Só amor não basta
04/03/2014 | Categoria: Conto, Crônicas

Saio de casa com o intuito de achar algo que me inspire a escrever. Estou numa caçada do irrisório cotidiano. Motivado a encontrar algo circunstancial e poder relatar o comportamento humano. Seja em um jovem bêbado saindo de uma festa, numa criança fazendo birra ou num adulto desinteressado que só pensa em poder colocar a cabeça no travesseiro e descansar. Torno-me um simples observador, alheio ao tempo e espaço. Chove. Mas eu não me preocupo em estar molhado, é só uma pequena garoa e a aceito de bom grado.

Ando sem direção pelas ruas escuras e movimentadas do bairro desconhecido do qual fui parar. Mais a frente encontro um café. Resolvo entrar, talvez tire a sorte grande. Sento-me no balcão localizado ao fundo do local. Tiro da bolsa meu caderno e uma caneta. Peço um cappuccino e ponho a me observar o ambiente. Rústico e acolhedor. Passo os olhos ao redor, há pessoas de todos os tipos aqui, mas não posso absorver histórias delas. Todas agem da mesma forma. Conversam, alimentam-se, agem naturalmente. Não há mistério nisso.

Meu cappuccino chega, tomo um gole e continuo a observar. Meu olhar encontra um casal com atitudes diferentes e por isso destacam-se entre todos ali. Ao contrário de muitos, eles não estão se divertindo, trocando carinhos e muito menos apreciando a companhia do outro. Não sei o que conversam, mas a discussão é obvia entre eles.

O rapaz está de cabeça baixa, tem o semblante triste e decepcionado. A moça, com um olhar firme e acusador, parece determinada e enquanto esta fala o moço só balança a cabeça concordando seja lá com o que ela diz. Apesar da discussão desse casal, ambos continuam sentados próximos. Movem-se em sintonia, o que na minha visão representa o quão importantes são na vida um do outro.

O moço levanta a cabeça e olha firmemente nos olhos da companheira. Noto dessa vez uma suplica oculta nesse gesto simples. Fico perguntando-me o que ele fez, ou será que foi ela? Não sei. Mas concluo que eles vão se resolver e, se não, fico a imaginar como será a vida deles dali para frente. Há amor em volta desse casal, mas só isso não basta.

A moça percebe meu olhar e sustenta-o, o rapaz acompanha seu gesto. Logo estou sendo encarado pelos dois e entendo que estou invadindo a privacidade deste casal. Por fim, sinto que está na minha hora. Desvio o olhar, guardo meu caderno e caneta, tomo o ultimo gole do meu cappuccino já frio, deixo o dinheiro em cima da mesa e saio do café para entrar na fria e solitária noite.


Inspire-se: Filtro dos Sonhos
16/01/2014 | Categoria: Conto, Curiosidade, Imagens, Inspire-se

Provavelmente você já se deparou com uma imagem como essa e se perguntou o que realmente significa esse objeto, qual o seu nome e o porque das pessoas estarem usando-o tanto. Até tempo atrás eu não sabia o que significa isso, mas achava lindo de qualquer jeito, então resolvi pesquisar e encontrei várias histórias e descobri até o nome.

Conhecido como apanhador ou filtro dos sonhos, este é objeto indígena nativo da America do Norte. Foi nos anos 60 e 70 que os Filtro dos Sonhos se tornaram conhecidos, quando houve uma tentativa de resgatar os costumes dos índios americanos.

Uma das versões sobre eles conta que o povo Ojibwe acreditava que quando a noite vinha, o ar se enchia de sonhos bons e ruins, alguns deles mesmo sendo pesadelos, podem conter uma importante mensagem, outros porém contém energias ruins que flutuam à nossa volta e que não são nossos. O filtro, que na verdade é uma grande teia, tem a função de separar os sonhos bons e importantes das energias ruins, que podem nos fazer mal. Os sonhos ruins ficam presos nas teias até o nascer do sol e desaparecem logo em seguida. Já os sonhos bons sabem o caminho para passar pela teia, assim as boas vibrações chegam a quem o possuir.

