Viagem longa, destino incerto…
05/10/2011 | Categoria: Autores, Comportamento, Conto, Escrita, Reflexão

Esse é o mês em que sofro mais por causa de vocês, moços. Tenho dó. Ainda nem deixaram de ser adolescentes, e já são obrigados a comprar passagens para um destino desconhecido, passagens só de ida, as de volta são difíceis, raras, há uma longa lista de espera. Alguns me contestam: afirmam saber muito bem o lugar para onde estão indo. Assim são os adolescentes: sempre têm os bolsos cheios de certezas. Só muito tarde descobrem que certezas valem menos que um tostão.

Seria muito mais racional e menos doloroso que vocês fossem obrigados agora a escolher a mulher ou o marido. Hoje casamento é destino para o qual só se vende passagem de ida e volta. É muito fácil voltar ao ponto de partida e recomeçar: basta que os sentimentos e as idéias tenham mudado.

Mas a viagem para a qual vocês estão comprando passagens dura cinco anos, pelo menos. E se depois de chegar lá vocês não gostarem? Nada garante…Vocês nunca estiveram lá. E se quiserem voltar? Não é como no casamento. É complicado. Leva pelo menos outros cinco anos para chegar a um outro lugar, com esse bilhete que se chama vestibular e essa ferrovia que se chama universidade. E é duro voltar atrás, começar tudo de novo. Muitos não têm coragem para isso, e passam a vida inteira num lugar que odeiam, sonhando com um outro.

Em Minas, onde nasci, se diz que para se conhecer uma pessoa é preciso comer um saco de sal com ela. Os apaixonados desacreditam. Quem é acometido da febre da paixão desaprende a astúcia do pensamento, fica abobalhado, e passa a repetir as asneiras que os apaixonados têm repetido pelos séculos afora: “Ah! mãe, ele é diferente…” “Eu sei que o meu amor por ela é eterno. Sem ela eu morro…” E assim se casam, sem a paciência de comer um saco de sal. Se tivessem paciência descobririam a verdade de um outro ditado: “Por fora bela viola; por dentro pão bolorento…”

Coisa muito parecida acontece com a profissão: a gente se apaixona pela bela viola, e só tarde demais, no meio do saco de sal, se dá conta do pão bolorento.

O Pato Donald arranjou um emprego de porteiro, num edifício de ricos. Sentiu-se a pessoa mais importante do mundo e estufou o peito por causa do uniforme que lhe deram, cheio de botões brilhantes, fios dourados e dragonas…

Acontece assim também na escolha das profissões: cada uma delas tem seus uniformes multicoloridos, seus botões brilhantes, fios dourados e dragonas. Veja, por exemplo, o fascínio do uniforme do médico. Por razões que Freud explica qualquer mãe e qualquer pai desejam ter um filho médico. Lembram-se da “Sociedade dos Poetas Mortos”? O pai do jovem ator queria, por tudo nesse mundo, que o filho fosse médico. E ele não está sozinho. O médico é uma transformação poética do herói Clint Eastwood: o pistoleiro solitário, apenas com sua coragem e o seu revólver, entra no lugar da morte, para travar batalha com ela. Como São Jorge. O médico, em suas vestes sacerdotais verdes, apenas os olhos se mostrando atrás da máscara, a mão segurando a arma, o bisturi, o sangue escorrendo do corpo do inocente, em luta solitária contra a morte. Poderá haver imagem mais bela de um herói?

Todas as profissões têm seus uniformes, suas belas imagens, sua estética. Por isso nos apaixonamos e compramos o bilhete de ida… Mas a profissão não é isso. Por fora bela viola, por dentro pão bolorento…

Uma amiga me contou, feliz, que uma parente querida havia passado no vestibular de engenharia. “Que engenharia?”, perguntei. “Civil”, ela respondeu. “Por que esta escolha?” — insisti. “É que ela gosta muito de matemática”. Pensei então na bela imagem do engenheiro — régua de cálculo, compasso e prumo nas mãos, em busca do ponto de apoio onde a alavanca levantaria o mundo! “Se ela tanto ama a matemática talvez tivesse feito melhor escolha estudando matemática”.

