Março 15, 2020 por em Elas Indicam

Imagem: Lilo Clareto.

“O Brasil, eterno país do futuro, no final da primeira década do século 21 acreditou que finalmente havia chegado ao presente. E então descobriu-se atolado no passado (…) o que faz o país do futuro quando percebe que o futuro é um enorme passado?”

É com esse parágrafo que se inicia a obra mais recente de Eliane Brum, intitulada de “Brasil: Construtor de Ruínas – Um olhar sobre o país, de Lula a Bolsonaro”. Lançado no final de 2019, o oitavo livro da jornalista gaúcha, nascida em 1966 e atual colunista do El País, traça um panorama profundo e questionador sobre as últimas duas décadas, e os primeiros cem dias do governo Bolsonaro. Apesar de ser do Sul, Eliane mora faz alguns anos em Altamira, no Pará, e possui relação estreita com os temas que envolvem as populações da Amazônia; é por isso que muitas das páginas do livro abordam os governos de Lula e Dilma sob o parâmetro do meio ambiente, e de como tais decisões dos dois presidentes afetou o Norte do país. Belo Monte e suas consequências desastrosas para o meio ambiente e as comunidades nativas, ganham espaço logo no início da obra. Apesar de durante toda a minha trajetória ter um lado político definido – todo mundo sabe que eu sou petista -, é importante enxergar as críticas. E isso é algo que Eliane faz muito bem, desde o primeiro capítulo.

“Em 2011, quando se iniciou a abertura do canteiro de obras da hidrelétrica de Belo Monte, na região de Altamira, no Pará, passei um dia com o chefe de uma das famílias que seriam obrigadas a deixar a terra onde viviam para a construção daquela que era a maior obra do governo. A certa altura, ele abraçou uma castanheira e chorou. Não como garoa, mas como rio. Tentava me explicar por que ele não podia ser – sem ser ali (…)”

Até mesmo aqueles que não acompanham as turbulências da crise climática atual sabem que a Amazônia enfrenta um dos seus piores momentos. Sofrendo com o garimpo ilegal, os assassinatos dos líderes indígenas e militantes, as queimadas propositais e o ataque às ONGs feitas pelo governo, é difícil compreender quais passos nos trouxeram até aqui. É dessa maneira que a autora narra os acontecimentos dos últimos governos que, em muitos momentos, negligenciaram aquela que é a maior floresta tropical do mundo, e suas populações. Eliane revisa o projeto de Belo Monte de maneira crítica; análise que pode se adequar a tantos outros “investimentos” que colocaram o meio ambiente em risco, como Brumadinho e Mariana.

“1) Um projeto de desenvolvimento ultrapassado e predatório, baseado em grandes obras e na reprimarização da economia, que ignora os desafios da crise climática. 2) Uma visão colonizadora da Amazônia, no qual a floresta é um corpo para a violação e extração de matérias-primas de exportação.”

2013: o fim da conciliação

Para compreender o ponto que o país chegou – em um atual desgoverno autoritário e pautado pela militarização -, é preciso olhar para trás e enxergar os momentos que fizeram a democracia se enfraquecer, tornando com que o próprio cidadão questione se ela ainda pode ressurgir. Eliane Brum utiliza a palavra “conciliação”: os últimos governos conseguiram a tarefa difícil de agradar, por um tempo, ambos os lados: a burguesia e os trabalhadores. Os desenvolvimentistas e a garantia dos direitos trabalhistas; a Universidade Pública e o empresariado.

“É importante lembrar que políticas dos governos Lula, como a promulgação do Estatuto da Igualdade Racial, devem-se à luta de décadas dos movimentos negros (…) Os governos do PT reconheceram e escutaram essas vozes, o que não é pouco no Brasil, mas a conquista é dos movimentos sociais. (…)

(…) “Uma parcela das elites e da classe média branca jamais perdoará o PT por isso.”

Foi o fim dessa conciliação, aliado ao golpe do impeachmeant e a extrema polarização política – assim como a força do neoliberalismo e a chamada ultradireita – , que Eliane questiona a imagética do brasileiro cordial; aquela do povo contente, aberto e hospitaleiro. Mas, até onde essa imagem vai? A autora afirma que um país fundado pela realidade histórica da eliminação do outro, de indígenas e de negros, não poderia fugir do que estava por vir. É inegável que alcançamos progressos enormes nas últimas décadas: porém, esses mesmos tornam-se frágeis perante ao novo governo, sendo desmontados um por um. Em 2017, o Atlas da Violência divulgou que entre 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 eram negras; em 2015, mais de 300 mulheres foram assassinadas por dia. São números alarmantes, que crescem, e cada vez mais vemos as políticas públicas que tentariam combater tais números, sendo destruídas pelo estado.

