Texto: Um país monopolizado
28/04/2013 | Categoria: Autores, Textos

Vivemos em um país monopolizado pela cultura internacional. Um Brazil onde falar inglês é mais importante do que o próprio português. Let’s go, babies! A gente devemos falar o inglês corretamente, mas o português que é bom, nada, porque a gente somos mais descolados falando língua estrangeira, não importa que a gente sejamos estúpidos em nosso próprio dialeto. Vivemos em um país onde Iphone, Ipod e Idetodososdiabos são mais importantes que um bom livro. E não podemos nos esquecer: esses aparelhos ficam ainda mais legais quando enfeitados com a bandeira do Reino Unido (que inteligentemente o adolescente “descolado” que pensa que sabe falar inglês, chama de bandeira da Inglaterra) e usado para tirar fotos em frente ao espelho fazendo bocas de todos os jeitos. Vivemos em um país onde o “Harlem Shake”, “Gangnan Style” e “Heart Attack” têm mais letra que “Garota de Ipanema”, “Construção” ou “O tempo não para”. A cultura na qual fomos criados prega que Beatles, Queen e Nirvana são mais importantes que Cazuza, Caetano Veloso e Tom Jobim. Aposto que encontro em um Brasil como o nosso muitas pessoas alienadas pela cultura estrangeira e que nem sabem quem são os gênios de nossa terra. Luiz Gonzaga, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Cartola, Noel Rosa, José de Alencar, Jorge Amado, Elis Regina, Renato Russo. Aposto que das muitas pessoas que se dizem “brasileiras” nunca ouviram falar de pelo menos um desses nomes citados. O Brazil não conhece o Brasil, como cantou Elis, o Brasil nunca foi ao Brazil, cantado mais a frente. O Brasil não merece alguns brasileiros que tem. O povo está deitado eternamente em berço esplêndido feito com a madeira extraída na África, coberto com o cobertor fabricado na Europa, encostado com a cabeça no travesseiro produzido na Argentina e com pijama desenvolvido nos Estados Unidos. O coração brasileiro não é verde e amarelo. Nas veias pulsa o sangue diluído nas milhares de coisas oriundas de outros países. O Brasil desconhece sua própria cultura e o povo brasileiro nem mesmo se lembra ou se importa com isso. Oh, God! Save the queen! Hey! Ho! Let’s Go! Help! As rosas não falam, meu Brasil. Não mais. Porque o tempo de Cazuza parou e virou os olhos pro estrangeirismo. O povo não ouve mais o grito do Ipiranga. Agora só tem ouvidos pro grito do cantor americano em seu show há muito esperado. O Brasil desconhece o Brazil, mas conhece de cabo a rabo o EUA, a Espanha, o Canadá… o mundo.”

Quem escreveu? Este texto foi escrito por Filipe, de 17 anos, do Ceará. Ele é dono do tumblr Anarquismos, onde foi publicado este texto. Os créditos são totalmente dados ao autor.


Autor (a): Fabrício Carpinejar
01/12/2012 | Categoria: Autores

Pensava que escrevia por timidez, por não saber falar, pelas dificuldades de encarar a verdade enquanto ardia, arvorava, arfava. Há muitos que ainda acreditam que começaram a escrever pela covardia de abrir a boca. Nas cartas de amor, por exemplo, eu me declarava para quem gostava pelo papel, e não pela pele, ainda que o caderno seja pele de um figo. O figo, assim como a literatura, é descascado com as unhas, dispensando facas e canivetes. Não sei descascar laranjas e olhos com as unhas, e sim com os dentes. Com as mãos, sei descascar a boca do figo e o figo da boca, mais nada. Acreditei mesmo que escrever era uma fuga, pedra ignorada, silêncio espalhado, um subterfúgio, que não estava assumindo uma atitude e buscava me esconder, me retrair, me diminuir. Mas não. Escrever é queimar o papel de qualquer forma. Desde o princípio, foi a maior coragem, nunca uma desistência, nunca um recuo, e sim avanço e aceitação. Deixar de falar de si para falar como se fosse o outro. Deixar a solidão da voz para fazer letra acompanhada, emendada, uma dependendo da próxima garfada para alongar a respiração. Baixa-se o rosto para levantar o verbo. É necessário mais coragem para escrever do que falar, porque a escrita não depende só de ti. Nasce no momento em que será lida.

