Janeiro 14, 2021 por em Elas Indicam

A Organização Mundial da Saúde considera a depressão como uma epidemia global. O Brasil é o segundo país das Américas que mais possui casos da doença, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Se antes de sermos atingidos pela pandemia do covid-19, em Março de 2020, a saúde mental já era um tema com necessidade urgente de ser debatido, a quarentena nos lembrou que o isolamento, a crise econômica e política, e a morte de pessoas próximas, levou boa parte dos brasileiros a um aumento de sofrimento psíquico. A pesquisa realizada entre Abril e Maio do ano passado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), pelo laboratório LaNCE, apontou que os casos de depressão e ansiedade no país aumentaram em 80%. E o resultado da pesquisa mostrou que mulheres estão ainda mais propensas a sofrer desse transtorno mental.

Uma protagonista da geração atual imersa na autodepreciação

“Meu Ano de Descanso e Relaxamento”, escrito pela novelista Ottessa Moshfegh e lançado em 2018, é uma obra que divide opiniões. Alguns apreciaram a leitura, outros a acharam extremamente desconfortável; o romance, que é narrado por uma protagonista sem nome, mergulha na vida de uma jovem de 20 e poucos anos, privilegiada, bonita, dentro dos padrões estéticos e sociais, que vive em Nova York. Em tese, ela não teria grandes problemas: é formada em História da Arte e trabalha em uma galeria na cidade, e tem dinheiro assegurado dos pais, já falecidos. Por tanto, quais seriam as grandes questões psíquicas dessa jovem? Não sabemos o nome dela, não sabemos do que ela gosta, mas todos os capítulos são narrados por essa mulher sem nome, que é um retrato de alguém que poderia facilmente se encaixar no modelo meritocrático norte-americano do início dos anos 2000, mas não consegue. Ela vive em um sofrimento espiral, e por isso, quer dormir pelo maior tempo que puder.

A personagem embarca numa jornada de encontrar um psiquiatra – sem grandes compromissos éticos – que a receite o maior número de remédios para dormir. O seu projeto pessoal é se tornar outra pessoa após esse longo ano de sono. Quem sabe assim, ela poderia começar a sentir, algo que é refutado pela protagonista durante toda a história. Lidar com os seus próprios sentimentos é um desafio pra ela, por isso, ela escolhe negá-los. E não que ela tenha uma grande rede de apoio: seus pais morreram, o que é um trauma não resolvido em sua vida, mas que ela detalha pouco. Sua melhor amiga é quase uma sanguessuga, e o seu suposto namorado é abusivo; a personagem sem nome, e sem identidade, vive à deriva de relações que não a preenchem de nenhuma maneira. Ela não gosta da companhia dos outros e seu ideal é viver apenas consigo mesma, imersa num sofrimento sem fim, que ela mesma não entende. Durante todos os capítulos, ela frequenta poucos lugares que não sejam o sofá de sua casa, seu quarto ou o banheiro, todos desorganizados; ela não sente que pertence nem à própria casa.

Coincidência? Apesar do livro ter sido lançado dois anos antes da pandemia do coronavírus, é possível enxergar o livro de outra maneira em tempos de eterno confinamento. No Brasil, iremos completar um ano de lockdown em Março; muitas famílias já não sabem mais como lidar com o aprisionamento, sem a perspectiva de uma vacina; e a própria casa, dependendo das relações familiares, pode se tornar um lugar estranho e indesejado. Como lidar com a saúde mental extremamente precarizada, e a economia em pedaços, em um país que pode chegar a 25 milhões de desempregados após o fim do auxílio emergencial?

E como está a juventude no meio disso?

A protagonista sem identidade de Ottessa Moshfegh não é exatamente fácil de se identificar: o seu status social lhe garante diversos privilégios, e durante a leitura, nos questionamos porquê mesmo com eles, a personagem não consegue ter uma vida minimamente feliz. Pelo contrário, ela está longe disso. Mas é no decorrer da leitura que podemos encontrar semelhanças pequenas com essa mulher jovem que possuí poucas perspectivas sobre o seu futuro, e que passa os meses assistindo filmes em VHS. A história, que se passa em um Estados Unidos no auge do seu capitalismo do american way of life, exatamente um ano antes de ser chocado pelo 11 de Setembro, aponta – pelos pensamentos da própria personagem e críticas que ela tece à quem está ao seu redor – a decadência de um sistema econômico que suga e explora; uma obsessão doentia pelo Mito da Beleza, representado na personagem Reva, que faz de tudo para se enquadrar ao padrão estético da sociedade em que vive; e no egocentrismo e na masculinidade tóxica da única relação amorosa que a protagonista tem, e que ela sustenta, por achar que não merece algo melhor.

