Julho 8, 2020 por em Criticamente moda, Moda

A moda de luxo convencional não é descolada das problemáticas e dos sistemas de exploração da indústria – como racismo e sexismo

O mercado de luxo de moda convencional movimenta bilhões anualmente. Pega a visão: um dos maiores grupos do segmento, LMVH (Moët Hennessy Louis Vuitton), que engloba algumas marcas como Louis Vuitton, Givenchy, Dior e Fendi, encerrou 2019 com lucro líquido de 7,2 bilhões de euros. E mesmo durante a pandemia, elas continuam lucrando: no primeiro dia de reabertura pós-quarentena, a loja da Hesmès na China faturou 2,7 milhões de dólares.

De fato, o luxo realmente custa muito caro. E tem pessoas que pagam até com a própria vida: uma reportagem investigativa do @nytimes, de março de 2020, revelou que  trabalhadoras indianas trabalham até 17h por dia, ganhando 20 dólares, para fazer bordados e aplicações em peças vendidas por algumas dessas marcas. Muitas delas publicizam pouco, ou quase nada, sobre suas cadeias produtivas e de fornecimento, como apontou o Índice de Transparência da Moda Global de 2020, onde Versace e Dolce & Gabbana pontuaram só até 20%, por exemplo. Bonito na passarela… mas e na luz dos bastidores?

Muito falamos do sistema de escravização moderno que chega ao fast-fashion e tendemos a esquecer que ele também chega ao luxo. Não é porque uma peça custa 20 mil dólares que temos a garantia que ela foi produzida de maneira justa. Também não temos a garantia de que a modelista, costureira, bordadeira, recebeu o equivalente a isso. Na verdade, isso nem é muito possível no sistema desigual e capitalista em que vivemos.

As questões não acabam por aí: quem ocupa posições influentes nessas estruturas? Sabia que diretor criativo da Balmain, Olivier Rousteing, é um dos únicos negros à frente desses cargos de liderança? Ainda podemos acrescentar casos de apropriação cultural – alô, Prada? -, casos de preconceito e xenofobia, casos de incineração de milhares de peças. É caso pra mais de metro, mesmo.

A centralidade desse “luxo” ser direcionada à Europa anda ao lado de raízes colonialistas e imperialistas que a moda pode carregar e criar; não é à toa que Chanel, Fendi, Alexander McQueen e Gucci tiveram suas vitrines quebradas e estampadas com frases de repúdio como “faça a América pagar por seus crimes contra os negros” nos protestos intensos do movimento negro nos EUA mês passado. Até quando a moda vai se limitar ao centro, sendo que, na verdade, a margem é quem sustenta tudo? 

E não é doido? Enquanto mulheres não-brancas são exploradas na Índia, essas grandes marcas seguirem bilionárias? E não é doido como seguem existindo pessoas bilionárias que podem comprá-las?

As roupas podem ser, esteticamente, muito bonitas (sem nem entrar nas definições de o que é belo ou deixa de ser na moda, o que também dá pano pra manga). Mas é luxuoso para quem? O que o mercado de luxo convencional, para além da vestimenta, tem sustentado? O que perpetua? É essa realmente a moda que queremos ver, e manter? 

São marcas gigantes que acumulam riquezas e cifrões, até fazem discursos inflamados sobre sustentabilidade aqui ou ali, mas nunca ousam falar na redistribuição dessas mesmas riquezas. E em territórios construído a base da escravização de vidas negras, da perseguição de povos da floresta, da colonização e marginalização, esses grandes cifrões aculumados vem a partir dessa dinâmica perversa. 

Se a gente quer mesmo mover estruturas na moda, a gente precisa mudar as lógicas socioeconômicas e sair do modelo de acumulação, o que faz necessário a gente olhar com uma lente mais subversiva para o mercado de moda de luxo. A revolução também tem que chegar até ali.

  1. Camila Faria Jul 19, 2020

    O triste é pensar que quem consome esses artigos de luxo pensa muito pouco sobre essa cadeia nociva. 🙁

  2. Simone Benvindo Jul 19, 2020

    São bilhões as custas de trabalho escravo, a mudança precisa começar de cada um.

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