Quem é: Fabrício Carpinejar é um autor brasileiro mestre em literatura pela UFRGS, é poeta, jornalista, já escreveu 17 livros e seu nome é muito popular na internet. Fez ainda mais sucesso depois que os seus textos começaram a ser lidos por um grande número de jovens nas redes sociais. Nasceu em Caxias do Sul, em 23 de Outubro de 1972 e possui seu site oficial.


Autor (a): Martha Medeiros
18/11/2012 | Categoria: Amor, Autores

“Sentir-se amado.”

O cara diz que te ama, então tá. Ele te ama.

Sua mulher diz que te ama, então assunto encerrado.

Você sabe que é amado porque lhe disseram isso, as três palavrinhas mágicas. Mas saber-se amado é uma coisa, sentir-se amado é outra, uma diferença de milhas, um espaço enorme para a angústia instalar-se.

A demonstração de amor requer mais do que beijos, sexo e verbalização, apesar de não sonharmos com outra coisa: se o cara beija, transa e diz que me ama, tenha a santa paciência, vou querer que ele faça pacto de sangue também?

Pactos. Acho que é isso. Não de sangue nem de nada que se possa ver e tocar. É um pacto silencioso que tem a força de manter as coisas enraizadas, um pacto de eternidade, mesmo que o destino um dia venha a dividir o caminho dos dois.

Sentir-se amado é sentir que a pessoa tem interesse real na sua vida, que zela pela sua felicidade, que se preocupa quando as coisas não estão dando certo, que sugere caminhos para melhorar, que coloca-se a postos para ouvir suas dúvidas e que dá uma sacudida em você, caso você esteja delirando. “Não seja tão severa consigo mesma, relaxe um pouco. Vou te trazer um cálice de vinho”.

Sentir-se amado é ver que ela lembra de coisas que você contou dois anos atrás, é vê-la tentar reconciliar você com seu pai, é ver como ela fica triste quando você está triste e como sorri com delicadeza quando diz que você está fazendo uma tempestade em copo d´água. “Lembra que quando eu passei por isso você disse que eu estava dramatizando? Então, chegou sua vez de simplificar as coisas. Vem aqui, tira este sapato.”

Sentem-se amados aqueles que perdoam um ao outro e que não transformam a mágoa em munição na hora da discussão. Sente-se amado aquele que se sente aceito, que se sente bem-vindo, que se sente inteiro. Sente-se amado aquele que tem sua solidão respeitada, aquele que sabe que não existe assunto proibido, que tudo pode ser dito e compreendido. Sente-se amado quem se sente seguro para ser exatamente como é, sem inventar um personagem para a relação, pois personagem nenhum se sustenta muito tempo. Sente-se amado quem não ofega, mas suspira; quem não levanta a voz, mas fala; quem não concorda, mas escuta.

Agora sente-se e escute: eu te amo não diz tudo.


Autor (a): Gabito Nunes
06/11/2012 | Categoria: Autores

Eu amo você e não sei expressar isso de uma outra forma que não soe como a fala de protagonistas no último capítulo de uma novela ruim. Eu sei que você não me vê pelo mesmo ângulo e eu tentei aceitar isso. Não suporto mais ser considerado seu amigo. Não porque eu não goste, ou porque não seja o bastante pra mim. Mas porque as coisas não têm sido como antes, depois que deixei escapar algumas coisas. Você sabe disso. É porque, deus, odeio ler nos seus olhos que as coisas estão mudando, essa sensação de que com o tempo ninguém pode.