Outra velha história conta que em um tempo onde havia só escuridão no mundo, o xamã Sioux subiu no alto de uma montanha e lá ele se comunicou com um espírito mágico em formato de aranha, chamado Iktomi. Conta a lenda que a aranha pegou um cipó e teceu uma teia em volta dele com cabelo de cavalo. O espírito Iktomi teria ensinado ao xamã sobre o nascimento, a morte e as forças boas e ruins que influenciam os homens. A força do Filtro dos Sonhos faria sua vida seguir de acordo com o que você deseja no seu interior. A aranha ensinou então ao xamã que: “Se você trabalhar com forças boas, será guiado na direção certa e entrará em harmonia com a natureza. Do contrário, irá para direção que causará dor e infortúnios”. A aranha ainda aconselhou o xamã a usar a teia central para ajudar o seu povo a alcançar seus objetivos, fazendo bom uso de suas idéias, sonhos e visões. Para o xamanismo essa mandala tem a função de inspirar criatividade, imaginação, clarear sua visão sobre a teia da vida, transformar seus sonhos em realidade e muitas outras boas energias para quem o possuir.

Os filtros dos sonhos devem ser colocados onde a luz bate de manhã, na janela, para que os maus sonhos sejam destruídos e ele possa funcionar normalmente na noite seguinte. No filtro dos sonhos, o círculo representa o ciclo da vida, a teia os sonhos que construímos ao decorrer de nossas vidas e os adereços como penas ou pedras representam o ar ou a respiração. Ele ainda inspira a visão de mundo e o nosso poder de ir atrás do que queremos, alcançando nossos objetivos.

O Filtro dos Sonhos ganhou várias versões, podemos encontrá-los em formas de colares, brincos, da forma tradicional e tatuagens. As tatuagens de Filtro dos Sonhos servem para quem busca proteção, deixando só que boas energias e bons sonhos cheguem. Comenta-se que ele te ajudará a conseguir independência e coragem.


Num café
29/10/2013 | Categoria: Amor, Conto, Crônicas, Textos

Mas um dia a gente se encontra em uma rua qualquer e você me convida para um café que fica na próxima esquina no qual costumávamos nos encontrar. Pedimos o de sempre e o clima de nostalgia nos acompanha. Você me observa enquanto mexo o saquinho de chá dentro da xícara e isso é sinal de que a vergonha passou por mim e ficou. E percebemos que nada mudou, quero dizer, eu e você mudamos, mas o nós de nós dois juntos, isso não mudou nada. E de repente começamos a rir porque estamos pensando exatamente sobre isso e estamos nervosos. Mordo os lábios. Mais um sinal o que indica meu nervosismo por estarmos ambos calados. E você coloca sua mão em meu queixo fazendo com que meus dentes soltem meu lábio inferior, como fez inúmeras vezes antes.

E de repente começamos uma conversa desenfreada por lembranças que somente nós conhecemos. E já não falamos mais do passado, mas o que queremos do futuro. Percebo que continua querendo formar em engenharia e você ri por eu ainda sonhar em ter meus livros nas prateleiras das bibliotecas e livrarias. Isso te faz lembrar da promessa que fiz sobre escrever nossa história e confesso que falta apenas alguns capítulos, mas terei de acrescentar mais um para contar esse encontro inesperado que tivemos.

Depois de outros dois anos, estamos aqui. Queria acreditar que as coisas não mudaram tanto, mas mudaram e mesmo parecendo o contrário somos pessoas diferentes agora. Temos os mesmos planos, mas de uma forma mais madura. O silencio paira sobre a gente e ao te olhar encontro em seu pescoço a corrente que te dei de presente no seu aniversário. Você afirma que nunca a tirou desde nossa ultima conversa e sempre que te perguntam dela você diz apenas que é algo especial. Não sei como reagir quanto a isso e tentando mudar de assunto pergunto sobre sua mãe. Você diz que ainda continua citando meu nome a toda discussão que vocês têm e que talvez até hoje ela não tenha aceitado nosso fim. Eu dou risada disso, porque só ela agiria assim. Você entorta a cabeça para o lado e dá um sorriso, dizendo que esse som é o mais lindo que já ouviu. Volto a mexer meu chá.

