Foto: Luis Villasmil

A quarentena me deu tempo o suficiente para ser ociosa e produtiva ao mesmo tempo. Em alguns dias eu consegui produzir e trabalhar; em outros, só o que eu queria fazer era dormir e olhar para o teto, mesmo com as milhares de informações que entramos em contato todos os dias. É até difícil processar todas elas, escolher quais são relevantes e quais devemos deixar de lado. 

Nas últimas semanas, eu reavaliei diversas coisas que sempre foram fundamentais para mim, me perguntando até quando elas realmente eram importantes. Eu não acredito no discurso positivista e ecofascista, que alimenta a perspectiva de que uma pandemia mundial pode fazer com que a sociedade repense seus métodos de consumo e modo de vida. Essa afirmação – propagada constantemente nas redes sociais -, parece esquecer que no Brasil, na última semana, chegamos nos dez mil mortos, aliado ao despreparo de um governo genocida que estamos enfrentando. Não me parece justo, e nem que faça algum sentido, que milhares de pessoas tenham precisado morrer para que “alguém”, encontre uma maneira mais igualitária de viver o capitalismo.

A desigualdade escancarada na pandemia

Não é um grande segredo para ninguém que vivemos em um país extremamente desigual; esse fato, porém, parece surpresa para alguns, uma novidade em meio à pandemia do Covid-19. Resultado de uma calculada política neoliberal e de ultradireita, os números não mentem e as vítimas do vírus também não. As periferias concentram grande parte do número de mortos, e um levantamento mostrou que 60% dos leitos de UTIs do SUS na cidade de São Paulo encontram-se nas localizações mais ricas da cidade.

Enquanto isso, o Estado falha nas poucas medidas que propôs para auxiliar os brasileiros, com milhares de pessoas em vulnerabilidade social que ainda não conseguiram receber a quantia de R$600,00, valor quase insuficiente para sustentar uma família em tempos de pandemia, em que as relações de trabalho se tornam ainda mais informais, e o Capital se aproveita da oportunidade para acumular lucro em cima dos trabalhadores.

Com a ausência latente do Estado, são as Organizações da Sociedade Civil e membros chave das comunidades que se organizam entre si. As ações variam entre entrega de cestas básicas, à atendimento psicológico, distribuição de kits de higiene, e campanhas de conscientização. O Instituto Marielle Franco mapeou diversas iniciativas que estão agindo nas periferias de todo o Brasil. 

O coronavirus e o impacto em escolhas coletivas e individuais

Além de pensar nas consequências do vírus na sociedade em geral, em alguns dias, refleti também sobre atitudes individuais (que, quando pensadas de modo coletivo, possuem maior impacto) e também me deparei tantas vezes com a pergunta: “será que as relações afetivas vão mudar depois da pandemia?”.

Esse questionamento, como tantos outros, encontra-se sem resposta por enquanto. Estamos vivendo um momento em que o não saber é mais forte do que o saber. É complicado prever as próximas semanas, quem dirá, o futuro. Mas algumas coisas se sobressaíram para mim nos últimos dois meses de quarentena: os relacionamentos que eu considerava fortes se mantiveram, e os superficiais, não duraram.

Também me perguntei muitas vezes, por quê, no balanço de um momento de tanta instabilidade e saúde mental desequilibrada, manter algumas coisas que não preenchem de verdade. Que não são carregadas de significado; que não contribuem ou são vazias. Talvez seja importante pensar em como algumas coisas pareciam tão fundamentais até dois meses atrás, e hoje, não são tão relevantes assim, em momentos como esse. 

Em um mundo em que negacionistas da ciência tomam o poder e bilionários usam suas redes de influencia para dissipar fake news, me parece mais importante não esquecer daquilo que é realmente significativo: não abandonar suas ideologias e convicções políticas que acreditam em uma sociedade menos exploratória. E colaborar, da maneira que for possível, com aqueles que estão tentando sobreviver à essa pandemia em um Brasil desajustado e que vai contra o seu próprio povo.

  1. Camila Faria Mai 25, 2020

    Eu sempre me pego pensando nesse discurso de que “tudo vai ser diferente” quando a pandemia passar. Sou muito cética, então tenho uma tendência a duvidar muito de tudo. Não sei se existe uma maneira mais igualitária de viver o capitalismo ~ não seria o capitalismo o oposto disso? Mas a gente quer acreditar que as pessoas vão ficar mais conscientes do coletivo e menos egoístas, né Ana? Muito bom o texto!

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