Agosto 31, 2020 por em Elas Participam, Meio Ambiente

Foto: Miika Laaksonen via Unplash

Em Maio de 2020 eu completei seis meses sem comer carne. É curioso pensar em como, quando algo se torna um hábito, aquilo vira relativamente mais simples de ser seguido. É parecido com tomar aquele café todos os dias de manhã: conscientemente, você pensa nas suas escolhas, até se tornar automático. Mas como nada surge de um dia para o outro, a jornada até chegar aqui demorou um tempo considerável (quase um ano). Quando você percebe que o que está no seu prato é uma decisão política, assim como as compras que você faz no supermercado, as roupas que você veste, os livros que você lê ou o político que você vota nas eleições, todas as suas decisões começam a ter um peso maior.

O pontapé inicial

Parar de consumir carne era uma ideia que até poucos anos atrás, parecia remota pra mim. Eu já sabia das minhas convicções políticas, mas foi com o aprofundamento das minhas ideias e com a influência de muitos amigos, que mostraram que não era nada fora do normal não comer um frango no almoço, que eu comecei a repensar hábitos e escolhas. Todas elas pareciam intrinsicamente ligadas com as coisas que eu acreditava: uma política e ações mais igualitárias, mais justas, anti-capitalistas. De onde surgia a carne que eu comia? Que sistema de exploração eu estava incentivando? E muito mais do que uma questão pessoal, como era a indústria da carne?

Os dados não mentem

As estatísticas e as pesquisas científicas foram os meus melhores amigos na hora de repensar o meu consumo de carne. Os relatórios, desenvolvidos a décadas, são específicos: a produção de carne emite o mesmo volume, ou mais, de Gases de Efeito Estufa que automóveis, aviões, carros, e outros meios de transporte, juntos. Uma campanha do Greenpeace no Brasil contra os impactos da pecuária na Amazônia alerta que o agronegócio é o principal vetor de desmatamento da região. A campanha “Carne ao Molho Madeira”, mostrou que todos os principais frigoríficos do Brasil tem participação ativa de atuação na maior floresta tropical do mundo.

O nosso bife do final de semana está intimamente ligado aos desastres ambientais, mas é claro que a culpa está (muito) longe de ser individual, ou apenas de quem quer curtir um churrasco no final de semana. As grandes corporações são as verdadeiras responsáveis pelo desmatamento e a criação de gado ilegal: em relatório da Anistia Internacional, a JBS, uma das maiores empresas de criação de gado, é acusada de não fazer nenhum monitoramento da origem de sua produção, comprando gados criados em fazendas de áreas protegidas e em territórios indígenas. Uma pesquisa realizada pela organização Carbon Disclosure Project (CDP), mostra que apenas 100 empresas no mundo são responsáveis por 71% das emissões dos gases de efeito estufa.

Um sistema econômico baseado na exploração; propagandas na televisão exibidas em horário nobre que anunciam a frase: “o agro é pop”; um desgoverno brasileiro que afirma querer “passar a boiada” durante uma pandemia mundial, quando a sociedade está distraída; o genocídio dos povos indígenas e originários; a visão do lucro sem fim e a qualquer custo; foi assim que a carne deixou de ser apenas carne para mim.

Como iniciar um novo hábito?

Em Novembro de 2019, eu já havia lido livros, artigos, sites e acompanhado a rotina de amigos vegetarianos e veganos. O Segunda sem Carne era algo presente nas minhas semanas; a informação já estava ali, guardada e mastigada. Agora era necessário tomar o primeiro passo, de decidir, definitivamente, não comer mais carne a partir daquele dia, quando a família toda ia jantar pizza. E vamos de pizza de brocólis.

No início, o momento de virada nunca é muito simples: comer carne é algo extremamente cultural, e está presente nos lugares que você ainda nem percebia. É também motivo de celebrações em muitas famílias, sinal de saúde financeira e de ascensão social. Esse alimento representa inúmeras coisas. E é necessário respeitar essa escolha que outras pessoas fazem. Porém, para mim, naquelas primeiras semanas, foi importante reassumir meu compromisso comigo mesma e seguir firme. Em alguns dias eu até sonhei com hambúrguer, confesso, mas quase dez meses depois, a rotina ficou mais simples, pois você embarca em uma jornada de ressignificar pratos, sabores e alimentos.