Te pergunto sobre as garotas e você diz que namorou uma, mas não durou três meses, ao questionar o porque, você apenas me responde que não era ela. Tenho a impressão que sua resposta quer dizer mais do que aparenta, mas não digo nada. Você continua contando que ficou com muitas meninas depois que terminamos, mas com o tempo tudo foi perdendo a graça. Já eu conto que fiquei na minha durante um tempo, tentando me adaptar a nova rotina, mas depois comecei a sair com algumas amigas e encontrei uma nova forma de encarar a vida. Digo sobre os caras, que não namorei outro e nem quero por agora, brinco que estou na lei do desapego, só para não confessar que não quero correr o risco de me machucar novamente, porque as feridas antigas ainda estão abertas.

Olho o relógio, vejo que já se passaram duas horas e meia e realmente preciso ir. Você me passa seu numero e eu o meu a você. Agradeço pelo chá, pela tarde e pela conversa. Antes de ir, você me compra um bombom, o de sempre de alguns anos atrás, agradeço mais uma vez. Nos despedimos, você me acompanha até a porta do café e eu vou embora sem olhar para trás.

Enquanto caminho ouço meu celular tocar indicando uma nova mensagem. Ao olhar sorrio: “A melhor tarde que tive desses dois anos, obrigado. Podemos repetir?”.


Síndrome do Peter Pan
12/10/2013 | Categoria: Comportamento, Conto, Escrita, Saudades, Textos

Um dia a gente já brincou na lama, teve medo de monstro, acreditou no Papai Noel, no Coelhinho da Páscoa, na Fada do Dente. Fez perguntas indiscretas para os adultos, bagunçou o quarto, se divertiu assistindo desenho animado. Bebeu suco de maracujá, comeu biscoito recheado, bolo de cenoura, sorvete e chocolate até dizer chega. Fez castelo de areia na praia, acampou com os amigos, dormiu na casa dos avós. Fez festa de  aniversário de boneca, princesa, fada.

Levou bronca do pai, da mãe, do irmão mais velho, da professora. Ficou de castigo por semanas e semanas, e quase sempre foi perdoado antes do prazo. Gastou todo o dinheiro da mesada com chiclete, e levou mais uma bronca por isso. Caiu de bicicleta, patins, skate. Ralou o joelho, quebrou o braço, tem quatro pontos debaixo do queixo. Brincou de pique-esconde, pique-pega, pique-tudo-que-se-possa-imaginar. Imaginou um mundo onde todas as pessoas eram felizes e tinham o poder de voar. Vestiu uma capa feita de lençol e tentou voar. Inventou um amigo imaginário, mudou o nome dele.

Quis mudar nosso próprio nome. Jogou video-game até cansar. Fez aula de karatê, natação, balé. Calçou o sapato da mãe, andou pela casa toda borrada de batom, querendo ser adulto por um dia.Mal sabíamos o que era, na verdade, crescer. Ter responsabilidades, horários, prazos. Pensar na vida, resolver problemas. Problemas muito mais complicados do que a matemática, que parecia ser o pior dilema do mundo, na quinta série. Me faz lembrar da história de Peter Pan, o menino que vivia na Terra do Nunca, e nunca crescia. Quem fosse com ele, seria criança para sempre, imagine só? Uma vida inteira só de chiclete, brinquedos, sonhos. Uma vida em que o único problema fosse o da matemática. Seria pedir demais, não é? Sim. Só crescendo vivemos coisas diferentes, conhecemos pessoas, erramos – muito, aprendemos – muito, vivemos. É o ciclo da vida, não se pode querer mudá-lo. É o que precisamos. Mesmo assim, posso apostar que qualquer um de nós, desde os que acabaram de sair da infância até os que quase não se lembram dela, gostaríamos de pedir, pelo menos por um dia: Peter Pan, ainda dá tempo de ir com você?

Entrando no clipe do dia das crianças trouxe um texto da Maju Sonali que escreve no blog Depois dos Quinze


O que levei de você
12/09/2013 | Categoria: Amor, Conto, Saudades, Textos

Dizemos adeus e partimos. Dali pra frente seria cada um para um lado, por si. Não carregaríamos mais um ao outro, não compartilharíamos mais nenhuma história, e tudo o que passamos ficaria no passado. Acontece que levamos um pedaço de todo relacionamento que temos, e do nosso peguei uma bagagem um tanto pesada.