Engenheiro, hoje, mexe pouco com matemática. Tudo já está definido em programas de computador. O dia a dia da maioria dos engenheiros é tomar conta de peão em canteiro de obra…”

Isso vale para todas as profissões. É preciso perguntar: “Como será o meu dia a dia, enquanto como o saco de sal que não se acaba nunca?”

Mas há outros destinos, outros trens. Não é verdade que o único caminho bom seja o caminho universitário. Acho que poucos jovens sequer consideram tal possibilidade. É que eles se comportam como bando de maritacas: onde vai uma vão todas. Não podem suportar a idéia de ver o “bando” partindo, enquanto ele não embarca, e fica sozinho na plataforma da estação…

Deixo aqui, como possibilidade não pensada, este poema de Walt Whitman, o poeta da “Sociedade dos Poetas Mortos”:

“Em nome de vocês…
Que ao homem comum ensinem
a glória da rotina e das tarefas
de cada dia e de todos os dias;
que exaltem em canções
o quanto a química e o exercício
da vida não são desprezíveis nunca,
e o trabalho braçal de um e de todos
— arar, capinar, cavar,
plantar e enramar a árvore,
as frutinhas, os legumes, as flores:
que em tudo isso possa o homem ver
que está fazendo alguma coisa de verdade,
e também toda mulher
usar a serra e o martelo
ao comprido ou de través,
cultivar vocações para a carpintaria,
a alvenaria, a pintura,
trabalhar de alfaiate, costureira,
ama, hoteleiro, carregador,
inventar coisas, coisas engenhosas,
ajudar a lavar, cozinhar, arrumar,
e não considerar desgraça alguma
dar uma mão a si próprio.”

Desejo a vocês uma boa viagem. Lembrem-se do dito do João: “A coisa não está nem na partida e nem na chegada, mas na travessia…” Se, no meio da viagem, sentirem enjôo ou não gostarem dos cenários, puxem a alavanca de emergência e caiam fora. Se, depois de chegar lá, ouvirem falar de um destino mais alegre, ponham a mochila nas costas, e procurem um outro destino. Carpe Diem!

Autor: Rubem Alves, nasceu dia 15 de setembro de 1933, Minas Gerais, encontrou alegria na poesia e literatura que o manteve vivo nas horas más que passou.Tornou-se autor de inúmeros livros, é colaborador em diversos jornais e revistas com crônicas de grande sucesso, em especial entre os vestibulandos.



Prova de amor
| Categoria: Amor, Conto

-… E eu ainda te amo…

– Por favor, não me faça acreditar nisso novamente.

– Mas é verdade, eu a amo e quero você ao meu lado!

– Eu já estou do seu lado, não está vendo?

– Você entendeu o que eu quis dizer. Eu quero estar ao teu lado para poder tocar seu rosto, olhar para seus olhos durante vários segundos. Quero estar ao seu lado para colocar a mecha do seu cabelo que insiste em ficar fora do lugar, para segurar sua mão, para ouvir sua respiração. Quero estar ao teu lado para sentir e mostrar a você como meu coração acelera quando estou perto de ti, para poder observar cada traço do seu rosto. Quero estar ao teu lado para cuidar de você, para dizer que te amo e poder ouvir você dizendo que também me ama. É assim que quero você ao meu lado, como minha… (O garoto está chorando)

– Sinto muito, mas as coisas não são como antes!

– Eu sei que não, mas pode ter certeza, o que tiver de fazer para você acreditar em mim eu farei, seja onde for que terei de ir eu irei, e se eu tiver de ir até o infinito para trazer de volta sua confiança em mim eu irei. Eu irei a qualquer lugar para te trazer de volta.

– Eu só não quero que você perca seu tempo.

– Nada do que for para você, por você será perda de tempo!


Contos de fadas?
13/09/2011 | Categoria: Amor, Conto, Reflexão

Beijo encantado? Sapatinho perdido? Maçã envenenada? Lobo? Príncipe encantado? Feliz para sempre? O que são todas essas coisas? São apenas contos, historias que nos enganam quando crianças. Crescemos ouvindo essas historias e achamos que elas existem de verdade e quando estamos grandes o suficiente nos decepcionamos, vimos que todas aquelas historias que ouvíamos não passavam de… meras historias!