Em meio à alfinetadas ao sistema econômico e ao status quo, Ottessa Moshfegh consegue transmitir um pouco da dificuldade – mental e física – que é ser alguém no início da vida adulta tentando construir um futuro. Perspectivas essas, que se tornaram mais complicadas no contexto brasileiro: a média nacional de desemprego entre os jovens de 18 à 24 anos foi de 27,1% no primeiro semestre. O resultado de um neoliberalismo ainda mais escrachado pelo governo Bolsonaro nos levou a zero assistência durante a pandemia, e grande parte dos jovens depende de trabalhos sem nenhum direito trabalhista, como os aplicativos Uber, iFood e Rappi, para colocar comida na mesa.

Além disso, o direito de “quarentena” é algo negado a grande parte da nossa população, que não tem a possibilidade de realizar o home office, ou ao menos tem acesso as medidas básicas de proteção contra o vírus, como o uso da máscara e o álcool gel. A Campanha Despejo Zero sinaliza que em torno de seis mil brasileiros foram despejados pelo Estado de suas casas, no meio da pandemia.

Alienação

A forma que a personagem de “Meu ano de descanso e relaxamento” encontra para tentar sobreviver é a sua tentativa de se alienar, seja nos seus remédios, nos filmes antigos que assiste, ou no seu apartamento, do qual ela nunca saí. Ela ignora as notícias sobre o presidente Bush na TV, não se comove com as reclamações da “melhor amiga” e nem com o desprezo que os outros sentem pela sua tentativa de adormecer durante meses. Segundo a autora da obra, a alienação dos dias atuais, ao invés dos remédios, é substituída pela tecnologia e as redes sociais.

Para nós, que não vivemos na pele da protagonista, a alienação pode ser considerada quase um luxo em meio ao governo atual. Alienar-se pode ser uma escolha, mas quando vive-se no meio do caos político, econômico e social, nem um sono de um mês, talvez te faça escapar.

Referências

PESQUISA da Uerj indica aumento de casos de depressão entre brasileiros durante a quarentena. Disponível em: https://www.uerj.br/noticia/11028. Acesso em: 10 jan. 2021.

MENDONÇA, Heloísa. Fim do auxílio emergencial deixa o Brasil entre o medo da pandemia e do desemprego em 2021. Disponível em: https://brasil.elpais.com/economia/2020-12-21/fim-do-auxilio-emergencial-deixa-o-brasil-entre-o-medo-da-pandemia-e-do-desemprego-em-2021.html. Acesso em: 09 jan. 2021.

MELITO, Leandro. Como a crise socioeconômica em meio à pandemia afeta a juventude periférica? Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2020/10/06/como-a-crise-socioeconomica-em-meio-a-pandemia-afeta-a-juventude-periferica. Acesso em: 14 jan. 2021.

DESPEJO ZERO. https://www.campanhadespejozero.org/quem-somos. Disponível em: https://www.campanhadespejozero.org/quem-somos. Acesso em: 14 jan. 2021.

  1. Camila Faria Jan 14, 2021

    Eu não li o livro Ana, mas super me interessei. Achei bacana isso da personagem ter uma rede de privilégios porque isso só evidencia como a depressão é uma doença que não tem a ver com dinheiro, sucesso etc., é algo que pode e atinge todo tipo de gente, independente da classe social. Quero ler!

  2. Gabi Ramalho Jan 15, 2021

    Não conhecia esse livro, mas me chamou atenção o fato da personagem não ter nome e ter sua vida caracterizada pelas relações que ela tem com os outros. E interessante também ver a depressão do ponto de vista de alguém privilegiado – eu mesma confesso que, às vezes, é um pouco difícil assimilar que “pessoas que tem tudo” também sofrem dela. Enfim, é um tema que gera bastante discussão, né.

  3. Teresa Silva Jan 25, 2021

    Um livro que de certeza vou querer ler!

    Bjxxx
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  4. Ava Fev 02, 2021

    Oi, tudo bem?
    Não conhecia o livro, mas achei a abordagem do tema muito interessante e assustadoramente um reflexo do que vivemos hoje. Dica anotada, mas vou esperar um pouco pra buscar a leitura.
    Abraços,
    Ava

  5. Fernanda Rodrigues Fev 08, 2021

    Oi, Ana!
    Gostei bastante da premissa do livro. Acho que o incômodo gerado em quem gostou é porque a gente sente o incômodo em nós mesmos.
    Como alguém que trata a depressão com terapia, digo que é muito difícil encarar de frente esse problema.
    Vou buscar pelo livro.

    Um beijo,

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