Abril 29, 2021 por em Elas Indicam

O primeiro trimestre não foi fácil.

Janeiro, Fevereiro e Março me passaram a impressão de que o ano anterior não acabou, e só continuou de uma maneira diferente (e mais complicada) numa sequência eterna. Eu acho extremamente difícil não vincular praticamente todas as questões que estamos vivendo ao covid-19. Seja das coisas mais simples às complexas, a vida mudou totalmente do início de 2020 para cá e a verdade é que eu não tenho grandes expectativas de quando o “normal” vai voltar, se é que o normal que conhecíamos antes um dia voltará a fazer parte da nossa rotina.

Todo ano no Goodreads eu escolho uma meta de número de livros que quero ler naquele ano, e para 2021 eu escolhi 30 livros. Um dos meus objetivos esse ano é definitivamente ler mais – e mais ficção! -, mas com foco principal em autores negros e LGBTQI+. Olhando a minha estante, eu percebi que muito dos meus livros de ficção eram de autores brancos e europeus. Apesar de nos livros teóricos ser mais predominante as pensadoras negras, as histórias de ficção ficam presas aos autores normativos. Então o meu desafio esse ano é pesquisar e ler autores novos! E alguns que também não foram publicados no Brasil ainda; na minha lista de autores, temos: James Baldwin, Audre Lorde, Emma Dabiri, Leah Johnson, Grada Kilomba, e Sueli Carneiro. Outra sugestão é também acompanhar canais literários, e eu adoro o The Artisan Geek.

Flux, escrito por Orion Carloto

Um dos últimos livros que eu li foi o “Flux”, da Orion Carloto. Como eu comentei em um post no Instagram, eu comecei a ler poesia a poucos anos. De primeira, foi o Caio Fernando Abreu que me conquistou (um dos meus poetas brasileiros favoritos até hoje), e depois, Ana Cristina César, com o maravilhoso Poética.

Mas foi em 2016 que eu me apaixonei por “Milk & Honey” da Rupi Kaur, poeta canadense-indiana, que conquistou milhares de pessoas com os seus poemas postados na internet, e publicou o seu primeiro livro de maneira independente. Rupi é uma poeta feminista, e seus poemas falam sobre temas pesados, como assédio e abuso sexual. São as suas vivências; temas como imigração e racismo também estão presentes.

Já faz algum tempo que eu venho lendo na internet algumas críticas sobre a Rupi e outras poetas mulheres. Grande parte delas se resume à dizer que os poemas são simples demais, pouco complexos ou surgem de um fenômeno literário da internet. Me parece estranho dizer isso quando a poesia não precisa ter uma forma definida. O que essas autoras fazem é levar a literatura para milhares de outros lugares onde ela não teria chegado (Rupi já figurou no 1º lugar na lista do The New York Times), e principalmente, pautar como mulheres não-brancas, temas que raramente aparecem em outros fenômenos literários quando se fala de poesia. E é claro, dificilmente são trazidos por homens brancos.

Os poemas do primeiro livro de Orion retratam o coração partido, as desilusões de um relacionamento que não deu certo; os sentimentos de uma mulher de 18 anos – época que ela escreveu boa parte dos poemas -, a ansiedade, e todas as sensações afloradas dos primeiros relacionamentos, do início de uma vida adulta. Como a própria autora diz, é um livro ideal para ser lido com uma xícara de café ao lado. E faz muito sentido: os versos também são fáceis de se identificar. Eu li algumas reviews no Goodreads e as opiniões variavam; alguns leitores falaram que justamente pelas citações de momentos super específicos da vida da autora, se relacionar com os trechos era mais difícil. Mas como leitora, eu sempre acho que dá um toque muito especial quando os escritores colocam detalhes e referências.

