Junho 14, 2021 por em Elas Indicam
Flávio Tolezani, Gabriel Leone e Raquel Villar

Não há duvidas que os streamings brasileiros são dominados pelas produções norte-americanas. É legenda pra lá e pra cá, mas essa nova fase do audiovisual – principalmente na pandemia -, nos dá a chance de assistir histórias que vem do nosso país, com atores e produções nacionais do início ao final dos créditos.

E é justamente isso que Dom, primeira série brasileira do Prime Video, nos possibilita. Inspirado na vida real do assaltante de casas Pedro Dom, que agiu na Zona Sul do Rio de Janeiro no início dos anos 2000, a série é um mergulho não apenas na vida de Pedro, que morreu aos 23 anos em 2005, mas no cenário que circunda uma cidade atormentada pelas drogas, pela corrupção policial e o racismo estrutural latente. A série se passa em diversas linhas temporais: primeiro nos anos 70, depois nos anos 90, e por fim, os 2000. E logo de cara, já notamos: pouquíssima coisa mudou desde então.

Protagonizado por Gabriel Leone (Pedro Dom) e Flávio Tolezani (Victor Dantas), conhecemos pai e filho, numa dinâmica familiar complexa e cheia de turbulências. Victor Dantas é ex-policial, que trabalhava na guerra às drogas no Rio de Janeiro e integrou o “Esquadrão da Morte” nos anos 70, ainda durante a ditadura militar. O fato do enredo transitar entre mais de uma linha temporal, faz quem assiste mergulhar na trajetória dos dois personagens, tanto do Pedro criança, quanto do seu pai jovem (Filipe Bragança), que numa ilusão, decide integrar a policia com a ideia que poderia salvar o Rio da estrutura das drogas.

Armário (Digão Ribeiro), Lico (Ramon Francisco), Jasmin (Raquel Villar), Pedro (Gabriel Leone) e Viviane (Isabella Santoni).

O problema está na estrutura

Nos primeiros episódios acompanhamos a aproximação do bonde, liderado por Pedro; Armário (Digão Ribeiro), Lico (Ramon Francisco) – melhor amigo de infância de Pedro -, Jasmin (Raquel Villar) e Viviane (Isabella Santoni), realizam assaltos à residências de luxo, roubando dinheiro, e usando cocaína. A ambientação dos bailes funk nas comunidades do Rio de Janeiro acompanha o tom fiel da série às características da cidade, mas é preciso um olhar mais observador para perceber que o racismo estrutural está exposto em todos os detalhes do grupo principal.

Pedro, que é o principal arquiteto dos assaltos, nasceu na Zona Sul, estudou em escolas particulares, e loiro e de olhos azuis, sempre usufruiu de privilégios, principalmente na adolescência, quando já realizava infrações, e pelo pai ser policial, sempre conseguia escapar. Já o seu amigo Lico (Ramon Francisco), que cresceu com Pedro – mas sempre dividido entre as estruturas da comunidade e dos prédios de luxo de Copacabana – , não teve as mesmas oportunidades. Uma das cenas, já no primeiro episódio, expõe esse fato: Victor (Flávio Tolezani) não sabe o paradeiro do filho, e insiste para que a mãe de Lico – empregada doméstica da família – fale onde os dois estão, chamando o filho dela de “marginal”, por ser usuário de drogas. A personagem responde, prontamente que o filho dos dois é igual, e que Lico nunca teve oportunidades, diferente de Pedro.

Portanto, é visível a complexidade dos personagens que compõe o “Bonde”; como enxergamos tudo pela perspectiva do pai de Pedro, não conseguimos conhecer a fundo todos os personagens, mas eles roubam a cena em todos os momentos da série que estão presentes; Jasmin (Raquel Villar) se apaixona por Pedro, e Viviane (Isabella Santoni) é a mais louca do grupo; Armário (Digão Ribeiro) e Lico (Ramon Francisco) encontram no mundo do crime a única forma de fazer dinheiro. Seria interessante, em uma segunda temporada, conseguirmos ver mais sobre os quatro personagens, que sofrem as consequências de viverem nas comunidades abandonadas pelo Estado; a narrativa da série pode nos fazer pensar que eles seriam responsáveis por influenciar o protagonista, mas a verdade é que diferente dele, os outros nunca tiveram uma chance de mudar de vida.

Na vida real e na série, Pedro Dom consegue escapar de muitos crimes por se enquadrar nos padrões do que a sociedade acredita ser alguém exemplar: branco e de classe média. Assim, Pedro e Viviane não levantam suspeitas de ninguém ao adentrar os condomínios e as casas; a policia, no início dos anos 2000, levou muito tempo para encontrar Pedro Dom, que foi apelidado de “bandido gato”. O roteiro, em algumas falas, cutuca esse fato, ao Jasmin falar para Lico e Armário que ao tentar assaltar um prédio de luxo, os dois “não passariam nem da portaria”, diferente de Pedro, que saía ileso dos crimes.