A arte de fabricar monstros

Como prometido pela autora, ela também analisa os primeiros cem dias do governo Bolsonaro. Para se aprofundar no tema, é essencial revisitar os anos pós impeachment: Eliane, de maneira certeira, comenta o crescimento dos grupos liberais no Brasil, como o MBL, o Movimento Brasil Livre, e as chamadas “guerras culturais.” Em 2017, os temas nas mídias e nas redes sociais não eram o genocídio da população negra ou o crescimento do feminicídio, e sim a revolta da população brasileira com a arte exposta no Queermuseu. Um dos principais articuladores das manifestações contra Dilma e do levante do Escola Sem Partido, o MBL foi definido pelo filósofo Pablo Ortellado, como um causador dessas guerras culturais, “(…) por meio do discurso punitivista e contrário aos movimentos feminista, negro e LGBTQI, podiam atrair conservadores morais para a causa liberal.”

A ascensão de Jair Bolsonaro ao poder foi definido pela autora como a chegada do homem mediano ao poder. Texto publicado no dia primeiro de Janeiro de 2019, com o questionamento, “O que significa transformar o ordinário em ‘mito’ e dar a ele o Governo do país?”, nos traz uma reflexão poderosa de como alguém que não fazia parte de nada – nem de elites políticas, econômicas ou intelectuais, como diz Eliane -, chegou ao posto mais importante do país? Como o homem ordinário e carregado de discursos de ódio cativou uma camada tão grande da sociedade?

Esse homem representou, de certa maneira, a parcela da sociedade – principalmente formada por homens brancos e heterossexuais, que representou boa parte das suas intenções de voto (não excluindo também mulheres dessa camada) -, que nos últimos anos, sentiu que “perdeu privilégios”. Seja da parte do movimento feminista, que conquistou direitos ao fazer a sociedade entender que assédios não seriam mais tolerados, seja da comunidade LGBTQI+, que avançou em pautas, e do movimento negro, que começou a ocupar a Universidade.

“Figuras públicas como a genial cartunista Laerte Coutinho anunciaram-se como mulher sem fazer cirurgia para tirar o pênis. O que há entre as pernas já não define ninguém. A posição do homem heterossexual no topo da hierarquia nunca foi tão questionada como nos últimos anos.”

É com o apoio das fake news e das bolhas virtuais que homens como Bolsonaro chegam ao poder. É complexo de entender, mas seu eleitorado conseguiu respaldo por meio da mídia, dos grupos de Whatsapp e de sua ideia errônea da “perda de direitos”. O homem medíocre ganha voz e representação. Não é a primeira vez que isso acontece; é um fenômeno mundial. Jair Bolsonaro, Donald Trump, Boris Johnson, Matteo Salvini. Exemplos não faltam. O que esses homens tem em comum? Todos reforçam discursos de ódio da ultra direita.

“É assim que um homem como Bolsonaro vira “mito.” Ameaçados de perder a diferença que lhes garante privilégios que já não podem ter, Bolsonaro e seus seguidores corrompem a realidade e afirmam sua mediocridade como valor. Macho. Branco. Sujeito homem.”

Como enfrentar? Como passar pelos próximos três anos que ainda estão por vir? É importante resistir e não aceitar o Estado de exceção; como bem diz a autora, o totalitarismo se instala aos poucos: na normalidade. Naqueles que fingem que ele não está chegando. É o caminho que nosso país percorreu desde a chegada de Temer ao poder. Mas acredito que agora tudo é escancarado: as feridas estão abertas, não há mais o que esconder. Como citado pela autora, resistir ao medo e se juntar para criar o futuro é o primeiro ato de resistência.

  1. Maria Clara Mar 20, 2020

    Nossa que artigo fantástico, por isso que estou quase todos os dias visitando e lendo seus artigos. Sempre tem conteúdos interessantes e de qualidade.

    Beijos !!

    Meu Blog: Apostando na Loteria

  2. Tay Ribeiro Mar 25, 2020

    Não conhecia esse livro e já quero ler. É totalmente necessário um trabalho sobre o tema e que possa ser lido por todo mundo, uma vez que todo mundo se blinda na sua ‘verdade’ e não tenta ver o outro lado.0
    Mais do que nunca, precisamos questionar as decisões e lutar por todos, sem pensar primeiramente no grupo em que nos encaixamos, pois pode chegar em um patamar que não vai ter ninguém para nos defender.
    beijos

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