Janeiro 21, 2022 por em Destaque, Elas Indicam
Imagem: “Tudo sobre o amor – novas perspectivas” de bell hooks, editora Elefante

“Se o desamor é a ordem do dia no mundo contemporâneo, falar de amor pode ser revolucionário.”

É essa uma das frases do prefácio da edição brasileira de Tudo sobre amor, escrito por Silvane Silva. Com tradução de Stephanie Borges, o livro chegou no Brasil há um ano, ainda no auge da pandemia do covid-19, pela editora Elefante, responsável por lançar vários livros de bell hooks no país.

Uma leitura fundamental e que chegou como pauta de diversas conversas, clubes de debate e indicações no Brasil todo, é um livro não só para os fãs do pensamento de Gloria Jean Watkins, que nos deixou em Dezembro do ano passado, mas para aqueles que precisam reconhecer o amor como uma força de transformação, como uma prática. E aí você me pergunta: “mas, amor? Vamos falar de relacionamento, no meio desse caos todo?”.

É justamente esse o chacoalhão que a professora e teórica feminista pretende te dar com essa leitura. Logo de início, bell já nos diz: o amor nunca é a pauta principal. Quiçá, a segunda, ou a terceira, na organização dos movimentos sociais, nas pautas políticas, e como prioridade da nossa vida em geral. Jogado para escanteio, definido como amor romântico e outras construções falhas do sistema capitalista e individualista, ele não é debatido na sociedade.

Não há muitos debates políticos a respeito do amor em nossa cultura hoje. No máximo, a cultura popular é o domínio em que nosso desejo por amor é mencionado. (pág 31)

Já de primeira, a autora explica que o amor à qual ela se refere não é aquele criado por uma cultura da mídia misógina e racista, que coloca as mulheres em posição de “sonhadoras” e os homens, aqueles que pouco sabem sobre amor. Ou o amor romântico, monogâmico e que fortifica estruturas patriarcais. Pelo contrário: amor é o compromisso de viver sob uma ética amorosa.

Composto de 13 capítulos, cada um destina-se a discutir com profundidade aspectos e complexidades dessa conduta amorosa, desde o que significa de fato a palavra “amor”, as consequências do desamor na infância e na juventude, a importância da honestidade, os valores de uma prática amorosa, a ganância, o patriarcado e os sistemas de opressão nas relações, dentre outros. Temas como a aceitação do abuso em relações abusivas também estão presentes; o livro foi escrito em 2000, mas continua muito atual.

No amor, não é possível existir poder e dominação

Essa é uma verdade que a autora trabalha durante todo o livro, e uma afirmação que quase nunca ouvimos ao longo da vida. bell explica que uma prática amorosa não é possível existir com poder ou dominação, enterrando de vez a noção de que relacionamentos operados pela lógica das opressões poderiam coexistir, e que isso é “normal” (algo muito aceito na sociedade).

Despertar para o amor só pode acontecer se nos desapegarmos da obsessão pelo poder e pela dominação. Culturalmente, todas as esferas da vida estadunidense – política, religião, locais de trabalho, ambiente doméstico, relações íntimas – deveriam e poderiam ter como base uma ética amorosa. (pág 123)

A autora se refere à sociedade estadunidense, mas durante os capítulos trabalha diversos conceitos que fogem dos pensamentos ocidentais – e trás exemplos que se encaixam muito bem na realidade brasileira. bell justifica que nossa sociedade é operada pelo medo, pelo constante estado de vigilância – abrindo pouco espaço para o amor e para a tolerância, e para as mudanças radicais.

Culturas de dominação se apoiam no cultivo do medo como forma de garantir a obediência (…) Todavia, estamos terrivelmente apavorados o tempo todo. Como cultura, estamos obcecados pela ideia de segurança. Contudo, não questionamos por que vivemos em estados de extrema ansiedade e terror. O medo é a força primária que mantém as estruturas de dominação. (pág 129)

E como resistir ao medo e a ideia de que viver sob uma ética amorosa nunca funcionaria no mundo em que vivemos? bell nos mostra que o capitalismo leva à sociedade ao cinismo e ao niilismo; a desesperança de qualquer mudança, nos deixa fadados ao individualismo, sempre colocando o “eu” em primeiro lugar, e nunca as conexões e relações que podemos construir. Estar consciente de si mesmo, para poder analisar suas ações criticamente, é primordial.

Ela também cita a influência da mídia nesse processo, que retrata o amor de uma maneira falsa – sempre permeado pela violência e pela ideia da dominação, e de que o desinteresse, o mistério e a falta de diálogo seriam cativantes em uma relação amorosa.