O trabalho de quem me inspirou a ser vegetariana

Nem só de força de vontade vive o ser humano. Foram meses – e é, até hoje – outras pessoas que me inspiram e fazem eu seguir minha dieta alimentar sem consumo de carnes, frangos, peixes e outros produtos de origem animal. O Modefica desempenhou um papel crucial na minha politização sobre questões ambientais; eu já havia lido muito sobre pautas importantes, mas ainda não havia feito a ligação essencial entre o problema de um sistema exploratório e um meio-ambiente degradado, com a misognia, a LGBTfobia e o racismo.

Já o Outras Mamas Podcast, criado por Babi Miranda e Thais Goldkorn, me ensinam diariamente a debater, refletir e lutar por uma narrativa antiespecista e socialista, unido a um feminismo interseccional. A influência crucial do movimento afrovegano da Luciene Santos e da Nátaly Neri seguem sendo fundamentais, pois os movimentos vegetarianos e veganos não podem sustentar bases racistas e classistas.

As fontes são inúmeras, e aprender com os mais experientes é essencial. Não há uma fórmula pronta para a consciência política ou os motivos pelo qual eu decidi parar de comer carne, pois eles estão sempre em construção; é necessário se questionar a todo tempo sobre suas decisões, e principalmente, querer saber a origem de cada uma delas.

  1. Thami Sgalbiero Ago 31, 2020

    Gostei desse exemplo que você usou do café, porque, realmente, antes eu não tinha esse hábito de tomar café todos os dias de manhã e meu avô fazia café todos os dias. Eu só fui criar esse hábito mesmo quando comecei a trabalhar, que aí eu tomava o café e me sentia bem. E até tomava o café 2x no dia, uma vez de manhã e outra a tarde logo depois do almoço. Agora eu tomando só de manhã mesmo, porque to desempregada então não vi motivo pra tomar a tarde, haha! Mas enfim, sobre a carne, acho que o máximo que fiquei foi 1 mês. Porque minha irmã estava tentando também, daí eu comia tudo o que ela comia. Ela só não pôde continuar, porque teve uns problemas de saúde e agora voltou a comer. Pro caso dela, é bom antes ter um acompanhamento de uma nutricionista pra não ter complicações, sabe? O ruim é que não achamos ainda uma nutricionista focada nessa alimentação que o plano dela cubra. Você mencionou ali a pizza de brocólis e eu só consigo lembrar da pizzaria que tem no iFood que tem uma pizza de brocólis premium que… nossa, só pela foto já me dá fome. É a mesma pizzaria que eu peço a pizza de banana nevada que também é uma delícia, então já sei que a de brocólis também vai ser, haha! Enfim, é um novo hábito que ajuda de várias formas né? Nós mesmas e o mundo. Então, é uma decisão boa e eu admiro muito quem consegue mudar e continuar.

  2. Fernanda Rodrigues Set 01, 2020

    Oi, Ana! 🙂
    Eu ainda não consegui parar, mas eu estou diminuindo muito o consumo de carne. Seu post me inspira a continuar nesse caminho de redução. Espero conseguir chegar no Zero carne.
    Obrigada por compartilhar a sua experiência!
    Um beijo :*

  3. Ane Carol Set 18, 2020

    Parabéns pelos seus primeiros 6 meses. Já fiquei uns 60 dias sem consumir nada de origem animal. Esse período para mim foi importante para descobrir um novo universo de possibilidades, principalmente relacionado a culinária vegana. Hoje em dia meu consumo de carne reduziu bem, assim como de outros produtos de origem animal, mas não exclui do meu cardápio. Porém, comecei a analisar meu consumo relacionado a roupas, produtos, livros e etc. Tudo é um processo e aos poucos vamos caminhado para nossa melhor versão.

Destaque

© 2020 ELAS DISSERAM // DESIGN @LUIZFROST // PROGRAMAÇÃO @SARASSILVA