Março 25, 2020 por em Elas Indicam

“O Mito da Beleza”, é um daqueles livros fundamentais para a construção do pensamento feminista. É uma obra que você deseja ter lido na adolescência; talvez uma leitura essencial antes de sermos esmagadas pela cultura da mídia que exige que as mulheres cumpram o checklist de um padrão estético inalcançável, desde que deixam a infância e entram na adolescência (e em alguns casos, antes mesmo disso). The Beauty Myth é uma pesquisa extensa sobre o mito da beleza, um sistema que entrou em voga após as mulheres se emanciparem de suas casas, entrando no mercado de trabalho; é uma forma de dominar as trabalhadoras, as sindicalistas, e aquelas que rejeitaram o rótulo de que sua única função seria trabalhar pelos filhos e pelo marido. Já que a primeira onda do feminismo tirou grande parte das mulheres – e muitas delas, vale dizer, as de classe média e com privilégios – de casa, qual seria a próxima maneira de dominá-las? Como poderia-se conter essa força feminina? Era necessário fazê-lo, de algum jeito.

De maneira certeira, a autora Naomi Wolf separa o livro em capítulos reservados para explicar as consequências do mito em diversos âmbitos da vida das mulheres, sendo eles o trabalho, a cultura, a religião, o sexo, a fome e a violência. Como o livro trás um background dos anos 90, muitas experiências compartilhadas pela autora podem parecer antigas – mas elas são, na verdade, ainda muito comuns na cultura de massa. É claro que fizemos progressos nos últimos anos, mas não há dúvidas que o mercado ainda lucra (e muito) com a insegurança das mulheres e as doenças que são desenvolvidas a partir disso.

O trabalho e a cultura

As mulheres recebem menos que os homens. Em uma pesquisa feito pelo IBGE, os números apontaram que os profissionais do sexo masculino ganham 20% a mais que as do feminino; quando analisamos a raça, a disparidade é ainda maior: brancos ganham 31% mais que negros. Imagine então, a desvantagem que uma mulher negra leva no ambiente de trabalho. No capítulo do trabalho, Wolf discorre sobre como o mito da beleza está presente no ambiente profissional, e principalmente, como os padrões estéticos são levados em conta na hora de contratar ou demitir os trabalhadores; não é possível deixar de citar, é claro, os numerosos casos de assédio que as mulheres enfrentam diariamente. O Datafolha afirmou, em 2018, que 42% das brasileiras já sofreu algum tipo de assédio no trabalho.

“Essa imagem dupla – a do homem mais velho, distinto e com rugas, sentado ao lado de uma companheira jovem e muito maquiada – veio a se tornar o paradigma para o relacionamento entre homens e mulheres no local de trabalho. Sua força alegórica era e ainda é muito disseminada. A qualificação da beleza profissional, que tinha como primeira finalidade amenizar o fato desagradável de uma mulher assumir posição de autoridade em público, ganhou vida própria (…)”

Em a cultura, a autora explica o conceito da Mística Feminina, comum para a mulher de classe média antes do boom da sua chegada no mercado de trabalho. Controladas pela ideia de servir apenas à casa e ao casamento, essa era a maneira ideal encontrada para limitar as mulheres; mas com a chegada do feminismo, as coisas mudaram.

“Com o colapso da Mística Feminina e o renascimento do movimento feminista, as revistas e os anunciantes daquela religião extinta se depararam com a própria obsolescência. O mito da beleza, em sua concepção moderna, surgiu para tomar o lugar da Mística Feminina, para salvar as revistas e seus anunciantes das terríveis consequências econômicas da revolução das mulheres.”

A religião e o sexo

A autora discorre sobre como o mito se tornou uma religião. Em uma busca rápida pelo google ou pelas revistas, os jornais e a mídia, se torna claro o quanto as propagandas instruem o que fazer: quais cosméticos comprar, como usar, quais procedimentos; o curioso da leitura de O Mito da Beleza é que essas são práticas comuns que nós, mulheres, conhecemos desde que nascemos. Naomi Wolf questiona: “o que é exatamente essa nova fé exigente que está doutrinando as mulheres?”.

As pesquisas afirmam que os homens, em sua maioria, não estão insatisfeitos com o próprio corpo: diferente das mulheres, que se enxergam de maneira irrealisticamente negativa. Na época em que o livro foi escrito – nos anos 90 -, 95% das pessoas inscritos em programas de perda de peso eram mulheres.

“A cultura moderna reprime o apetite oral da mulher da mesma forma que a cultura vitoriana, através dos médicos, reprimia o apetite sexual feminino: do alto da estrutura do poder para baixo, com um objeto politico. Quando a atividade sexual feminina perdeu seus valiosos castigos, os Ritos tomaram o lugar do medo, da culpa e da vergonha (…)”

O paralelo entre o pecado de comer, se alimentar e viver constantemente em vigia do próprio peso é comparado pela autora à culpa cristã; “todo o cenário de desejo, da tentação, da capitulação (…)”, a culpa que a mulher sentia – eliminada após a revolução sexual – deveria ser transferida para outro lugar. Caso contrário, como seria possível controla-las?