Ao acompanhar também a jornada de Victor Dantas quando jovem (pai de Pedro), é possível enxergar as diferenças da narrativa da classe média e da periferia no Rio de Janeiro, nos anos 70. Por isso, é tão notável que pouco mudou nas estruturas do Brasil nas últimas décadas. Victor dedica sua vida ao combate às drogas, por achar que poderia barrar a chegada da cocaína no país; o personagem acredita piamente que a sua participação na polícia poderia causar uma mudança efetiva, o que ele só descobre depois, quando precisa lidar com o vício em drogas do filho, que era uma completa ilusão.

Uma das cenas mais interessantes, protagonizada pelo excelente Filipe Bragança (Victor jovem), é quando ele avisa ao seu pai que entrará para a polícia civil, com o intuito de impedir o crescimento do tráfico no Rio de Janeiro. Prontamente, o seu pai responde que ele não entendia nada, pois as drogas eram uma questão de saúde pública.

A guerra as drogas é uma guerra perdida

Um homem negro morre a cada 23 minutos no país. Em 2020, 78% das pessoas mortas pela polícia eram negras, segundo levantamento feito pelo G1 no “Monitor da Violência”; os cinco primeiro meses do ano anterior totalizaram o maior número de mortes por policiais em 22 anos, com o número registrado de 741 mortes (notificadas).

No governo Witzel no Rio de Janeiro, as operações militares se intensificaram, combinado a um discurso de morte e intervenção violenta do governo federal em 2018; nos últimos três anos, mais de duas mil crianças foram mortas em confrontos. A pouco mais de um mês, 29 pessoas morreram na Chacina de Jacarezinho, na comunidade de mesmo nome, no Rio.

É nesse contexto que podemos traçar um paralelo à série “Dom”, que nos mostra a narrativa de uma guerra às drogas fadada ao seu fracasso desde o início, envolto pelo drama familiar intenso da família Dantas. Pedro experimenta cocaína pela primeira vez quando criança, e ao longo da trajetória do personagem – na ficção e na vida real – é internado inúmeras vezes, chegando até mesmo a passar um tempo na Febem (Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor), onde o roteiro deixa explícito o quanto o jovem sofre com a violência, encarando a sociedade depois, de maneira muito pior do que quando entrou.

A profundidade dos personagens colabora para que tenhamos uma visão da guerra às drogas e do vício muito mais profunda do que normalmente nos é mostrado no audiovisual, com a superficialidade de “vilão” e “mocinho”. Aqui, esses rótulos caem por terra, ao mostrar personagens que não se definem pelo bem e pelo mal, e sim produto e consequência de um meio dominado por uma questão de saúde pública – como pontuado no final da série -, onde uma população deixada à mercê precisa aprender a sobreviver a sua maneira, convivendo entre a violência policial, a injustiça e o racismo.

Gabriel Leone entrega a melhor atuação de sua carreira

Produção brasileira afiada

É impossível falar de Dom sem citar o elenco impecável que nos transporta para o Rio de Janeiro. Gabriel Leone (Pedro) se torna o maior destaque da produção, dando vida intensamente ao personagem, tanto nas cenas de ação no mundo do crime, quanto no vício às drogas, mas também com o carisma do personagem, que consegue convencer o próprio telespectador, mesmo este sabendo que Pedro não é nada confiável.

A família, que circunda o personagem, também ganha destaque principalmente no quinto episódio, que narra as diversas internações e a infância do personagem. A dualidade de filho, pai (Flávio Tolezani), irmã (Mariana Cerrone) e a mãe (Lila Garin), nos apresentam atuações de tirar o fôlego, ao aprofundar o drama de uma família que é tomada pelos acontecimentos do filho mais novo viciado em cocaína, e a inquietude de nunca saber se ele voltará para casa.

A química entre o elenco é inegável, fortalecida por cenas ambiciosas, que nos trazem o melhor do audiovisual brasileiro, principalmente nos detalhes técnicos. Produzido pela ótima Conspiração Filmes, e dirigido por Breno Silveira e Vicente Krubusly, com roteiro dos dois diretores, e Fabio Mendes, Higia Ikeda, Carolina Neves e Marcelo Vindicatto, não é ousadia dizer que “Dom” é um dos melhores lançamentos brasileiros do último ano.

A linha temporal, ao se dividir entre a década de 70 e o final dos anos 90, é caracterizada por cenários fieis e uma trilha sonora que mescla músicas internacionais e nacionais. São as últimas, aliás, que definem a trama e nos rendem momentos em que o rap brasileiro, por exemplo, se encaixa perfeitamente no cenário carioca.

É na letra de “Minha Alma”, composição de O Rappa, que a série termina o seu primeiro e último episódio com maestria:

“A minha alma tá armada,

e apontada para a cara do sossego.”

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