Outubro 2, 2020 por em Elas Indicam

“Quando se escava um pouquinho abaixo da superfície, a vida de qualquer um pode ser original, interessante, cheia de nuances e impossível de encaixar numa definição fácil.”

“Os Sete Maridos de Evelyn Hugo” foi um livro que chegou até as minhas mãos este ano de maneira curiosa: um amigo, insistentemente, me incentivou a ler o livro, dizendo diversas vezes que eu iria amar a história. E ele fez o mesmo com outro grupo de pessoas: a pressão foi tanta, que todo mundo apostou no livro da autora norte-americana Taylor Jenkins Reid ao mesmo tempo; realizando a leitura praticamente nas mesmas semanas. Não é a toa que o lançamento, escrito pela autora em 2017, chegou com bastante euforia no Brasil no final do ano passado, se tornando o livro young adult mais comentado nas redes sociais em 2020.

Entre grupos de debate, discussões e muitas resenhas no Youtube, o título de Os Sete Maridos de Evelyn Hugo pode te enganar de primeira. Eu confesso que pensei: “ué, mais um romance?”. Mas se você já conhece o hábito da autora Taylor Jenkins Reid de criar personagens com um toque absurdamente verossímil, não vai se deixar enganar como eu. Com uma protagonista construída em camadas e trabalhada aos detalhes nas mais de 300 páginas do livro, você sente que Evelyn Hugo foi sim, uma pessoa real.

Apesar de Evelyn levar o nome do livro, a narradora da história é Monique Grant, uma jornalista que terminou o relacionamento recentemente, está infeliz na carreira e mora sozinha em um apartamento em Nova York. Monique espera, ansiosamente, pela chance de se destacar como repórter na revista que trabalha. E a sua grande chance aparece justamente quando ela recebe um convite misterioso – e surpreendente -, de entrevistar Evelyn Hugo, uma estrela do cinema da década de 60, que agora beira os 80 anos.

Uma personagem fictícia que poderia ser real

Esse não é o primeiro livro que a autora Taylor Jenkins Reid aborda a indústria artística. A criadora dessa história já trabalhou como assistente de produções cinematográficas, o que talvez tenha sido um dos motivos que a inspirou tanto a escrever sobre os “bastidores”. O grande trunfo da autora é que, em Evelyn Hugo, ela cria uma protagonista tão realista, que você quase checa no Google se ela não existiu de verdade. A narradora, Monique, tem a chance de conhecer a jornada de Evelyn desde o início, algo que a mídia nunca teve acesso.

O que a maioria do público sempre soube é que Evelyn possuiu uma vida amorosa conflituosa, tendo se casado sete vezes, mas eles nunca souberam a verdade sobre sua jornada. Cada capítulo, em tese, leva o nome de um marido, mas eles se dedicam, na verdade, a contar trajetórias da carreira e da vida pessoal de Evelyn. Filha de uma cubana imigrante nos Estados Unidos, a personagem cresceu com um pai abusivo e foge de casa, se casando cedo apenas para poder se livrar daquele lar tóxico. Seu sonho era entrar na indústria do cinema, mas ela sabia que teria que se adaptar e jogar o jogo sujo e machista de Hollywood para se destacar – principalmente por ter raízes latinas, e sofrer pressão para mudar a sua aparência.

A representação LGBTQI+ no gênero jovem adulto

Se você é um leitor assíduo, pode ter na sua prateleira alguns bons títulos LGBTQI+ já conhecidos do público que lê o nicho jovem adulto: “Simon vs A Agenda Homo Sapiens”, de Becky Allbertali, “Quinze Dias”, do brasileiro Vitor Martins, “Me Chame Pelo Seu Nome” de André Aciman, “Conectadas”, de Clara Alves… mas, estatisticamente – e na lista dos mais vendidos – é raro ver um livro LGBT que trate sobre o amor entre duas mulheres; de maneira surpreendente e tirando o fôlego do leitor, Taylor Jenkins Reid constrói uma dos romances mais bonitos do young adult: o de Evelyn e Célia St. James.

A história das duas se inicia quando Evelyn já está praticamente no topo em Hollywood, e a mídia coloca outra atriz no mesmo patamar que ela: Célia também é uma jovem promissora na carreira, conquistando papéis importantes, mas diferente da nossa protagonista, ela possui uma vida pessoal privada. O que começa com uma amizade intensa entre as duas, se transforma em paixão: primeiro de maneira platônica por Célia, depois correspondida por Evelyn.

“Como é que ela sabe exatamente o quanto deve expor e o quanto deve dissimular? Será que isso vai mudar, agora que ela se dispôs a falar? Ou ela vai fazer comigo o que fez durante décadas com as plateias de cinema? Será que Evelyn Hugo vai me contar apenas o suficiente para me deixar intrigada sem revelar nada de fato?” Capítulo 02, pág. 19

Até os seus 80 anos de idade, quando decide revelar a sua vida pessoal – sem mentiras – para a jornalista Monique, para que ela escreva uma biografia, Evelyn Hugo sempre escondeu da mídia o fato de ela ser uma mulher bissexual. Para tentar salvar a sua carreira durante décadas, ela sobreviveu ao machismo, as tentativas de abuso e assédio sexual, e a pressão da indústria para que ela fosse apenas uma marionete.

Com uma personalidade forte e disposta a fazer de tudo para se manter no topo como uma atriz de sucesso, Evelyn se casa diversas vezes, com homens que nunca amou, para que ninguém descobrisse o seu segredo. Ao mesmo tempo, Célia sempre quis que as duas se casassem e vivessem juntas; em diversos momentos a bissexualidade de Evelyn também é trabalhada durante a leitura, e como ela foi constantemente questionada, julgada e descreditada por amar mulheres e homens.

O livro também aborda momentos históricos muito importantes, como a Rebelião de Stonewall em 1969, que teve como líder duas mulheres trans: Marsha P Johnson e Sylvia Rivera; e o início da epidemia da AIDS nos anos 90. Coincidentemente, na época que eu estava lendo o livro, também assisti a primeira temporada de Pose, que aborda justamente temas semelhantes.

Em uma entrevista que concedeu em 2017 – ano de lançamento do livro nos Estados Unidos – a autora revelou que sempre quis escrever uma história sobre duas mulheres que se amam, e que ela sabia que seria um risco lançar um livro que falava sobre personagens queer, o interesse de uma mulher em sua própria sexualidade, e ambição feminina.

E é exatamente por esses temas que “Os Sete Maridos de Evelyn Hugo” possui uma roupagem diferente da maioria dos livros que você já leu. É surpreendente, honesto, e quebra os conceitos das publicações com protagonistas femininas.

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