Em um dos capítulos mais importantes da obra, Naomi Wolf descreve como o mito transformou totalmente o sexo na era contemporânea. Ela trabalha com dois conceitos importantes, sendo o primeiro deles a pornografia da beleza, e como ela está presente em propagandas que sexualizam a mulher – até mesmo em campanhas de produtos como alimentos e bebidas; quem lembra das famosas propagandas de cerveja? -, fazendo-as simular posições eróticas.

“É assim que se apresenta a pornografia da beleza: a mulher aperfeiçoada está de bruços, com a bacia fazendo pressão para baixo (…) a posição é a de fêmea por cima.”

A divulgação dessas imagens é totalmente nociva à saúde das mulheres e aos relacionamentos, influenciados por filmes e mídias de massa que promovem a pornografia, fazendo homens e mulheres acreditar na performance que deve ser o sexo. Tudo isso está ligado ao sadomasoquismo da beleza, também definido pela autora.

“O sadomasoquismo da beleza é diferente. Num anúncio de perfume da Hermès, uma mulher loura amarrada com tiras de couro preto está pendurada de cabeça para baixo, amordaçada e com os pulsos acorrentados.”

A objetificação das mulheres não é exatamente novidade. Mas é importante entender o papel que o mito da beleza contribui para que isso aconteça, principalmente quando milhares de pessoas são influenciadas todos os dias por essas imagens; a autora define que o despertar da sexualidade de nossa geração é ameaçado por uma avalanche de imagens desse tipo.

A fome e a violência

Retomando aspectos já trabalhados no capítulo sobre a cultura, a fome se dedica a se aprofundar em como os transtornos alimentares começaram a fazer parte da vida de milhares de mulheres na década de 90. Como exposto pela autora, a fome e as regras – dietas “milagrosas” e remédios que prometiam emagrecimento rápido – se tornaram mais uma forma de controle. A gordofobia nas ruas e nas mídias sociais se tornou comum. O corpo extremamente magro se tornou o “desejável.” Temos uma sociedade de mulheres doentes, enfraquecidas pela própria fome, pela própria rigidez ao seu corpo.

“A anorexia e a bulimia são doenças do sexo feminino. De 90% a 95% dos pacientes são mulheres. Os Estados Unidos, que tem o maior número de mulheres de sucesso na esfera masculina, também lideram o mundo na incidência da anorexia feminina.”

Naomi Wolf também utiliza o termo da Donzela de Ferro para se referir às imagéticas de mulheres magras e perfeitas expostas pela mídia, com corpos impossíveis. É uma luta por algo que não é, de fato, real. Os números dos transtornos alimentares cresceram após a Segunda Onda do feminismo.

A violência chega no mesmo patamar que a fome: as cirurgias plásticas encontraram um crescimento nas últimas décadas. Quando o livro foi escrito, o acesso fácil a lipoaspiração e diversos outros métodos já eram populares. Em 2020, não é diferente: harmonização facial, botox… quantas vezes você já viu essas palavras estampadas em clínicas de ortodontia, nos shoppings, nos centros da cidade? Fazer uma plástica se tornou simples. Remover o que você “odeia”, nunca foi tão fácil. É fácil enxergar exemplos: pessoas magras são consideradas saudáveis, enquanto as pessoas gordas não. Mas sabemos bem que a realidade não é dessa maneira. Peso e balança não significam saúde.

“A versão do século XIX da coação médica parece estranha a nossos olhos. Como conseguiram fazer com que as mulheres acreditassem que menstruação, a masturbação, a gravidez e a menopausa fossem doenças? No entanto, conforme se solicita às mulheres modernas que acreditem que partes do nosso corpo normal e saudável estão doentes, entramos numa nova fase de coação médica tão apavorante que ninguém quer sequer examiná-la.”

De que mulheres o mito fala?

Não há dúvidas de que O Mito da Beleza seja uma pesquisa profunda realizada pela autora Naomi Wolf, mas durante toda a leitura, eu me perguntei de quais mulheres especificamente a autora estava falando. Escrito por uma mulher branca, torna-se claro que o livro fala sobre… mulheres brancas. O mito atinge todas nós, mas de graus e maneiras muito diferentes. Acredito que um recorte social, de classe e raça, tornaria a leitura extremamente mais produtiva, pois não é possível analisar como as estatísticas e as consequências do mito afetam as mulheres, se apenas um tipo de mulher for analisada. Em alguns trechos, Naomi diz que refere-se às mulheres de classe média; mas em outros, parece que as pessoas do sexo feminino são um montante similar.

“Um recorte de raça torna a situação ainda mais complexa, pois a mulher negra precisa, antes de qualquer outra coisa, se embranquecer para obter aceitação social e conseguir empregos mais prestigiados.” Jarrid Arraes, via Geledes.

O livro foi escrito em 1991. Ainda era raro que mulheres brancas fizessem um esforço para incluir mulheres negras em suas pautas e questionamentos; no momento, torna-se fundamental para a discussão que isso aconteça, de maneira urgente. Para ampliar o debate do feminismo, as autoras brancas não devem apenas analisar os comportamentos de mulheres da classe média e alta. É necessário ir muito mais além disso, ou ficaremos apenas presos à estatísticas dessas mesmas pessoas: queremos saber e questionar como o mito atinge mulheres negras, transsexuais, indígenas. Afinal, ele oprime muito mais que apenas uma parcela da sociedade.

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