Imagem: Claudio Schwarz, @purzlbaum. 

Quantas palavras são necessárias para descrever a raiva e a dor que sentimos?

De tantas milhares de palavras da língua portuguesa, eu não conseguiria escolher só uma. É difícil expressar a sensação de aperto, de estar desolado, de inquietação, de formigamento. Eu poderia dizer que a tristeza nos preenche sempre, mas uma parte de mim acredita que a raiva está ali, pronta pra aflorar. Crescemos ouvindo que o ódio faz mal. E eu sei que o mundo precisa de mais amor; estamos, definitivamente, com falta dele. Mas a faísca que nos provoca a sensação de ódio por aqueles que nos colocaram aqui, não deixa de ser inevitável.

Como seres humanos, sentimos. E nem sempre esse sentimento vai ser cheio de positividade.

É até uma afronta pedir que sejamos positivos, quanto tantos de nós partem cedo demais, com os caminhos cortados ao meio, quando deveriam estar aqui. Eles ainda tinham muito tempo. E hoje sangramos. Faz mais de um ano e meio que estamos sangrando.

Como não sangrar quando acordamos esperando o próximo baque, a próxima notícia ruim? E ao mesmo tempo nos pedem que a gente não pare, que a gente continue produzindo. Nós, que estamos aqui, como temos força para encarar tudo isso?

Não penso mais no individual, acredito que o coletivo sempre é mais importante e reflito sobre a dor que sentimos em potência, em grupo, em milhares de pessoas. A força que tiramos de lugares que a gente nem sabia que existia. Do sorriso do seu melhor amigo, da presença da sua família. De quem você ama respirando saudável. Nos tiraram um monte de coisa, e agora valorizamos o que temos, mesmo que sejam pequenos minutos de um dia exaustivo.

Hoje sinto dificuldade de trazer palavras bonitas. De trazer frases de efeito. Queria colocar no papel um pouco do que eu, do que muitas pessoas acordaram nessa manhã de seis de maio sentindo.

Tenho ansiedade. E minha ansiedade aflora na vontade de justiça. Não é possível que os responsáveis não enfrentem as suas consequências. Vivemos em um mundo mediado por exploração, em níveis capitalistas e destrutivos. Sabemos quem são os culpados.

Pedir para que eles enfrentem a sua parcela de culpa é o mínimo. É o mínimo pelos 412 mil que se foram e que ainda poderiam estar aqui. E se temos um papel, esse é o de estar lutando, por aqueles que não podem mais, neste plano. E honrar suas memórias. 

  1. Camila Faria Mai 08, 2021

    Muito bem dito Ana! Eu estou cansada de esperar constantemente pela próxima notícia ruim. Abalada e triste com toda essa injustiça e impunidade. 🙁

Destaque

© 2020 ELAS DISSERAM // DESIGN @LUIZFROST // PROGRAMAÇÃO @SARASSILVA