Julho 28, 2020 por em Elas Indicam, Séries

Em Junho de 2020, o Pride Month (o mês do orgulho), que ocorre todos os anos, foi um pouco diferente: as comemorações tiveram que ser feitas de maneira virtual em ocorrência da pandemia do covid-19. A parada LGBTQI+ em São Paulo, que reuniu mais de três milhões de pessoas na Av. Paulista ano passado, foi cancelada. Esse é um dos maiores eventos da América Latina. O contexto é de dificuldade, mas isso não foi motivo para não comemorarmos o mês do orgulho no nosso país, de maneira virtual.

Não é novidade para ninguém que ser LGBTQI+ no Brasil não é nem um pouco fácil. No primeiro semestre de 2020, chegamos a 89 assassinatos de pessoas transsexuais (pode haver subnotificações). Esses relatórios são publicados com periodicidade pela Associação Nacional de Travestis e Transsexuais; o governo brasileiro raramente estuda ou divulga tais informações. A pandemia agravou ainda mais a situação da comunidade trans e dos LGBGTs no geral, que sofrem com a vulnerabilidade, a falta de moradia e a dificuldade com os trabalhos autônomos, que se tornaram mais difíceis de serem realizados durante a quarentena.

Nos últimos dois meses de quarentena, mergulhei em seriados, documentários e filmes com protagonistas, personagens e cenários ambientados por LGBTQI+. Para quem está dentro da bolha, pode não parecer novidade essa representação na televisão, mas ela ainda é. Praticamente todas as plataformas que oferecem esse conteúdo são privadas e pagas (como Netflix, Amazon Prime e Hulu). Ou seja, elas possuem um nicho específico. Na TV aberta, ainda é raríssimo: um simples selinho gay é um grande acontecimento.

Boca a Boca, série brasileira

Porque não começar falando de uma produção nacional? Com lançamento no final de Julho na Netflix, a série dirigida por Esmir Filho, Boca a Boca, tem um quê de distopia, e um elenco afiado. Em uma cidade do interior de Goiás, adolescentes são vítimas de um vírus contagioso que se transmite pelo beijo na boca (qualquer semelhança é mera coincidência; a série foi gravada em 2019 antes da pandemia!). Os três protagonistas são Fran (Iza Moreira), Chico (Michel Joelsas) e Alex (Caio Horowicz).

A série toda tem menções honrosas, pois sua produção é incrível, mas o foco aqui é abordar o relacionamento mais interessante de Boca a Boca, o de Chico e Amarílio (Thomas Aquino). Thomas se destacou ano passado por interpretar o Pacote em Bacurau, e volta mais uma vez com um personagem interessante; o relacionamento dos dois tem um quê de polêmico, por Chico ser um adolescente e Amarílio, mais velho. Os dois atores possuem muita química e envolvimento, e é legal ver a subversão do personagem do Chico em ser um jovem bissexual, pois a saída mais fácil (e clichê), seria torná-lo um tipo de galã na série, e um personagem hetero.

Assistir Thomas de Aquino na pele de Amarilio, um trabalhador que cuida da fazenda desde o início da sua vida e ainda não é assumido, é muito interessante. Ele e Chico se conhecem por meio de um aplicativo, e a atração é mútua. Mas o relacionamento é construído com muita tensão e conflito aos poucos, já que Amarilio se sente culpado e Chico, por mais liberto que seja, ainda está iniciando a sua vida sexual com homens e aprendendo a se aventurar. Mais que abordar relacionamentos heterossexuais e panfletários que poderiam agradar o grande público na Netflix, Boca a Boca apresenta diversidade e relações bem fora do padrão heteronormativo.

Love, Victor é uma abordagem sobre descoberta

Baseado no livro de Becky Albertalli, “Simon vs A Agenda Homo Sapiens”, e transformado no filme “Love, Simon”, a versão de 2020, lançada no Hulu, é dessa vez protagonizada por Victor Salazar (Michael Cimino), um jovem de origem latina que se muda do Texas para Atlanta com a família, no meio do ensino médio. À primeira vista, a série parece carregar clichês de produções adolescentes, o que não deixa de ser verdade. Mas a produção, que inicialmente ia ser produzida pela Disney+ e foi refutada pelo canal por trazer o tema LGBTQI+ como premissa principal, teve a chance de ser exibida apenas em outro streaming alternativo (que ainda não chegou no Brasil).