Levei um pouco de nós. De certos momentos que seriam uma pena jogar fora, então também coloquei na mala para quando tivesse coragem deixasse em algum lugar por aí. Trouxe comigo nossas músicas e juntamente nossa primeira dança. Foi impossível também esquecer nossos beijos… Foi só o que deu para levar de nós.

Já de você, trouxe tudo. Não pude jogar nada fora, e confesso a parte mais difícil foi ter que guardar tudo, sabendo que carregaria algo que não poderia abrir mais tarde, a não ser para jogar fora depois.

Levei comigo seu abraço que por muito me protegeu de inúmeros perigos. Seu toque que por sempre me trouxe a sensação de paz. Suas manias e seus gostos. Trouxe comigo a sua voz e o som da sua risada que possuíam o dom de me acalmar. O seu sorriso e seu olhar que por serem os mais sinceros me traziam a mais pura felicidade. Levei sua leveza e espontaneidade de encarar a vida.

Levei comigo também seus conselhos que sempre me guiaram para o lado bom da vida. Suas palavras de conforto quando tudo estava desabando, para que lembrasse nos momentos ruins que sempre a um caminho a seguir. Coloquei na bagagem todo o seu encanto, para que às vezes eu recordasse todos os motivos que me fizeram ficar com você e a raiva de você não me dominasse. Tudo o que aprendi com a sua presença, também trouxe comigo.

Não abandonei nada de você, porque sabia que ainda precisaria dessas coisas comigo que me fizeram e que me construíram. Não pude deixar parte da minha história para trás, porque elas se tornaram minhas partes. Talvez um dia eu me torne outro alguém, construído por outras partes e deixasse essas de uma vez por todas. Mas isso não é assunto para agora, seria mais para frente, quando eu estivesse acostumado com sua falta e finalmente não precisar mais dessa bagagem.

Nada disso pesou tanto quanto a saudade e o amor que levei de você. Ah, esses dois não pude me separar, mesmo querendo. E eu queria! Mas foi impossível separar dessas duas bagagens que pesarão por uma longa caminhada. Eu fui e comigo levei a saudade da sua presença, da sua proteção, do seu carinho, do seu afago… Saudade de você! Você foi e me deixou seu amor e levei comigo, o seu e o meu.

E à medida que perceber que não preciso de certas bagagens vou me desfazendo de cada uma delas, deixando pelo caminho até no final não ter mais nada de você, mas por enquanto: o que levei de você, foi você!


Caixa postal
13/08/2013 | Categoria: Conto, Escrita, Textos

Peguei meu celular para ver as horas, apertei qualquer tecla e vi aquele ícone da caixa postal no canto superior da tela. Odiava aquele ícone, me incomodava, era como se tivesse aversão por ele, odiava mais ainda ter que gastar meus créditos para ouvir uma mensagem – que na maioria das vezes não passava de chiados de uma ligação não desligada. Resolvi por fim, discar o numero para ouvir a tal mensagem e tirar de uma vez aquele símbolo incomodo.

Ah, oi! Se lembra de mim? Sou eu, o primeiro e único, como eu costumava dizer. Lembrou agora? Parece estupido eu estar aqui, mas a saudade bateu mais forte que o orgulho. Sei que tem muito tempo que não nos falamos e a culpa é minha, mas sabe me deu uma vontade danada de falar com você para lhe dizer umas verdades que só percebi há algum tempo. No fundo você sempre esteve certa: eu ia me arrepender. E estou aqui para confessar meu arrependimento. Me gabei por muito tempo quando terminamos, achava que estava feliz sem você, me diverti, fiquei com varias, ia onde queria, fazia o que queria e voltava quando desejava, sem compromisso e achava que tinha a liberdade. Mas tudo foi perdendo a graça à medida que o tempo ia passando. No final de tudo, eu não tinha para quem ligar, não tinha um ombro amigo quando precisasse alguém para me cuidar, para estar ao meu lado sempre. Faltava algo e por fim percebi que faltava você. Ultimamente tudo me lembra de você, todas as musicas, todos os textos e frases que vejo. Tudo tem você. Andei olhando fotos suas e vejo o quanto está bem, parece que realmente me esqueceu como eu pedi um dia. Me desculpa por todas as lagrimas e magoas, por toda dor que te causei…Bom é isso, espero que esteja bem, mesmo que não aconteça, estarei esperando sua ligação.