Uma vez que a maioria das imagens que vemos é produzida por indivíduos comprometidos com o avanço do patriarcado, eles investem em nos oferecer imagens que refletem os seus valores e as instituições que desejam apoiar (…) o patriarcado, como sistema de dominação (como o racismo, por exemplo), precisa socializar todo mundo para acreditar que em relações humanas há um lado superior e um inferior. (pág 133)

A importância da comunidade

E se estamos falando de amor como uma prática e um compromisso, bell hooks utiliza alguns capítulos essenciais para discorrer sobre a família, as relações de amizade e como o desamor, ainda na infância e as dinâmicas disfuncionais, a prejudicaram durante a juventude – e nos relacionamentos amorosos que teve depois.

Para garantir a sobrevivência humana em todos os lugares do mundo, mulheres e homens se organizam em comunidades. Comunidades alimentam a vida – não as famílias nucleares, nem o “casal”, e tampouco a dureza individualista. (pág 161)

Ela explica o conceito de familiar nuclear, que nos Estados Unidos, definiria a família “ideal”: mãe, pai e filhos. A autora ressalta que poucas pessoas vivem, de fato, esse modelo (o da famosa “família tradicional”), e que essa é uma imagem fantasiosa de família. Ela narra sua própria experiência em uma família nuclear, onde por vezes, sentiu que não era amada – o que gerou consequências a longo prazo. Ela afirma também que ao contrário do que a ideia vende, uma família onde o abuso e a violência estão presentes, não pode, de verdade, cultivar o amor.

Juntos, o capitalismo e o patriarcado, como estruturas de dominação, têm feito hora extra para destruir essa unidade mais ampla de parentesco. Substituir a comunidade da família por uma unidade autocrática menor e mais privada ajudou a aumentar a alienação e a possibilidade de abusos de poder. (pág 162)

O impasse do individualismo

Não é um grande segredo que, na estrutura de acumulação de capital em que vivemos, todas as nossas relações se tornam regidas pelo pensamento capitalista. A supervalorização do “eu”, e apenas “eu”, impede que possamos praticar a reciprocidade – o amor e as relações em comunidade. Todos os temas abordados por bell hooks se encontram interligados em cada capítulo.

bell nos explica que, se você não estiver comprometido de verdade, não irá conseguir praticar o amor e encontrar uma ética amorosa; em uma luta sadomasoquista de dominação, nunca será possível abaixar a guarda, e de fato, adentrar no amor. Ela também argumenta que o individualismo fez com que as pessoas simplesmente substituam essa prática por coisas materiais, e o apego à elas.

Ninguém deste planeta realmente tem oportunidade de conhecer o amor, uma vez que é o poder, e não o amor, que está na ordem do dia. O privilégio do poder está no coração do pensamento patriarcal. (…) Mulheres e homens que foram ensinados a pensar assim quase sempre acreditam que o amor não é importante, ou ao menos não tão importante quanto ser poderoso, dominante, estar no controle, estar por cima – estar certo. (pág 184)

Construir relações pela ética amorosa exigem responsabilidade e compromisso – é o que a autora nos ensina desde o primeiro capítulo, afirmando que as relações devem ser baseadas nos aspectos da comunicação, da confiança, do cuidado e do respeito. Mostrar o seu verdadeiro self – e não uma construção falsa que pode desmoronar logo depois (e o que acontece em muitas relações).

bell alerta que no caminho do amor, conflitos vão surgir: e que o fato de nascermos em uma cultura no qual procuramos alivio rápido para tudo, nos ensina a desistir nas primeiras dificuldades. A noção de que o amor é um local do qual não conheceremos dor e estaremos sempre em êxtase, é desmentida pela autora no capítulo 09, “Reciprocidade: o coração do amor.”

Para conhecer e manter o amor verdadeiro, temos de estar dispostos a abrir mão do desejo de poder. (pág 216)

Aceitar o amor é também aceitar a sua força transformadora, de mudança radical: deixando de lado o nosso medo insistente do que é novo e do que deve ser alterado. Utilizando a definição que bell trás de Thomas Merton, o autor nos explica que “o amor verdadeiro é uma revolução pessoal.”

  1. Camila Faria Jan 27, 2022

    Que beleza de livro Ana! Me pareceu uma leitura transformadora, fiquei muito interessada. Bell <3

  2. Taís Mar 20, 2022

    Oi Ana! Nossa, esse livro parece ser muito bom, uma dessas leituras essenciais. Obrigada pela indicação 🙂

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