A diferença fica com o protagonismo de um jovem latino, e da presença constante de sua família trabalhadora, nos episódios. No filme “Love, Simon”, tínhamos um protagonista branco e de classe média alta, com pais que facilmente aceitavam o fato dele ser gay. As diferenças entre Victor e seus colegas são visíveis, e poderiam ter sido mais bem exploradas na série, inclusive. Com pais e avós conservadores, a jornada do personagem foca na descoberta da sua sexualidade, e na atração pelo colega de trabalho Benji (George Sear), que tem namorado e é assumido.

A série recebeu algumas críticas da própria comunidade LGBTQ, por trazer um ator heterossexual no papel principal, e por ser uma narrativa mais adolescente. Porém, é importante lembrar que representações e visibilidades como essa, em que um garoto de 16 anos precisa aprender a lidar com as expectativas da família e com seus desejos amorosos, fazem parte da vida de muitos adolescentes. Talvez para a faixa etária dos 20-30 anos, histórias como essa não sejam mais relevantes, mas elas nunca deixarão de ser, pois na vida real, ainda há milhares de garotos e garotas tentando se descobrir por aí em meio a famílias brasileiras ultraconservadoras.

Pose é a obra prima de Ryan Murphy

Uma das séries mais representativas do momento, Pose chegou em 2018 com uma primeira temporada de oito episódios, e um elenco majoritariamente negro e transsexual. A história se passa na Nova York oitentista, com muitas referências ao ballroom, a cultura e as dificuldades que a comunidade LGBTQI+ enfrentou e ainda persiste até os dias de hoje. Proibição de frequentar bares, arrumar vagas de emprego e estudar são problemáticas que ainda encontramos no Brasil de 2020. O elenco principal é maravilhoso: formado por MJ Rodriguez, Indya Moore, Dominique Jackson, Billy Porter – que conquistou um Emmy pela sua atuação -, Ryan Jamal Swain, e outros, são atores que se firmaram na indústria e também, em grande parte, são ativistas fora das telas.

Com uma paleta de cores entre rosa, vermelho e a noite na cidade de Nova York – seja no píer ou no cenário dos bailes -, Pose nos apresenta Blanca Rodriguez, que foi despejada de casa quando adolescente. Ela decide criar o seu próprio lar, acolhendo o jovem Damon, que vive nas ruas de Nova York, sua parceira dos bailes Angel, e posteriormente, Ricky, que também dormia no banco de um parque. Os temas da série são pertinentes e resgatam fundamentos da resistência da comunidade LGBT: a população trans sempre esteve na linha de frente, seja na Rebelião de Stonewall, iniciada por duas mulheres trans – Marsha P Johnson e Sylvia Riveira, em 1969 -, ou pavimentando espaços seguros e acolhedores.

A primeira temporada também retrata, além dos conflitos pessoais de cada personagem, o crescimento do vírus HIV. Um dos pontos mais interessantes é a presença dos personagens soropositivos, desmitificando diversos preconceitos com a doença, que eram ainda mais fortes na década de 80 e 90; a sobrevivência é sempre retratada durante os episódios, e o fato de que a união entre a comunidade LGBT é por vezes, a única coisa que os personagens possuem, já que são excluídos constantemente da sociedade.

Menções honrosas

  1. Thami Sgalbiero Ago 02, 2020

    Vi que a Doritos fez uma ação na Avenida Paulista esse ano, vi nas redes sociais só. Essa pandemia está ajudando muito no meu aprendizado, eu to lendo e assistindo muitas coisas que estão formando meu conhecimento em assuntos que eu não domino, um deles é sobre os LGBTQ+. To doida pra ver esse Boca a Boca desde quando anunciaram com o trailer. Netflix prevendo os acontecimentos de 2020, haha! E eu to vendo muitas críticas boas dessa série. AAAA já botei Love, Victor pra assistir aqui na lista. Amei “Love, Simon” e acredito que vou gostar da série, amo clichês!!! Inclusive a Disney ia lançar o Disney+ e acho que desistiram né? Não cheguei a acompanhar mais sobre o lançamento do stream. Gostei dessa diferença de inserir um jovem latino na história. Essa Pose é que eu não conhecia e não estava sabendo dela. Já vou deixar anotada! Inclusive, vou deixar esse post salvo. Adorei demais esse post!

  2. Lívia Gomes Ago 05, 2020

    Curto muito seus posts, são muito bem criativos e interessantes.. Sempre estou aqui lendo e compartilhando com minhas amigas…

    Beijos ?.

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