As lagrimas caiam dos meus olhos e aquela sensação que achava que nunca mais ia sentir, estava ali, lembrava perfeitamente daquela voz. No fundo queria retornar sua ligação, matar a saudade, marcar um encontro e começar novamente. Mas deixei que passasse, não iria permitir que acontecessem as mesmas coisas. Ficou para trás.


Autor: Daniel Bovolento
19/10/2012 | Categoria: Amor, Autores, Conto, Crônicas, Escrita, Textos

Carta a quem já me disse Adeus

Eu não vou me desculpar pelo lado ruim, nem me perguntar por quantas vezes você pensou em ir embora antes de fazê-lo. Não vou me ater aos rabiscos, aos malfeitos, às partes tortas e a nenhuma dessas coisas que passam pela nossa cabeça assim que somos abandonados. Não vou te culpar por alguma crise de choro ou por alguma cirrose futura, nem espalhar aos quatro ventos alguma história que me torne vítima e tiranize você.

Eu vou sentir sua falta. Aliás, eu já sinto. Sinto que eu deixei escapar a minha melhor chance de ser feliz – e isso não é nenhum estado depressivo que se agrava e se repele automaticamente depois de algum tempo. É conformismo. Constatação das brabas. Daquelas verdades inconvenientes que são pregadas na parede do quarto feito papel de parede que a gente não escolheu. E nem adianta tirar porque a pintura vai descascar e esfarelar tudo. Vai sujar o chão. E as marcas de que um dia eu te perdi vão continuar ali – nas ruínas de um quarto velho e torto no segundo andar de uma casa desalmada qualquer.

Adeus serve pra gente reconhecer no rosto de quem vai embora alguma história da qual tenhamos participado. Os traços do outro vão sempre contar um pouco da gente – principalmente quando a gente ajuda a carregar as caixas, com o coração na mão. Você tinha olhos baixos e meio marejados, e eu sabia que era de saudades da brisa da casa de praia. Dos passeios de barco. Do céu estrelado. E me olhou com tanto carinho antes de me beijar a testa – e eu sei que isso significou muito pra você. Que você foi embora com o coração dilacerado. O meu, em 3/4 e o seu em 7/8. Grudou as mãos suadas antes de devolver as alianças. Mas parece que fez uma força extra-humana para tirá-las dos dedos – é que o costume molda a gente, ainda mais se é voluntário. Moldou o seu corpo. Desacostumou-se aos outros. Se rendeu a minha forma. Mas agora você vai embora quebrada, e eu também. Cada caco reunido com o pouco de força que a gente ainda tinha. E nós deixamos as fotos na estante. Pra lembrar que aqueles dois se amaram, e que amor que é amor não se acaba.

Você foi a melhor coisa que me aconteceu em muito tempo – e só Deus sabe como eu amei você. Do meu jeito, mas amei. Com pretensões, com modos de indicativo e imperativo, sem modo algum, com gentileza e cadeiras puxadas pra você cair diretamente nos meus braços. Com trinta e sete minutos de conversa antes do dentista, com pano e água gelada pra baixar a febre, com o coração na mão pra pedir desculpas depois de ter feito você chorar. Amor não se acaba, morena. Amor fica intacto no espaço e no tempo. A gente é que muda e faz dele fantasia. Abstração. O factual continua com a vida, mas o amor ficou guardado entre o dia em que você me disse que não entendia nada disso de amor, e o dia em que me deu Adeus. Suspenso no ar. Como se ele desacreditasse piamente naquele vocabulário extenso que englobou a nossa despedida.

Sobre o autor: Daniel Bovolento é colunista de alguns sites e blogs e também redator publicitário. Está no twitter @danielbovolento e escreve em seu site, sempre atualizado Entre todas as coisas.


Mensagem de Voz.
13/09/2012 | Categoria: Amor, Conto, Crônicas

“Oi, como você está? É a terceira vez que tento te ligar, mas só fica na caixa postal. Desculpe-me incomodar a esta hora, mas preciso lhe falar algumas coisas. Serei breve, eu prometo.”