All Boys Aren’t Blue, de George M. Johnson

Um livro de memórias e representatividade

Lançado em 2020 e nomeado para o prêmio anual do Goodreads de melhores do ano, na categoria “Memórias e Autobiográfico”, All Boys Aren‘t Blue já estava na minha lista a um bom tempo, e como objetivo de ler mais autores negros e LGBTQI+, eu me deparei com a obra de George M. Johnson, escritor e produtor, que narra por meio de capítulos – uma espécie de crônicas – sua vida como um homem negro, gay e das periferias de Nova Jersey, na Virginia.

Ainda não publicado no Brasil, as páginas do livro levam o leitor a conhecer as experiências dolorosas e felizes do ativista. Não foi fácil para ele crescer como um garoto negro que, desde pequeno, tinha dúvidas sobre a sua sexualidade, e era enxergado como um alvo pela sociedade. Logo nos primeiros capítulos, ele narra a história de quando perdeu o seu dente, aos cinco anos, em uma briga no bairro, ou quando não se ajustava no ensino primário, em dúvida se deveria andar com os garotos ou com as meninas.

É um livro que possui uma carga importante de temas fundamentais. Sabe uma leitura que você sugere para todo mundo? Além da representatividade, é importante que tenhamos histórias sendo contadas pelos seus protagonistas, e não por terceiros. No audiovisual, por exemplo, grande parte das produções que abordam personagens LGBTQI+, não são dirigidos ou roteirizado por eles.

Analisado pela crítica como uma publicação com poder de mudar as linhas editoriais, o autor relevou em entrevista, que o seu objetivo ao escrever “All Boys Aren’t Blue”, é que as pessoas reconhecessem a existência da comunidade queer, dos jovens não-binários; e principalmente, da luta dos LGBTQIs+ negros, que enfrentam múltiplas opressões.

Cartas para Martin, de Nic Stone

Uma homenagem à um líder político

“Meu caro Martin (ou Dr. “King”),

antes de mais nada, quero que saiba que não é por desrespeito que me dirijo a você com certa intimidade, mas é que no primeiro ano pesquisei sobre sua história e seus ensinamentos para um trabalho, então, para mim, sinto como se você fosse de casa. Espero que não se incomode com isso.”

Nic Stone, autora de 35 anos nascida em Atlanta, é uma das escritoras mais promissoras da atualidade. Figurando na lista dos mais vendidos quatro vezes, sua lista de obras possui livros políticos voltados para o público adolescente e jovem adulto: “Dear Martin” (Cartas para Martin, em português), foi um dos seus maiores sucessos, e o livro de ficção que mais me emocionou em 2021.

Justyce McAllister, de 17 anos, é um estudante que é um dos únicos garotos negros da sua escola de ensino médio, permeada por adolescentes da elite; o objetivo da sua mãe é que ele possa estudar e entrar em uma faculdade de excelência, e durante toda a vida, Justyce teve que se figurar em espaços majoritariamente brancos e racistas.

O tempo todo, ele se vê em conflito com as origens do bairro de periferia em que vive, a sua escola de elite, a violência policial e a morte daqueles que cresceram com ele na vizinhança, mas por não possuir as mesmas oportunidades, tomaram outros caminhos. Justyce começa a escrever cartas para Martin Luther King em busca de referências e de respostas para o racismo estrutural que ele sofre todos os dias, seja de colegas da escola ou da polícia.

“Meu caro Martin,

pode me explicar por que, aonde quer que eu vá, encontro gente querendo me derrubar?”

A escrita de Nic Stone nos deixa sem fôlego. O livro nos apresenta um turbilhão de emoções, questionamentos complexos e a jornada de um personagem que, ao estar prestes a caminhar para a vida adulta, percebe que todos os seus esforços nunca seriam suficientes para livra-lo de ser um alvo do racismo sistêmico.

Como uma sequência, a autora também escreveu “Cartas para Justice”, que definitivamente já está na minha lista de leitura.

  1. Dai Castro Mai 18, 2021

    Que edição linda de All Boys Aren’t Blue! Já vi algumas pessoas falarem bem, acho interessante ter a história contada por quem realmente viveu aquilo… preciso ler mais esse tipo de livro, assim como biografias. É bom a gente sair da nossa zona de conforto e ter uma outra visão da vida.

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