Maio 28, 2020 por em Elas Indicam, Séries

Eu sou uma leitora ávida de novas histórias. Sempre quando vejo um livro que toda a comunidade do Goodreads está falando sobre, ou novos autores que estão sendo celebrados, eu não espero muito para embarcar na leitura. E foi assim com “Pessoas Normais”, romance lançado em 2018 pela autora irlandesa Sally Rooney. Sally é jovem e tem apenas 29 anos, uma característica que provavelmente, influenciou a autora no momento de abordar tão bem um relacionamento entre duas pessoas que estão deixando a adolescência e entrando na vida adulta.

Nossos protagonistas são Marianne e Connell; os dois vivem em uma pequena cidade, à poucas horas de Dublin. Frequentam a mesma escola, e apesar de levarem vidas muito diferentes – Marianne é filha de uma empresária, vivendo em uma mansão, e Connell foi criado apenas pela mãe, que é da classe trabalhadora -, os dois possuem coisas em comum. A primeira delas, e a que os aproxima logo de cara, é a solidão e a sensação de despertencimento.

A mãe de Connell trabalha na casa de Marianne, e é assim que eles se conhecem durante anos, trocando poucas palavras; até que começam um relacionamento em segredo, principalmente porque Connell possui muitos amigos na escola, apesar de ser tímido, e Marianne é taxada como estranha.

Eles aprendem juntos as primeiras sensações de como é se aproximar de alguém, se tornando confidentes; cada um possui um lado que o meio social não enxerga, existindo apenas quando estão a sós. Porém, nada é perfeito. O casal sofre com a falta de comunicação, um problema que perpassa a relação dos dois durante toda a vida. Isso fica tão claro, que a estilística é usada pela autora de maneira diferente. Não há travessões e nem aspas, apenas frases que indicam qual personagem falou o quê, dando um tom muito mais íntimo e cru para a história.

Não espere por grandes declarações de amor ou cenas românticas que estamos acostumados a ver no mundo literário; aqui, as falhas, os defeitos e a bagagem de cada um dos personagens fica exposta como uma ferida, e também colabora para que o relacionamento de Connell e Marianne seja difícil. Vindo de classes diferentes, eles são inteligentes o bastante para saber o que separa um do outro na sociedade; Connell se questiona muitas vezes se a família de Marianne, que é caótica e confusa por trás da imagem em que vivem, o aceitaria. E Marianne, em alguns momentos da narrativa, se desculpa com Connell por parecer não prestar tanto atenção quanto ele às questões financeiras.

A narrativa

Os capítulos são curtos e dão saltos grandes na história, de semanas até semestres. Acompanhamos a vida dos protagonistas até o final da Universidade; de maneiras estranhas, eles nunca se separam, nem que seja estando apenas no papel de melhor amigo um para o outro. Cheio de referências, os personagens discutem livros, filmes, teorias; apesar de serem tão ruins em comunicar o que querem no relacionamento, eles possuem grande afinidade. A escrita de Sally Rooney é direta, sem delongas. É um retrato fiel de relacionamentos atuais, em que saúde mental, questões políticas e acasos interferem abruptamente em tudo.

No meio de milhares de aplicativos, quarentena, relacionamentos à distância e comunicações falhas que dependem da internet para tudo, a relação de Connell e Marianne permanece bela, mas é permeada por problemas e interrogações, sem finais completamente felizes e deixados em aberto, tão parecidos com o da vida real.


A adaptação para a TV é fiel e consegue ser ainda melhor

São raras as ocasiões em que as adaptações são fiéis às obras originais, e no caso da série homônima, produzida pela BBC britânica em parceria com o Hulu, a ideia deu muito certo. Em parte pelo elenco carismático, em que Paul Mescal interpreta Connell e Daisy Edgar-Jones é Marianne, ou pelas cenas envolventes, e a trilha sonora afiada; os motivos são muitos.

Normal People estreou em Março, e chamou a atenção pela extrema sensibilidade e os bons diálogos. Os dois atores possuem uma química impressionante, e na adaptação podemos entender ainda melhor os personagens principais, que ganham novas camadas e nuances, assim como os coadjuvantes. Outro tema de elogio da crítica foram as cenas de sexo. Elas são muitas, presente em praticamente todos os episódios; uma característica que também está no livro, mas que na televisão ganha mais atenção. Passando longe dos clichês hollywoodianos e da perfeição que todo mundo sabe que não existe na vida real, os atores dão vida à cenas estranhas, imperfeitas, engraçadas, honestas, e muito íntimas. Em alguns momentos parece que você está ali, se intrometendo ao assistir. 

Os temas de saúde mental e relacionamentos abusivos ganham pauta em episódios dolorosos de assistir. É quase impossível não se emocionar com os personagens; tudo colabora para que quem está vendo, entre naquele universo. A série consegue abordar com responsabilidade depressão, ansiedade, o sentimento de não conseguir se encaixar em nenhum lugar, tão presente nos dois personagens. Os relacionamentos familiares quase impossíveis, concentrados no personagem de Marianne, que sempre enfrentou um sentimento de rejeição durante a vida, e que encontra em Connell um lugar de acolhimento.

O título de ser um romance millennial encaixa bem, porque Normal People reflete relações comuns na vida de jovens adultos; relacionamentos complicados, permeados por dúvidas geradas por uma saúde mental vulnerável, falhas de comunicação, e sempre um amor em constante mudança e indefinição pelos acasos da vida, um eterno: “será que poderia ter dado certo?

  1. Fernanda Ene Mai 29, 2020

    Oi, Ana Beatriz! Tudo bem? Eu me lembro de ter ouvido muitos elogios à Sally Rooney no ano passado, tanto que já tinha adicionado este livro na minha listinha de leituras (em abril do ano passado, conforme consta no meu GoodReads), mas eu não sabia que eles tinham produzido uma série baseada na história — e isso só me deixou com mais vontade de ler o livro. Vou ver se consigo descolar uma cópia para ler já nos próximos meses e assistir a série em seguida… Pelo o que você comentou no post, tanto um quanto o outro devem ser incríveis! Obrigada pela dica! Beijoooo! 😉

  2. Taís Jun 04, 2020

    Oi Ana, quanto tempo não aparecia aqui… adorei o visual novo ( novo pra mim , pelo menos haha), tá tudo tão lindo!
    Eu fiquei morreeeeendo de vontade de ver a série, ainda mais que se passa aqui onde eu moro… to indo procurar agorinha mesmo pra assistir. Obrigada pela indicação ?

  3. Anna Beatriz Jun 04, 2020

    Estou amando ler seus posts… vou até salvar em favoritos!

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