Onde está o beijo encantado? Onde está o príncipe procurando pela dona do sapatinho de cristal? Onde está o príncipe que sobe a torre? Onde está o final feliz? Todas essas coisas devem estar por aí, perdidas em um mundo que não são deles, em um mundo onde as pessoas não acreditam em suas historias. Devem estar todos perdidos em um único livro, esperando alguém abri-lo e que acredite naqueles contos, acredite que aquilo seja verdade.

Onde está a fada madrinha? Talvez tenha se aposentado e cansado do seu emprego. Talvez não queira mais ajudar as futuras princesas, talvez ela tenha morrido, ou talvez ela ao menos existiu.

O que foi feito da madrasta má ou da bruxa? Bom, talvez essas estejam por aí conquistando o mundo, talvez elas estejam se gabando e rindo das pessoas, talvez elas conseguiram o que tanto quiseram, mostrar que não existem finais felizes ainda maus para sempre, é provável que elas tenham ganho depois de milhares de anos, depois de tanta luta.

Onde foi parar os finais felizes das historias que ouvíamos? Onde foi parar os contos de fadas? Os nossos contos de fadas? Será que eles ainda existem? Será que eles se foram? Será que algum dia eles existiram?


Querido Diário,
07/09/2011 | Categoria: Conto, Reflexão

Nunca tentei ser a melhor pessoa para ninguém, nunca fui perfeita, nunca quis ser e passei longe disso. Nunca quis ser a melhor para todos, nunca quis me aparecer e nunca quis agradar alguém. O problema é que hoje soube que todos me colocavam no topo, todos esperavam o melhor de mim e todos me achavam a melhor, todos colocavam as coisas por minha decisão e todos os olhares voltavam-se para mim quando era preciso resolver algum problema.

No começo era bom ser o centro das atenções, era bom ter todos aos meus pés para fazerem tudo o que quisesse, era bom ter todos a minha volta e principalmente era bom ter todos voltados para mim, era assim que me sentia há dois anos, dona de tudo. Hoje já não quero mais isso, cansei de ter que tomar a iniciativa.

As coisas mudaram esse verão, já não sou como antes, meus pais já não estão aqui comigo como há um mês atrás e é dificil acostumar com isso, meu coração dói todos os dias, tenho de enfrentar cada dia, acordar e fingir que estou bem apenas para não machucar ainda mais meu irmão. Preciso ser forte, mas sinto tanta falta deles.

Mas prometi que hoje seria diferente, acordei disposta a encarar todos, sei que não será fácil, mas preciso mostrar que estou bem, serei acreditável, preciso ser, vou dizer “estou bem, obrigada” e no final do dia tudo estará bem…

Querido diário, na verdade hoje não foi diferente dos outros dias, a única coisa que mudou foi que tive de encarar todos e respondi “Eu estou bem” pelo menos cem vezes no dia e pra falar a verdade nenhuma delas foram verdadeiras. Acabei descobrindo que quando as pessoas perguntam: “Você está bem” elas não querem saber a resposta. As coisas ruins sempre te perseguirão, mesmo que você não queira.

Todos que revi hoje souberam que não sou mais a mesma garota de antes e tão pouco voltarei a ser!…


It’s sad but it’s true – Just Tonight
03/09/2011 | Categoria: Conto

Just TonightLembro de tudo como se fosse ontem. Era quinta e teminava a última semana de provas do semestre. Chegava de sandália, calça e cabelo preso porque vinha sem tempo pra mais nada, nem pra me arrumar; mesmo que quisesse conquistar naquela noite.

Antes disso vinha seu tempo como ser humano, não podia esperar para mais nada. “A escola nos transforma em máquinas honey” lembro de ter dito bêbada para ele por volta das sei lá quantas da madrugada. Estava presa em meu próprio eu, e cheguei perto de estourar e trazer de volta aquela mulher que todos conheciam e que estava presa dentro da senhora perfeição. Vejam que a uma semana eu estava usando ternos. Sim senhores ternos. Você não leu errado.

Quem era eu, aquela que você podia ver de short e top de madrugada saindo da balada enquanto fora faziam dez graus.

Mas eu ainda podia me apresentar aos pais mais exigentes às onze horas. Ainda estava perfeita. Camisa social por baixo de um casaco pesado e sóbrio. Jeans escuro. Sandália de salto grosso e uma maquiagem impecavelmente “de trabalho” nada ousado. Quanto a isso não havia discussão nem com o mais exigente dos consultores de imagem. Coisa a ser resolvida com poucos minutos no banheiro feminino.

Entrei e surpresa: ainda estava limpo. Pensei imediatamente se não deveria ir para outra balada – porque em balada com banheiro limpo as coisas não acontecem, se é que vocês me entendem. – Só que olhei a hora pela primeira vez depois que saí da faculdade e era meia-noite. “Por isso” ri. Costumava arrastar os homens para lá depois das quatro da manhã, e, é claro encontrava-os bem mais destruidos.

Minha imagem de senhora perfeição iria acabar em dois tempos: só precisava de um lápis preto, uma lámina e um batom vermelho.

Essa será uma série inspirada na música 22 de Lily Allen.

Ah, e quem quiser me adicionar no We?It. Sigo os lindos de volta.*-*

Evelyne.


Pedido
25/07/2011 | Categoria: Amor, Conto

Certa noite estava deitada no jardim da minha casa olhando céu e pensando o quanto ele era lindo e imenso. Era uma noite estrelada e cheia de brilho, a Lua estava linda e completava aquele azul negro.

Pensei se podia existir algo mais lindo que aquilo. Foi então que aconteceu… Uma estrela cadente passou, mas passou tão rápido que cheguei a pensar que era coisa da minha cabeça, mas no fundo eu sabia que era real.

Resolvi só por distração fazer um pedido. Pedi às estrelas que me indicassem o caminho certo pra a felicidade. Mas não parei por aí, não resisti e pedi mais. Pedi a elas que me mandassem o seu maior presente e prometi que cuidaria dele com muito amor.

Quando já era tarde resolvi me deitar. Entrei em meu quarto e encontrei um envelope em minha cama, era uma carta! Nela estava escrito:

“Em uma noite vi uma estrela cadente e fiz um pedido. Pedi que ela me mandasse a garota perfeita, mas essa garota precisava ser a única. A estrela me respondeu: ‘ Já estou providenciando a sua garota, você a conhecerá em breve’. Uma semana se passou e quando abri o portão da minha casa vi uma garota linda, que sorriu para mim. Nesse momento sabia que ela era a garota que pedi a estrela, mas não era só isso, ela própria era a estrela que vi uma certa noite.”

Então abri meus olhos! Havia acordado, soube então que era apenas um sonho!


Prólogo
14/06/2011 | Categoria: Conto

Aqui vai o começo, mais especificamente o prólogo de um livro, de minha autoria, que ainda não tem nome. Comecei-o ano passado, ainda está à conclusão e até parei de escrever, faz uns três meses que não o abro mais para concluir, apesar de faltar apenas um capitulo para ser concluindo. O fato é, resolvi publicar o prólogo para ver o que vocês acham e se gostarem posso até publicá-lo todo aqui e concluir o que falta, só preciso de um empurrãozinho.

Aqui vai ele:

Prólogo

Eu não sabia o que fazer, era como se todo o meu corpo tivesse sido esculpido naquele lugar. O que estava acontecendo? Eu não sabia, meus pensamentos sumiram, eu não conseguia entender o que estava havendo. Mas de uma coisa eu tinha certeza, aqueles seriam meus últimos minutos de vida…

Alguns minutos depois, eu podia sentir seus braços em mim, segurando-me com total proteção, para que eu não o deixasse para sempre.

De repente tudo se tornou de uma escuridão terrível, e depois só me lembro de ouvir um grito terrível de dor e desespero. Mesmo na inconsciência ainda podia sentir uma dor muito forte, não posso descrever-la, eu sabia de apenas uma coisa, eu não podia morrer, não agora.

  • E aí o que vocês acharam, ficaram com vontade de quero mais, então comentem e dependendo publico o restante.


Mascarada — Final
27/04/2011 | Categoria: Conto

— Vamos manter somente uma trégua? Por uma noite, não brigaremos um com o outro, já que você terá que ficar aqui por algumas horas. — Ele deu um sorriso irônico enquanto dava meia volta. