Agosto 16, 2021 por em Elas Indicam
Sam (Olivia Scott Welch) e Deena (Kiana Madeira)

No mês de Julho, a Netflix apostou no lançamento de uma trilogia de filmes de terror voltado para o público jovem: “Rua do Medo” se divide em parte 1 (1994), parte 2 (1978) e parte 3 (1666). Inspirado no revival de décadas anteriores que ganham destaque nas produções dos streamings, e naquela nostalgia – principalmente dos anos 80 – com algumas inspirações de Stranger Things, uma trilha sonora que nos lembra das nossas músicas favoritas da infância (mesmo se você nasceu perto dos anos 2000) e muitas referências, os longas são uma boa pedida até para aqueles que não gostam de se aventurar no gênero do terror. Mas o diferencial aqui, fica para uma versão atualizada dos clássicos, com uma direção feminina bem original.

Diretora e roteirista dos três filmes, Leigh Janiak tem no currículo algumas produções de terror, seja por trás das câmeras, ou escrevendo-as; a série “Scream”, da MTV, uma homenagem a série slasher dos anos 90; a produção da série “Panic” da Amazon Prime; e o remake de “Jovens Bruxas”, sendo responsável pelo roteiro.

Os últimos anos vem trazendo filmes de terror e suspense, intitulados de “terror feminista”, com uma equipe responsável por criar histórias que fogem dos clássicos que conhecemos, onde as personagens femininas ou são mortas, ou alvo de cenas clichês e misóginas. Para citar alguns da nova leva, temos o genial “Midsommar”, e o instigante “A Bruxa”. Podemos citar também a atenção que o filme “Garota Infernal”, de Karyn Kusama, que foi detonado pela crítica na época do seu lançamento em 2009, vem recebendo; hoje ele é reconhecido por ser uma história de horror que tem como protagonista o abuso sexual e o machismo sofrido pela personagem Jennifer, interpretada por Megan Fox.

Uma protagonista lésbica

Se você não quer ler spoilers sobre a trilogia de Rua do Medo (ou “Fear Street”), sugiro que pare de ler o texto agora!

Pense nos clássicos de terror ou nos longas mais recentes: quantos deles tem protagonistas negras? Ou quantos trazem mulheres lésbicas? São poucos, e Rua do Medo surge para trazer em foco principal a história de Deena e Sam, duas adolescentes na década de 90 que tiveram um relacionamento fora do que a sociedade esperava delas. Seja romanticamente ou na personalidade – muito bem construída das personagens – as duas fogem do roteiro que se esperava para duas adolescentes em uma sociedade marcada pela heterossexualidade compulsória.

O pano de fundo das cenas de sangue, ação e perseguição de assassinos mascarados que nos lembram os clássicos do terror é duas cidades vizinhas: a primeira, Shadyside, é marcado por assassinatos e histórias trágicas, e moradores sem um futuro promissor. Já a meia hora dali encontra-se a próspera Sunnyvale, com casas tradicionais e subúrbios de classe média alta; os moradores afirmam que a diferença encontra-se na lenda da bruxa Sarah Fier, que amaldiçoou a cidade na época em que ela ainda era uma colônia. Durante décadas, a resposta para tanta tragédia é a maldição de uma bruxa até então desconhecida, que quer se vingar de todos os moradores.

Na parte 2, ambientada em 1978: as irmãs Cindy (Emily Rudd) e Ziggy (Sadie Sink)

Ambientado em três partes que se ligam uma à outra, a diretora Leigh Janiak também escolhe dar foco para as múltiplas relações femininas que acontecem no longa; na parte 2, por exemplo, inspirado em filmes como “O Massacre da Serra Elétrica”, o protagonismo é das irmãs Cindy (Emily Rudd) e Ziggy (Sadie Sink), que passam o verão juntas no mesmo acampamento, enquanto brigam constantemente.

A história das duas também se atravessa na lenda da bruxa Sarah Fier, e tem ligações com Deena e Sam nos anos 90, que continuam em busca de uma maneira de salvar Sam de uma morte causada pela maldição. É interessante observar como o olhar de uma direção feminina foge totalmente dos filmes padronizados pelo male gaze, tirando as protagonistas mulheres do papel de vitimas do assassino que as persegue. Em “Rua do Medo” elas também correm risco de morte, mas enfrentam aqueles que as ameaçam, lutam até o fim e se fortalecem principalmente, nas relações com seus grupos de amigos.

Em 1666, Sam e Deena se tornam Sarah (Kiana Madeira) e Hannah (Olivia Scott Welch).

Bruxas: as mulheres que não seguiam as normas

Se na década de 90, Deena e Sam eram alvo da lesbofobia presente em Shadyside, precisando lidar com a proibição da mãe de Sam e os comentários maldosos, em 1666 as coisas não eram diferentes. Fechando a trilogia com coesão, Rua do Medo: Parte 3 (1666) nos leva à descoberta da verdadeira lenda de Sarah Fier, a bruxa culpada por amaldiçoar a cidade. Em um cenário bucólico, religioso e assustador, a pequena vila é dominada pela palavra dos homens que consideram qualquer atitude feita pelas mulheres diferente daquelas que eles esperavam, um pecado e uma bruxaria. A diretora nos transporta para um período distante, mas que lembra características da sociedade de 2021, que ainda culpabiliza mulheres que amam mulheres.

Por mais que em alguns momentos não sejamos mais taxadas de bruxas, o tratamento para aquelas que escolhem tomar suas próprias decisões fora do que uma sociedade misógina espera, ainda é muito presente; seja pelo cancelamento virtual, ou pela exclusão da sociedade.

Em meio a cenas em florestas, maldições e igrejas tenebrosas, o último filme nos lembra que o verdadeiro mal não eram os assassinos com facas ou máscaras, mas o próprio homem, que deseja enforcar as duas adolescentes da vila – chamando-as de bruxa – por descobrirem que elas mantinham relações amorosas.

As cenas ganham um toque de flashback e terror, ao levarem o telespectador para séculos antes, mas com semelhanças tão comuns a sociedade em que vivemos.

“Rua do Medo” pode carregar clichês que já estamos acostumados a ver na Netflix, e uma roupagem um tanto quanto inspirada no saudosismo dos anos 80 e 90 que Stranger Things e a adaptação cinematográfica de “It” tanto amam, mas ousa e escolhe fazer diferente quando coloca duas protagonistas lésbicas e seu amor – que perdura durante séculos – como a grande força capaz de quebrar o destino sanguinário de uma cidade. É um respiro e tanto para o gênero do horror, tão conhecido por reforçar esteriótipos – e uma direção feminina que acerta ao dar voz para aquelas que sempre foram ignoradas nos filmes clássicos.

  1. gabi ramalho Ago 18, 2021

    nunca tinha ouvido falar sobre essa trilogia, acredita? mas gostei dessas inspirações e pelo que tu contou da produção. não terminei de ler o post, porque eu não gosto de spoiler kkk então quero assistir aos filmes e ter a surpresa mesmo. esse findi não vou ter nada pra fazer, então vou botar o primeiro pra assistir.

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