Talvez você não tenha mais o meu número na agenda do seu celular, nem mesmo as mensagens que lhe mandava naquele tempo (o nosso tempo, se é que você é capaz de lembrar). E as nossas fotografias? Tudo bem, era apenas uma ou duas, pouquíssimas, já que você nunca se sentia muito à vontade em frente às câmeras. Lembra daquela vez da nossa formatura no último ano do Ensino Fundamental? Você ficou tão revoltado com os flashs e gritou em meio ao discurso da Elisa. É verdade, um discurso muito chato e quase todos os formandos dormiam. Prometi ser rápida, mas estou enrolando, né? Desculpa, não gosto nem de imaginar o que você vai pensar de mim quando ouvir esta mensagem – se é que vai.
Eu só queria te lembrar de tudo que nós vivemos um dia. Já faz um ano, exatamente um ano hoje (o relógio que fica no meu quarto marca meia-noite) que o laço existente entre nós “acabou-se”. Devo te dizer que acreditei que seria fácil. Que eu iria superar logo, afinal, nunca alguém despertou tanto sentimento em mim quanto você… O primeiro beijo, o primeiro namorado, o primeiro amor. E é como dizem: O primeiro a gente nunca esquece! E isso não é tão bom quando se trata de sentimentos, bem… Eu sempre te achei o garoto mais bonito da escola. E o mais idiota, também. Todas as garotas eram apaixonadas por você e eu ficava com ciúmes, mas negava até o fim. Éramos amigos até a oitava série, quando nos beijamos pela primeira vez no baile do final do ano. Não poderia ter sido mais perfeito, mas, ao contrário de mim, você não aparentava querer algo mais sério. Nosso primeiro encontro foi em um parque de diversão que havia acabado de chegar à cidade. Admito que preferia ir ao cinema ou ver um filme em tua casa, com aquele frio que sempre faz nos invernos gaúchos e estava em alta, é claro: Final de julho, início de agosto. Desde então, ficamos mais próximos, você sabe da história, creio eu. Não quero te contar tudo porque irei chorar. Sei disso. E sei também que você conhece minha voz de choro como ninguém. Estou vestindo aquela sua camisa azul listrada, que você me deu quando derramou café na minha camiseta dos Ramones. Ainda sinto seu perfume e as lembranças daquela noite em que você apareceu em minha casa com flores, uma caixa de bombons em formas de coração (que você nunca me disse onde comprou) e alguns DVDs de filmes românticos, muitos deles eram adaptações das obras do Nicholas Sparks. Algo completamente surpreendente, afinal, era você. E, para me confundir ainda mais, estava chovendo. Aquelas chuvas que os raios chegam a clarear a casa inteira como se tivesse uma lâmpada prestes a queimar: Pisca uma, duas, três vezes e apaga de vez. Então você me pediu em namoro. Foi engraçado porque, mesmo querendo, você não sabia fazer um bom jogo de palavras, mas eu lembro de como terminamos aquela noite: Apertados no sofá, com um cobertor que mal cobria nós dois. Não vimos os filmes, não comemos os bombons… Só dormimos com o barulho da chuva. Mas tudo acabou como era previsto. Nada é para sempre, principalmente o amor de dois jovens que não têm noção do que é o futuro e quais são as surpresas que existem lá, neste tão temido tempo… E eu tentei esquecer. Mas não tinha como, entende? Não sei como ou porquê tivemos um fim. Quem foi que decidiu? Por que foi tão de repente não dando tempo nem de reparar nossos erros? Por que tudo se quebrou tão rápido e cedo? Procurei em outros homens o que encontrei em você. Mas essa é a verdade: Só você tem. E eu mal sei o que é que me prende tanto a ti. Passei maquiagem na noite de hoje, coloquei um vestido para festa e prometi não me abalar. “Promessas foram feitas para serem quebradas”, aquela frase que você mesmo escreveu na parede do meu quarto, com a tua caligrafia torta. Tenho até hoje os travesseiros coloridos. Procurei também aquela coragem que você me passava, a proteção, o carinho. Lembra-se daquela vez em que decidimos pintar nossos cabelos o mais colorido possível para a viagem de formatura? Ou quando você perdeu a aposta com seus amigos e teve que ir de pijama para a escola, onde nós fomos juntos? Eu preciso encontrar isso. Em outro alguém, mas é algo totalmente impossível. Não há outra pessoa com carisma, sorriso, olhos, inteligência, o jeito. Eu precisava só te dizer isso, mesmo que você mal se lembre de mim. Só não esqueça que sou capaz de enfrentar o mundo com apenas uma mão, se você estiver ao meu lado, segurando a minha outra mão e dizendo que tudo vai ficar bem. Eu não te amo pelo que você é, simplesmente te amo por tudo que você me fez ser quando estivemos juntos. E é por isso que eu te agradeço.
Tu, tu, tu, tu.

