Novembro 2, 2020 por em Elas Participam
Poder para as urnas – Arte: Women’s March

Eu não me lembro de ter me envolvido tanto em eleições, como no ano de 2018 e 2020. No passado, ainda na época do ensino médio, eu já me importava consideravelmente com a situação política do Brasil, mas muito por influência dos meus pais. Já nas eleições presidenciais, não tinha como fugir: o ato de votar e digitar um número nas urnas parecia ser capaz de decidir muito mais do que os próximos quatro anos, mas o futuro de milhares de brasileiros, principalmente daqueles que lutavam para sobreviver e ter seus direitos assegurados. Se uma parte da juventude ainda não se importava com política, foi talvez naquele momento, que grande parte entendeu que tudo era política.

O curso de Administração Pública, no qual eu estou atualmente na sexta fase, me mostrou com solidez algo que eu já suspeitava: tudo o que fazemos é político. O voto das eleições majoritárias, para presidente, governador e prefeito, é apenas um desses momentos pontuais. O que colocamos no prato, o que dizemos, ouvimos, consumimos, quem são os nossos amigos; grande parte disso também é uma atitude política. E essas, se tornam ainda mais significativas quando vivemos em um país com uma democracia enfraquecida, que dependendo do governo, pode tombar com uma facilidade maior do que imaginamos. Não faz tanto tempo assim que o Brasil saiu da Ditadura Militar ou que a Constituição de 1988 – que vive sendo ameaçada -, nasceu.

O aquecimento para 2022

Não é segredo para ninguém que, quando a trupe de ultradireita e reacionária de Jair Bolsonaro se elegeu para a presidência, não foi só ele que ocupou postos de poder; governadores de estados-chave se elegeram na carona do partido PSL, como em Santa Catarina, Rondônia e Roraima, com políticos que participaram das eleições pela primeira vez. Já em 2020, nas eleições para governadores, o ex-partido de Bolsonaro é, junto com o Republicanos, o que mais possui candidatos para vereador no Brasil, com mais de 3.000 candidaturas, em torno de 30 ou mais candidatos nas 95 maiores cidades do país.

Com esses dados, fica fácil perceber que a eleição para presidente está longe de ser a única que possui relevância. É escolhendo os vereadores e prefeitos certos, que podemos começar a mudar o quadro político do país, iniciando pela nossa própria cidade. É importante também se informar sobre como as eleições funcionam, pois temos a questão das coligações partidárias e do quociente eleitoral. E se atentar também ao partido do seu candidato, que representa as bandeiras e a ideologia que ele acredita.

Todas essas decisões e votos importam e vão refletir nas próximas eleições. Sim, parece que estamos presos nesse desgoverno caótico à muito mais do que dois anos, porque as notícias ruins (desmonte do SUS, privatização, reitores escolhidos de maneira autoritária pelo presidente nas Universidades Públicas, descaso do covid-19, queimadas do Cerrado, Pantanal e Amazônia, genocídio das comunidades indígenas e da população negra) não terminam e as coisas parecem longe de se tornarem melhor. Mas mesmo o caminho sendo longo, nosso voto de hoje vai significar muita coisa em 2022, principalmente quando se fala na base política e eleitoral.

A representatividade

As estatísticas mostram que quando falamos de mulheres na política, o Brasil é um dos piores colocados no ranking. Na América Latina, ocupamos a terceira posição em menor representação parlamentar de mulheres. Na cidade de Florianópolis, por exemplo, eu fiquei perplexa ao descobrir que em toda a história do parlamento da cidade, apenas 13 mulheres ocuparam a câmara, incluindo as vereadoras suplentes. Segundo o portal Catarinas, o número de mulheres que estão em cargos políticos no Estado é ainda menor, estando em apenas 13% dos legislativo, em comparação à 87% dos homens.

