Novembro 8, 2021 por em Elas Indicam
Alex (Margareth Qualley) e Maddy

São poucas as narrativas audiovisuais que nos mostram a realidade da maternidade.

“Maid” é uma das grandes estréias do ano da Netflix, e mesmo com uma divulgação modesta do streaming, o seriado se tornou um dos maiores lançamentos do ano, se tornando a minissérie mais assistida da plataforma. É produzido e dirigido por Molly Smith Meltzer, responsável por produções que também tratam temas difíceis com honestidade – como “Shameless” e “Orange is The New Black”.

A direção e o roteiro feminino, como de costume, fazem diferença para a verossimilhança do enredo, que retrata a vida da mãe solo Alex (Margareth Qualley), mãe de Maddy, de apenas três anos – após fugir de casa durante a madrugada, para escapar da violência psicológica e física do pai de Maddy, Sean (Nick Robinson).

Nos streamings, é difícil ver mães solos como protagonistas dos seriados, especialmente narrando com sinceridade a vida das milhares de mulheres e mães vítimas de violência; e tocando em pontos fundamentais, como o recorte de classe, um dos focos de “Maid”.

Na pandemia, a violência aumentou dentro de casa

Segundo uma pesquisa do Datafolha de 2021, os casos de violência aumentaram significativamente na pandemia do covid-19, com os agressores sendo familiares das vítimas; em torno de 17 milhões de mulheres sofreram violência. O aumento foi de 42% para 48,8% de agressões nas residências, com maior número entre mulheres de 16 a 24 anos e negras, 28,3%, contra 24,6% de mulheres brancas. Os agressores são, na maioria dos casos, cônjuges, companheiros e namorados (25,40%).

A primeira cena de “Maid”, começa exatamente com uma sequência que provoca medo no telespectador, com a protagonista Alex fugindo de casa com a filha no colo. Ela havia sido vítima de um ataque agressivo na noite anterior do marido Sean. Alcoólatra, ele desconta tudo na esposa, em um relacionamento visivelmente abusivo.

Em seguida, Alex – sem casa e sem dinheiro – procura o seguro social, na esperança de ter um lugar para morar. E nesse momento a série nos expõe uma das principais barreiras das vítimas de violência, e a burocracia de uma sociedade capitalista e misógina, em que o Estado raramente presta assistência às mulheres: a dificuldade de conseguir auxílio e ter que provar, com milhares de papéis, que precisa de ajuda e de um teto para morar.

Margareth Qualley é um dos grandes destaques do ano

O roteiro foi inspirado no livro da autora Stephanie Land, que escreveu sobre a sua própria jornada na obra “Superação: Trabalho Duro, Salário Baixo e o Dever de uma Mãe Solo”. A autobiografia é um mergulho nos desafios de uma mulher que se tornou mãe solo aos 28 anos, e para se sustentar, começou a trabalhar com limpeza. Assim como a série, ela joga luz na vida de milhares de mães que precisam cuidar dos filhos e da casa sozinhas – enquanto tentam sobreviver de maneira mal-remunerada e trabalhando exaustivamente.

Um ponto interessante da série é que enquanto Alex trabalha durante turnos longos, no canto da tela vemos o salário que ela recebeu – e que despenca segundos depois com os gastos de comida, creche e roupas para a sobrevivência dela e da filha Maddy. Colocando em jogo o famoso “sonho americano” de uma casa grande e de uma família perfeita, a série nos expõe a realidade da falácia de um sistema falsamente meritocrático e patriarcal.

Mas não é só a protagonista que ganha destaque: durante os episódios, como recomendação da assistência social, Alex passa a viver em um abrigo para mulheres vítimas de violência. E é neste momento que o roteiro nos mostra outras personagens que vivem sob a ameaça do abuso e do assédio dos seus parceiros, enquanto precisam garantir a vida dos filhos. São cenas duras e realistas, e pouco relatadas no audiovisual, de mulheres que precisam reconstruir a sua vida do zero depois de serem vítimas de violência, sem dinheiro e nem casa.

Alex (Margareth Qualley) e Paula (Andie Macdowell)

Outro destaque é a relação de Alex com a mãe e artista, Paula (Andie Macdowell). Na vida real as duas atrizes também são mãe e filha, o que provavelmente contribuiu para a química incrível das duas personagens, que possuem uma relação de turbulência, dividida entre amor extremo – a mãe sempre está lá quando a filha precisa – e de inversão de papéis. O ciclo da violência também é explorado em diversas nuances durante os episódios de maneira explícita pelo roteiro: mãe e filha possuem traumas e ambas enfrentaram violências dos seus parceiros.

Esse histórico na vida das personagens mostra como pode ser difícil para a mulher quebrar o ciclo do abuso, que foi teorizado pela psicóloga norte-americana Lenore Walker em 1979; como explicado pelo Instituto Maria da Penha, o ciclo possui diversas fases, como: aumento da tensão, ato de violência e arrependimento e comportamento carinhoso do agressor.

Assistir esses momentos com tamanha honestidade em uma série é raro, e importante para que o tema seja discutido, abordado e esmiuçado cada vez mais. O protagonismo das personagens femininas é evidente, colocando em foco suas dificuldades, trajetórias não-lineares, e a realidade das vítimas de violência.

Nick Robinson como Sean

Grande parte do êxito também se encontra no roteiro e nos produtores da série; a presença feminina de Molly Smith Melzer e Margot Robbie na produção compõe histórias que fogem completamente do male gaze (olhar masculino), dando sensibilidade à vozes e narrativas não-patriarcais.

O elenco ganha destaque, com personagens fieis à realidade e que fogem da romantização; Nick Robinson (Sean) apresenta provavelmente a melhor atuação de sua carreira, interpretando um personagem alcoólatra e abusivo. Margareth Qualley (Alex) desponta como uma das atrizes mais promissoras da geração, apresentando uma protagonista complexa que emociona a cada cena. Os traços de atuação da atriz, como os olhos expressivos, também são marcantes.

Andie Macdowell (Paula) entrega uma performance impecável, cheia de emoção ao dar vida à uma personagem que morando em um trailer, lida com transtornos mentais e o passado de um casamento permeado por violência.

  1. Camila Faria Nov 17, 2021

    Oi Ana! Eu vi o trailer da série esses dias e fiquei bem animada para assistir. Não sabia que a Margareth Qualley era filha mesmo da Andie Macdowell, vou assistir com esse foco no relacionamento e na intimidade das duas agora. Um beijo!

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