Vidas negras importam. E foram as vidas negras aquelas usadas para produção de algodão nos Estados Unidos no período escravagista.

O algodão é protagonista na indústria têxtil há muito tempo. Se hoje ele é a fibra natural mais utilizada e produzida no mundo, é porque há décadas ele circula nos mercados capitalistas. Seu cultivo é muito antigo – data antes mesmo do surgimento de mercados – mas sua produção foi uma das primeiras a se industrializar, no período da Revolução Industrial europeia, principalmente na Inglaterra. Sua produção contribuiu muito para essa Revolução Industrial, e enquanto mulheres e crianças trabalhavam exaustivamente em grandes tecelagens em lugares como Manchester (Reino Unido), pessoas africanas eram sequestradas do seu continente de origem e escravizadas em imensas plantações de algodão nos Estados Unidos – e em outras.

O sul dos EUA foi um grande exportador de algodão, então consequentemente um grande produtor. Muitos fazendeiros de algodão eram senhores de escravizados e, embora a fibra e tecido não fossem o principal item no comércio global da época, milhares de pessoas negras foram escravizadas para produzi-lo. Mais tarde, o mesmo Sul dos Estados Unidos teve o racismo legislado por meio da segregação racial. Hoje, esta mesma segregação segue em curso, não em leis, mas institucionalizada e intrínseca em todo o território do país. E no dia 25 de maio de 2020, um homem negro chamado George Floyd foi assassinado brutalmente pela polícia estadunidense, se somando a outras violações de vida que o racismo promove e escancarando as mazelas da escravidão e o racismo como uma política.

Isso revela como os sistemas produtivos da moda (têxtil ou vestuário) muito se sustentaram por meio de sistemas exploratórios e perversos, que deixam suas marcas de morte até hoje. O algodão deste período foi produto do sistema escravagista, foi produto da morte de pessoas negras. E esse mesmo sistema revela suas sequelas até hoje, com o assassinato de George Floyd, com as balas perdidas que sempre acham corpos negros como do João Pedro e João Vitor, com a morte de tantos outros que viram estatística, e com a morte de poder sonhar e viver em paz, respirando.

Não sendo um problema exclusivo dos EUA, o Brasil tem suas peculiaridades dentro de um mesmo contexto de racismo estrutural. E embora a colonização e escravidão aqui tenham sido diferentes, com menos campos de algodão e mais campos de café e açúcar, vemos a manifestação desse mesmo racismo que também mata pessoas negras, expulsa comunidades quilombolas de seus territórios, marginaliza a população negra e a deixa à deriva da desigualdade. Esse processo se dá, ainda, muito por meio da exploração da Natureza, que mistura a exploração das pessoas nesse grande conglomerado de injustiças. A violência se renova e percorre toda a cadeia produtiva da moda, onde inúmeras pessoas, em sua maioria mulheres, são submetidas a condições de escravidão contemporânea e o racismo segue mostrando sua face dos campos às passarelas.

Por isso precisamos olhar para o passado da indústria da moda e entender suas implicações no presente. Afirmando nosso compromisso com uma revolução na moda – e cientes do muito que ainda precisamos caminhar – acolhemos a necessidade de construir atuações firmemente antirracistas no presente, para que não exista mais um necrofuturo para muitos.

É urgente revolucionar a moda porque vidas negras importam. E sempre importaram.

Texto postado originalmente no blog do Fashion Revolution Brasil

  1. Fernanda Rodrigues Jun 06, 2020

    Esse texto é fundamental, porque é importante destacar o racismo em TODAS as áreas e em todas as vertentes. Quanto mais a gente trouxer esse assunto para a discussão, mais as pessoas falarão e serão convocadas para repensarem as próprias atitudes.

    O diálogo é fundamental hoje e sempre, porque – como você bem disse – vidas negras importam hoje e sempre importaram.

    Um beijo,
    Fernanda

  2. Simone Benvindo Jun 15, 2020

    Esse e texto é muito importante para entendermos o quanto o racismo e a exploração da vida negra está enraizada na sociedade

  3. Simone Benvindo Jun 15, 2020

    Esse e texto é muito importante para entendermos o quanto o racismo e a exploração da vida negra está enraizada na sociedade

  4. Thami Sgalbiero Jun 17, 2020

    Esse post foi de extrema importância pra mim. Sempre fui de pesquisar por curiosidade de cada coisa que eu vejo, mas o levantamento da campanha Black Lives Matter me trouxe muitos textos e reflexões que estavam faltando para aprimorar meu conhecimento. Porque não adianta, por mais que eu leia e procure, mais coisas vão surgindo e eu vou descobrindo. Por exemplo, não sabia dessa exploração em relação ao algodão e por isso agradeço o compartilhamento desse post aqui. Então, obrigada pelo post! E, como fazia tempos que não entrava aqui, agora que vi o layout novo e eu amei!

    Beijos!

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