Escrito ao som da música Love Story, da Taylor Swift. Aconselhável ler escutando-a.

P.S: Estou pensando em continuar a escrever essa crônica/conto, deixe um comentário dizendo o que achou!


Autor: Daniel Bovolento
29/07/2012 | Categoria: Autores, Conto, Escrita, Textos

Você tem meia hora para mudar minha vida

Tire o meu ar de tédio. Faça o que eu achar melhor e me convença. Corresponda às minhas expectativas e me faça trocar os porta-retratos por fotos de nós dois. Trate de se arrumar com meu perfume preferido e use os vestidos que eu te dei. Não demora e vem logo. Você tem pouco tempo pra mudar toda a minha vida. Coloca um sorriso no meu rosto da forma mais espontânea que conseguir. Arrume a mesa do almoço e compre um livro bem bacana pra gente ler a dois. Anda, corre! Você não pode me deixar aqui.

Diga aquilo que eu gosto de ouvir. Dispense as partes em que você me decepciona e que arruma briga à toa. Eu não quero ter ouvir reclamações todos os dias. Ignore a sua TPM e se doe a mim. Acho justo que você me ame assim, do jeito que eu vou te amar. Vá ao trabalho e ligue de surpresa. É que eu gosto de ser surpreendido de um jeito meio planejado por mim. Bata a porta e deite na cama. Ou melhor, se jogue sem restrições. Quero que os seus olhos brilhem como nunca brilharam antes com outro cara. Vai, você pode fazer isso. Eu sei que com esforço você consegue ser a tal pessoa da minha vida.

Me dê sempre as mãos e nunca use botas. Faça barulho ao pisar do meu lado. Eu quero ouvir que tenho companhia e quero que você me ensine a cavalgar algum dia. Se não souber, aprenda.  E depois me ensine. Se apaixone primeiro e me apaixone depois. Seja uma boa mãe sem falar de filhos. É que eu quero que você me mate de amores e compense aqueles meus outros amores que não deram certo. Mas pode ser você mesma. Eu não quero te mudar, não. Isso é impressão sua. Eu quero é que você venha assim de fábrica.

Grite alto e me tire da mesmice. Me pegue pelos ombros e me faça balançar todo o corpo, com ou sem ritmo. Dance comigo no meio da rua e esbanje felicidade. Abdique dos amigos que eu não gosto e ame todos os meus melhores amigos. Goste de praia e nem tanto assim de neve. Fique fria porque isso não é problema nenhum. Não espere muita coisa quando eu estiver com sono, mas seja sempre compreensiva. Anda, corre! Você consegue ser a tal mulher da minha vida. Como disse Adriana Calcanhoto: Entre por essa porta agora e diga que me adora! Tá esperando o quê? Não, eu não quero que você mude. Ninguém quer mudar ninguém. E é por isso que a gente diz antes tudo o que quer de alguém porque a culpa nunca é nossa. Eu não tenho defeito e se vier algum problema, ele é todo seu. Eu já te disse o que fazer pra ficar aqui pra sempre. Se adiante, vamos! Pode surgir agora e aproveitar a sua meia hora. Mas agora você já tem menos tempo e ainda tem que mudar a minha vida.

Sobre o autor: Daniel Bovolento é colunista de alguns sites e blogs e também redator publicitário. Está no twitter @danielbovolento e escreve em seu site, sempre atualizado Entre todas as coisas.


Conto – O Último Bruxo Parte 2
27/07/2012 | Categoria: Conto

Vitor Roque é leitor do nosso site está postando sua história no Elas Disseram! Ele possui sua conta no Twitter e uma página no Facebook! Tem 14 anos e mora em Florianópolis. Adora livros: a sua série favorita é “Harry Potter”, e recentemente, também está acompanhando “Jogos Vorazes.”

