a maldade em novo filme sobre o arqui-inimigo de Batman. 2019. Disponível em: <https://www.hojeemdia.com.br/almanaque/desigualdade-social-é-gatilho-para-a-maldade-em-novo-filme-sobre-o-arqui-inimigo-de-batman-1.746809>. Acesso em: 05 jan. 2020.

  1. Wanessa de Almeida Jan 13, 2020

    não vi esses filmes ainda.
    bj http://www.diadebrilho.com

  2. Tay Ribeiro Jan 13, 2020

    Que post incrível. É maravilhoso ver filmes abordarem temas importantes e que não é tão discutido em rodas normais, e é extremamente triste um filme que fala sobre as pessoas mais pobres não conseguirem chegar amplamente a elas.
    Beijos

  3. Camila Faria Jan 17, 2020

    Oi Ana, de todos os filmes que você citou eu só ainda não assisti o Knives Out, mas já estou correndo atrás. A gente tava precisando de um Bacurau nas nossas vidas, né? Eu gostei muito do filme (e do seu final catártico). O Parasita eu achei impecável, gostei demais também (e recomendo o Madeo, filme de 2009 do mesmo diretor). Já o Nós eu achei médio… acho que eu esperava mais, depois do sucesso de Corra!. Beijo, beijo :*

  4. Gábi Jan 22, 2020

    Que maravilhoso esse seu post, falou tudo o que sentimos e não conseguimos expressar em palavras, você nos legendou!
    Assisti Bacurau e Coringa e estou doida para assistir Parasita!

    beijão!
    Gábi
    Blog @gabrielaerIg: @gabrielaer</

  5. Jéssica Jan 26, 2020

    Ficou incrível seu post eu assisti o filme e ele é muito impressionante e muito tocante!

    http://www.jessribeiro.com.br

Destaque

© 2020 ELAS DISSERAM // DESIGN @LUIZFROST // PROGRAMAÇÃO @SARASSILVA