Em 1930, o Estado de Santa Catarina elegeu a primeira deputada negra do país, Antonieta de Barros. Figura histórica em todo Brasil, Antonieta nasceu em Desterro em 1901; sua mãe, Catarina Waltrich, havia sido escravizada, e quando a filha nasceu era liberta; Antonieta acreditava em uma educação libertária e revolucionária, pensamento bem semelhante ao da ativista contemporânea e também professora, bell hooks.

Antonieta é um marco inegável no nosso país. Porém, o racismo estrutural e político impede que novas Antonietas estejam presentes na política: segundo pesquisa do IBGE, apenas 2% das mulheres negras estão no Congresso Nacional, e menos de 1% na Câmara dos Deputados. Nos últimos anos tivemos candidaturas que revolucionaram o espaço da política brasileira. Atualmente, Benedita da Silva (Deputada federal) concorre para à prefeitura do Rio de Janeiro pelo PT, e Renata de Souza pelo PSOL; Talíria Petrone foi eleita vereadora em Niterói em 2016, sendo a mais votada; atualmente, é deputada federal. Áurea Caroline foi eleita também vereadora em Minas Gerais em 2016, e está no cargo de deputada desde 2018.

Os exemplos citados ainda continuam sendo uma exceção. Colocar em prática a política antirracista e feminista tem como chave, escolher representantes que realmente lutam pelas pautas que acreditamos. Mandatos coletivos e campanhas, em sua maioria construídas por jovens, dão mais potencial a esses objetivos.

Um relatório desenvolvido pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, aponta que homens negros são subfinanciados nas campanhas eleitorais. No ano de 2014 isso foi presente, e em 2018, a situação não melhorou: na Câmara dos Deputados, apenas 4% dos homens eleitos eram negros, nas últimas eleições. A maioria dos candidatos que recebem financiamentos altíssimos de campanha (em número de milhões) são os homens brancos, seguido pelas mulheres brancas.

Além disso, os partidos políticos também precisam, de fato, dar espaço para essas candidaturas. Mesmo os partidos de esquerda ainda promovem empecilhos no momento de montar suas chapas, sempre deixando as candidaturas negras em segundo plano, para vice, ou sem sequer darem chances à elas. Na pesquisa da FGV, é apontado que os homens negros formaram 21% das candidaturas para deputado federal, mas receberam apenas 16% das verbas, enquanto os homens brancos chegam em praticamente 70%.

A eleição não é um fim em si mesma

As eleições acontecem a cada quatro anos. E o que fazer nesse meio tempo? Sendo em coletivos, movimentos sociais, partidos políticos e integrando juventudes, a política que nós queremos ver de fato é uma construção de anos, décadas, que perpassa gerações. Algumas reflexões resultam nas urnas, mas ainda há muito trabalho prático a ser feito na rua, no dia-dia e nas manifestações.

Eu sempre ouço falar que a “eleição não é um fim em si mesma”, ou seja, o caminho, o diálogo, o voto e as campanhas nos quais acreditamos, são processos que não ocorrem apenas no dia do resultado; mas é uma ferramenta importante do qual lutamos, um direito da população. Que não deve ser esquecido e que no Brasil de hoje, é mais ameaçado do que nunca, seja pela ultradireita, pelos reacionários ou pelas fake news. Por isso a importância de um voto acertado, e de um engajamento que não seja só a cada quatro anos.

  1. Camila Faria Nov 07, 2020

    Nossa, eu SEMPRE falo isso: TUDO o que fazemos é um ato político. Não me conformo com pessoas que dizem não sem importar ou não gostar de política. Essas últimas eleições presidenciais deixaram um gosto amargo nas nossas bocas e confesso que desanimei E MUITO com os rumos da nossa política… parece que o poço da desgraça não tem fundo. Mas você está certa, a gente tem que dar MUITA importância para o nosso voto e juntar forças para se engajar SIM.

  2. Fernanda Maria Nov 17, 2020

    Gostei bastante do artigo, muito bom mesmo! Estou amando ler seus artigos e compartilhar com os amigos!

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