O suplico de meu pai não foi suficiente para me frear, puxei a mesa sem tocá-la, apenas com um leve levantar de minhas mãos e a joguei contra o garoto, mas meu avô entreviu quebrando a mesa no meio do trajeto.

— Devia ter orgulho de ser um bruxo, sabia que somos os últimos da espécie? — Falou meu avô.

— Ah claro, porque isto melhora muito nossa situação vovô, não entende como todos os outros bruxos desapareceram? Foram mortos, todos eles, exterminados como se fossem animais, quanto tempo acha que resta para que o mesmo aconteça conosco? — Falei com a voz esganiçada.

— Você não sabe do que fala Ethan! — Falou meu pai com um tom superior.

—Acredite pai, sei muito bem do que estou falando.

No momento em que terminei de falar uma fumaça invadiu o salão de jantar, todos saíram correndo para ver o que havia acontecido, fogo muito fogo. Homens cobertos de preto invadiram o castelo com machados e outros tipos de armas nas mãos.

Logo percebi que exatamente o que eu havia dito estava acontecendo, eles vieram para exterminar os últimos bruxos, e vieram em número, pareciam mais de duzentos homens para combater uma família de no máximo quarenta membros.

Tudo em que eu pensava era em correr, em me salvar mais isto seria difícil, quatro destes homens estavam me cercando, minha visão estava ficando embaçada eu quase não conseguia enxergar, apenas pude ver um clarão, e os quatro homens caindo ao chão, logo após isto a voz de meu pai invadiu minha cabeça.

— Corra Ethan! Corra!

Eu não sabia o que estava fazendo, se eu estava correndo ou estava parado. Apenas ouvia os berros e via clarões, homens de preto caindo ao chão, tentei correr o mais longe possível, porém esqueci-me de olhar para onde, apenas me lembro de estar caindo numa escuridão não sabia no que ou em que iria aterrissar. Foi então que apaguei, não sentia, via, ouvia, apenas caia em direção a sabe-se lá o que.

Abri os olhos ainda com a visão embaçada, porém em poucos segundos ela voltou ao normal. Eu estava no fim das escadarias do castelo, fiquei fascinado do como os homens encapuzados não me encontraram ali, afinal este local é um dos mais visíveis de todo o castelo, achei melhor não pensar muito, subi cautelosamente as escadarias me certificando de que não havia mais nenhum daqueles homens no castelo, porém minha cautela acabou ao olhar para meu lado direito e ver o corpo de meu pai no chão, corri para resgatá-lo, porém cheguei tarde demais, ele já estava morto.

Tudo estava fazendo sentido. Por isso os homens encapuzados não tinham me pego, pois achavam que eu estava morto assim como meu pai. O extermínio, tudo como eu havia dito, tudo estava se encaixando, meu pai se fora e agora eu teria de achar o resto de minha família para dar a eles a má notícia.

Levantei-me com os olhos cheios de lágrimas, no momento pelo qual nossa família passava ter o castelo destruído e um de seus líderes mortos não ajudaria muito. Porém quando olhei para frente do corpo de meu pai meu estômago embrulhou, nunca vira aquilo em minha vida, corpos, muitos corpos espalhados pelo chão do salão principal, meus familiares, primos, tios, irmãos, todos eles estirados no chão, todos eles mortos.

Sai correndo do castelo rumo à floresta, não me restará nada, nem uma muda de roupa, nem um grão de arroz, apenas a roupa do corpo, e o ódio de todos que destruíram minha família, porém vingança não estava nos meus planos neste momento, tudo o que eu queria era sobreviver, ou pelo menos tentar, talvez deixar de usar meus poderes, arranjar um emprego decente, a guerra entre os reinos complicaria tudo isso, mas minha esperança não poderia morrer, eu teria de lutar para sobreviver, criar uma família, realizar uma pequena parcela dos sonhos que criei quando estava em meu quarto sozinho vendo minha família entrar em um abismo sem fim.

— Ethan…

Uma voz chamou por meu nome, me virei e deparei-me com meu irmão Andrew, talvez meu irmão favorito, ele sempre me ajudará quando meu pai me dava broncas.

Andrew! — Balbuciei. — Dei-lhe um abraço tão forte que ele chegou a gemer de dor, porém vi que ele também estava feliz em me ver.

— O que aconteceu lá Andrew? Todos estão mortos!