Eu sei, eu sei, que isso tudo nunca foi uma opção, que isso tudo dilacera com o nosso acordo e blablablá. E sei também que você deve estar pensando se isso não é uma reles atração passageira. Não é. Eu passei meses me testando, me contorcendo ao ouvir você falar dos seus encontros fracassados com sósias do Mark Ruffalo e o escambau, me segurando pra não aninhar seu pavor no meu abraço já na terceira cena de “Jogos Mortais”. Eu não aguento mais. Não vou esconder meu desejo por você só porque hoje em dia isso parece uma fraqueza. Aposto que um aneurisma estaria agora bem próximo se eu passasse mais um dia sem deixar as coisas claras, como a gente ingenuamente sempre achou que fosse o melhor. Nossa amizade já foi pro saco, estamos rodando no olho do furacão e acredito que só vamos seguir nos vendo se pularmos algumas etapas. É o que estou tentando fazer, mesmo sem sua ajuda.

Eu quero uma coisa constante, eu quero você comigo. Eu queria que esses meus dois quereres entrassem num acordo. Nos beijamos esses dias, você deve lembrar. Sei que eu não me esqueci. Sabe, rabisquei seu rosto no bloquinho ao lado do telefone, esperando você atender. Ficou perfeito, no papel: você olhando pra mim. O que estou tentando dizer é que aquele foi o beijo que, em tempos, me fez sentir algo. Vai ver por isso me perdi completamente na sequência do roteiro das coisas. Eu não sei em qual fase estamos, se entre nós existe aqueles protocolos que se lê em manchetes de revistas comportamentais. Seu rosto parece contrariado como se eu fosse mais um daqueles a te dar uma bola nas costas. É o que estou sentindo agora, o que vou fazer?

Aconteceu. E a culpa também é sua. Da pele macia nas suas canelas. Da vez que você me telefonou chorando porque era aniversário de morte da sua mãe. Porque você esquece que eu existo e acaba trocando de blusa na minha frente. Porque você escolhe canções difíceis pra cantar em karaokês, se perde na letra e acaba avermelhada e tímida no meio do palco. Porque você me cegou para tudo que não é você ou sobre você.”

Autor: Gabito Nunes nasceu em Porto Alegre – RS, fevereiro de 1982. É escritor e escreve prosa de ficção. Já colaborou para as revistas Gloss e Ragga e ganhou o prêmio Top Blog 2010 com o extinto Caras Como Eu. Publicou os livros: A Manhã Seguinte Sempre Chega e Não Sou Mulher de Rosas, e o e-book de crônicas O Tudo Que Sobrou. Para mais informações seu facebook é Gabito Nunes e seu twitter: @GabitoNunes.


Autor: Daniel Bovolento
19/10/2012 | Categoria: Amor, Autores, Conto, Crônicas, Escrita, Textos

Carta a quem já me disse Adeus

Eu não vou me desculpar pelo lado ruim, nem me perguntar por quantas vezes você pensou em ir embora antes de fazê-lo. Não vou me ater aos rabiscos, aos malfeitos, às partes tortas e a nenhuma dessas coisas que passam pela nossa cabeça assim que somos abandonados. Não vou te culpar por alguma crise de choro ou por alguma cirrose futura, nem espalhar aos quatro ventos alguma história que me torne vítima e tiranize você.

Eu vou sentir sua falta. Aliás, eu já sinto. Sinto que eu deixei escapar a minha melhor chance de ser feliz – e isso não é nenhum estado depressivo que se agrava e se repele automaticamente depois de algum tempo. É conformismo. Constatação das brabas. Daquelas verdades inconvenientes que são pregadas na parede do quarto feito papel de parede que a gente não escolheu. E nem adianta tirar porque a pintura vai descascar e esfarelar tudo. Vai sujar o chão. E as marcas de que um dia eu te perdi vão continuar ali – nas ruínas de um quarto velho e torto no segundo andar de uma casa desalmada qualquer.

Adeus serve pra gente reconhecer no rosto de quem vai embora alguma história da qual tenhamos participado. Os traços do outro vão sempre contar um pouco da gente – principalmente quando a gente ajuda a carregar as caixas, com o coração na mão. Você tinha olhos baixos e meio marejados, e eu sabia que era de saudades da brisa da casa de praia. Dos passeios de barco. Do céu estrelado. E me olhou com tanto carinho antes de me beijar a testa – e eu sei que isso significou muito pra você. Que você foi embora com o coração dilacerado. O meu, em 3/4 e o seu em 7/8. Grudou as mãos suadas antes de devolver as alianças. Mas parece que fez uma força extra-humana para tirá-las dos dedos – é que o costume molda a gente, ainda mais se é voluntário. Moldou o seu corpo. Desacostumou-se aos outros. Se rendeu a minha forma. Mas agora você vai embora quebrada, e eu também. Cada caco reunido com o pouco de força que a gente ainda tinha. E nós deixamos as fotos na estante. Pra lembrar que aqueles dois se amaram, e que amor que é amor não se acaba.

Você foi a melhor coisa que me aconteceu em muito tempo – e só Deus sabe como eu amei você. Do meu jeito, mas amei. Com pretensões, com modos de indicativo e imperativo, sem modo algum, com gentileza e cadeiras puxadas pra você cair diretamente nos meus braços. Com trinta e sete minutos de conversa antes do dentista, com pano e água gelada pra baixar a febre, com o coração na mão pra pedir desculpas depois de ter feito você chorar. Amor não se acaba, morena. Amor fica intacto no espaço e no tempo. A gente é que muda e faz dele fantasia. Abstração. O factual continua com a vida, mas o amor ficou guardado entre o dia em que você me disse que não entendia nada disso de amor, e o dia em que me deu Adeus. Suspenso no ar. Como se ele desacreditasse piamente naquele vocabulário extenso que englobou a nossa despedida.

Sobre o autor: Daniel Bovolento é colunista de alguns sites e blogs e também redator publicitário. Está no twitter @danielbovolento e escreve em seu site, sempre atualizado Entre todas as coisas.


Autores (a): Clarissa Corrêa
23/08/2012 | Categoria: Amor, Autores

Já acreditei em bicho-papão, em monstro, em homem do saco, em bruxa. Já acreditei em sapo, em príncipe encantado, em alma gêmea, em amor eterno. Hoje eu acredito apenas na verdade. É que acho que cada um tem um jeito de ser e de amar e não podemos lutar contra isso. Não dá pra passar a vida toda idealizando, querendo trocar o outro, sonhando, com o pé na nuvem e o coração na mão.

Se eu gosto, gosto como você é, mesmo que você seja chato de vez em quando. Se eu quero, quero mesmo, mesmo que todos digam para não querer. Ainda acho, perdoe o romance barato, que existem amores que duram toda a vida. São raros, mas existem.

Tem gente que insiste e quer ver aquele amor que nem existe durar pra sempre. A gente tem que enxergar as coisas como elas são: algumas coisas duram, outras não. E se a gente quer que dure deve cuidar para que isso aconteça. As relações andam vazias demais, quase superficiais. As relações andam com grades, as pessoas viraram prisioneiras. O amor tem que ser livre. Para amar você precisa respirar. Junto, é claro. Mas primeiro separado. Você vem antes, o outro depois. E isso não é egoísmo, é necessidade.

Ontem assisti “Amor & outras drogas”. Ri, chorei, solucei. À primeira vista, é mais um filme bobinho, desses que eu gosto, desses que a gente vê para passar o tempo e rir um pouquinho. Mas ele traz uma grande e surpreendente questão: até onde a gente vai por alguém? Até onde a gente vai por amor? Que coisas você abre mão para ficar com o outro? É realmente necessário abrir mão de algo?

O dilema gira em torno da mocinha, que tem a doença de Parkinson. É uma raridade, afinal ela é nova e cheia de vida. E quem tem Parkinson acaba perdendo o domínio do próprio corpo, já que é uma doença degenerativa e progressiva do sistema nervoso central. A mocinha, sabendo de sua condição, não quer se envolver com ninguém. O mocinho se encanta pela mocinha e quer ficar com ela, mas coloca na balança tudo que pode acabar perdendo com essa relação. O mocinho, dividido, presta atenção na frase que um senhor mais experiente diz “essa doença vai levar embora tudo que você gosta nela”. E explica que no futuro ela não vai conseguir se vestir sozinha, tomar banho, comer, limpar a bunda. Vale lembrar que o mocinho nunca tinha se apaixonado por ninguém.

Não é fácil uma situação dessas. Acho que você tem que amar muito uma pessoa para conseguir passar por isso. Então eu penso: o que a gente leva dessa vida de verdade? Existe um sentimento mais importante que o amor? É claro que eu me amo, mas se isso acontecesse eu cairia fora? Não, não cairia. O amor é o sentimento mais forte que existe. E é mais forte inclusive que qualquer doença. Se amo alguém eu consigo superar. Se amo alguém nem vou me perguntar se consigo superar. Se amo alguém vou cuidar dessa pessoa com todo amor que tenho.

Sei que falar é simples, viver a situação é outra história. Mas jamais abandonaria a pessoa que amo por ela estar passando por uma situação difícil ou por ter uma doença. Lembrei da frase do mocinho no filme, que achei linda e chorei feito criança: “Você conhece milhares de pessoas, e nenhuma delas toca fundo você. Aí você conhece uma pessoa especial, e sua vida muda para sempre.”

É impossível abandonar quem mudou a nossa vida para sempre. Impossível.

Clarissa Corrêa é uma escritora brasileira e também blogueira, postando seus textos no seu site. Sua popularidade aumentou ainda mais com as redes sociais em que seus textos e frases sempre são citadas, chamando a atenção para novos leitores. Também possui conta no Twitter e página no Facebook.


Autor: Daniel Bovolento
29/07/2012 | Categoria: Autores, Conto, Escrita, Textos

Você tem meia hora para mudar minha vida

Tire o meu ar de tédio. Faça o que eu achar melhor e me convença. Corresponda às minhas expectativas e me faça trocar os porta-retratos por fotos de nós dois. Trate de se arrumar com meu perfume preferido e use os vestidos que eu te dei. Não demora e vem logo. Você tem pouco tempo pra mudar toda a minha vida. Coloca um sorriso no meu rosto da forma mais espontânea que conseguir. Arrume a mesa do almoço e compre um livro bem bacana pra gente ler a dois. Anda, corre! Você não pode me deixar aqui.

Diga aquilo que eu gosto de ouvir. Dispense as partes em que você me decepciona e que arruma briga à toa. Eu não quero ter ouvir reclamações todos os dias. Ignore a sua TPM e se doe a mim. Acho justo que você me ame assim, do jeito que eu vou te amar. Vá ao trabalho e ligue de surpresa. É que eu gosto de ser surpreendido de um jeito meio planejado por mim. Bata a porta e deite na cama. Ou melhor, se jogue sem restrições. Quero que os seus olhos brilhem como nunca brilharam antes com outro cara. Vai, você pode fazer isso. Eu sei que com esforço você consegue ser a tal pessoa da minha vida.

Me dê sempre as mãos e nunca use botas. Faça barulho ao pisar do meu lado. Eu quero ouvir que tenho companhia e quero que você me ensine a cavalgar algum dia. Se não souber, aprenda.  E depois me ensine. Se apaixone primeiro e me apaixone depois. Seja uma boa mãe sem falar de filhos. É que eu quero que você me mate de amores e compense aqueles meus outros amores que não deram certo. Mas pode ser você mesma. Eu não quero te mudar, não. Isso é impressão sua. Eu quero é que você venha assim de fábrica.

Grite alto e me tire da mesmice. Me pegue pelos ombros e me faça balançar todo o corpo, com ou sem ritmo. Dance comigo no meio da rua e esbanje felicidade. Abdique dos amigos que eu não gosto e ame todos os meus melhores amigos. Goste de praia e nem tanto assim de neve. Fique fria porque isso não é problema nenhum. Não espere muita coisa quando eu estiver com sono, mas seja sempre compreensiva. Anda, corre! Você consegue ser a tal mulher da minha vida. Como disse Adriana Calcanhoto: Entre por essa porta agora e diga que me adora! Tá esperando o quê? Não, eu não quero que você mude. Ninguém quer mudar ninguém. E é por isso que a gente diz antes tudo o que quer de alguém porque a culpa nunca é nossa. Eu não tenho defeito e se vier algum problema, ele é todo seu. Eu já te disse o que fazer pra ficar aqui pra sempre. Se adiante, vamos! Pode surgir agora e aproveitar a sua meia hora. Mas agora você já tem menos tempo e ainda tem que mudar a minha vida.

Sobre o autor: Daniel Bovolento é colunista de alguns sites e blogs e também redator publicitário. Está no twitter @danielbovolento e escreve em seu site, sempre atualizado Entre todas as coisas.


Autor: Gabito Nunes
14/07/2012 | Categoria: Amor, Autores
No instante que me iludo, é quando você me esquece. Quando volto à tona, você mergulha nos meus olhos. Se eu te roubo rosas vermelhas, você faz “bem-me-quer”. Quando hesito, é quando você já está na estrada.
Se me perco no teu beijo, você fica tentando encontrar um caminho. Quando me encho de receio, você me diz estar pronta. Eu te ponho em xeque-mate, você me diz que cansou de jogar. Quando não quero me machucar, você me telefona no meio da noite.

Eu vejo o sol nascer no mar, você se preocupa em não molhar os pés. Quando eu não durmo, é quando você sonha loucuras sobre nós dois. Quando sinto teu gosto na minha boca, você pede economia nos clichês. Se não quero parecer patético, você se diz um poema apaixonado.

Eu quero parar o tempo, você procura seu relógio embaixo da cama. Quando me escondo, é quando você me quer em cima de você. Se apresso meu passo na sua direção, você engata a marcha ré. Quando reuno meus pedaços, você dá o coração para bater.

Eu deito no seu colo, você se preocupa em fechar a janela. Quando me poupo, é o instante que você se dá de graça. Se ando em alta velocidade, você conta os níqueis pro pedágio. Eu perco as chaves, você insinua mudar pro meu apartamento.

Um amor físico, fatídico, real, raro e patente. Um amor que nasceu, mas nunca viveu. Um amor que aconteceu, mas não foi ocupado. Daquelas comédias românticas que ninguém tem tempo de rir, pois já começa pelo final. Os amores mais bonitos são aqueles que nunca foram usados.

Sobre o autor: Gabito Nunes nasceu em Porto Alegre – RS, fevereiro de 1982. É escritor e escreve prosa de ficção. Já colaborou para as revistas GlossRagga e ganhou o prêmio Top Blog 2010 com o extinto Caras Como Eu. Publicou os livros: A Manhã Seguinte Sempre ChegaNão Sou Mulher de Rosas, e o e-book de crônicas O Tudo Que Sobrou. Para mais informações seu facebook é Gabito Nunes e seu  twitter: @GabitoNunes.


Autor: Meg Cabot
11/07/2012 | Categoria: Autores, Conto, Escrita, Textos

Amo o verão. É calor, férias, e de repente, os garotos estão tirando a camisa. Na adolescência, eu amava ficar na piscina com um bom livro… Meu problema era que, quando vinha um desses garotos até minha amiga Julia e eu, ele era tão…imaturo. Não tinha nada a ver com aqueles que apareciam nos livros que eu lia.

A Julia falava que eu não estava sendo realista. “Então eu não posso esperar que me liguem quando eles me dizem que vão ligar ?”, perguntava. “Os caras dos livros são inventados”, ela respondia. “Não espere esse tipo de perfeição na vida real”. Percebi que a Julia estava certa. Os garotos dos livros eram inventados. “Sabe o que eu devia fazer”, disse, inspirada. “Sempre amei escrever: Por que não criar meu garoto perfeito e colocá-lo na minha história e tentar publicá-la?” “Você é louca”, disse Julia. “Suas notas em inglês são horríveis. E você só tem 16 anos. Jamais iriam publicar um livro seu.” Era verdade, minhas notas em inglês eram péssimas. Não sabia o que era gerúndio e Julia era muito melhor que eu em análise sintática. Julia tirava As, enquanto eu, Bs. E mais : minha família não tinha PC ( naqueles dias, era muito caro, poucas casas tinham).

Eu sabia que, para ser uma autora, eu teria que digitar meu manuscrito, enviar nos editores ( que provavelmente o rejeitariam), antes de achar aquele que pagaria pela minha obra.. Só porque meus pais acreditavam que dar o básico a seus filhos (comida, casa, educação) bastava, eu ia ter que ganhar meu próprio dinheiro para comprar meu PC (ou uma máquina de escrever elétrica). “O que você vai fazer ?”, Julia debochou, espalhando bronzeador. “Parar de vir à piscina, arrumar um emprego e começar a escrever seu romance bobo?”

Eu consegui um emprego no dia seguinte. Ia cuidar de duas garotas o dia inteiro, enquanto os pais delas trabalhavam. Elas eram umas fofas. Amavam brincar de Barbie e isso me ajudava a trabalhar nos trechos do meu livro em que eu estava bloqueada…Ainda que isso rendesse perguntas estranhas dos pais delas, tipo: “Por que a minha filha está falando que o Ken é um fantasma chamado Jesse e que a Barbie é uma médium?”

Ops. A briga que Julia e eu tivemos quando parei de ir à piscina todo dia (exceto nos fins de semana) foi épica. “Por que você está fazendo isso”, ela ficava perguntando. “É irreal, você nunca vai ganhar dinheiro para comprar um computador e ninguém vai publicar seu livro. E você não vai arrumar um namorado andando com duas crianças o dia todo.” Nossa briga durou para sempre. Ficamos brigadas na escola e nos verões seguintes. (Peguei o mesmo emprego, todo verão, por seis anos.) Não culpo Julia por ficar brava, mas ela estava errada:

• Arrumei um namorado. Ele era engraçado e cuidava de mim.
• Eu ganhei dinheiro o suficiente para comprar meu PC. Mas meus pais ficaram tão impressionados com meu esforço que me deram um…
• Sim, publicaram meu trabalho. 75 livros e ainda estou contando…
• Nem todos os caras perfeitos são inventados. Às vezes, eles são apenas muito tímidos para tirar a camisa.
• Para compensar todos os verões que eu passei trabalhando, comprei uma casa com piscina na Flórida, onde o verão nunca acaba.

E a Julia, bom, ela leu todos os livros que eu escrevi.

Sobre o autor: Meggin Patrícia Cabot, mas conhecida como Meg, é mundialmente conhecida por ser autora de mais de 60 livros, onde seu maior bestseller é a série “Diário de Uma Princesa” contendo dez volumes. Nasceu em Bloomington, Indiana nos EUA, no dia 1 de fevereiro de 1967. Já teve alguns textos publicados na revista Capricho, onde tinha sua própria coluna “Diário da Meg”. Escreve praticamente para o público jovem. A editora Record é responsável pelas traduções de seus livros.


Se eu morrer antes de você.
02/07/2012 | Categoria: Amizade, Autores, Textos

Se eu morrer antes de você, faça-me um favor: Chore o quanto quiser, mas não brigue comigo. Se não quiser chorar, não chore; Se não conseguir chorar, não se preocupe; Se tiver vontade de rir, ria; Se alguns amigos contarem algum fato a meu respeito, ouça e acrescente sua versão; Se me elogiarem demais, corrija o exagero. Se me criticarem demais, defenda-me; Se me quiserem fazer um santo, só porque morri, mostre que eu tinha um pouco de santo, mas estava longe de ser o santo que me pintam; Se me quiserem fazer um demônio, mostre que eu talvez tivesse um pouco de demônio, mas que a vida inteira eu tentei ser bom e amigo… E se tiver vontade de escrever alguma coisa sobre mim, diga apenas uma frase: “Foi meu amigo, acreditou em mim e sempre me quis por perto!” Aí, então derrame uma lágrima. Eu não estarei presente para enxugá-la, mas não faz mal. Outros amigos farão isso no meu lugar. Gostaria de dizer para você que viva como quem sabe que vai morrer um dia, e que morra como quem soube viver direito. Amizade só faz sentido se traz o céu para mais perto da gente, e se inaugura aqui mesmo o seu começo. Mas, se eu morrer antes de você, acho que não vou estranhar o céu. “Ser seu amigo, já é um pedaço dele…”

Chico Xavier é um dos mais importantes divulgadores do espiritismo no Brasil.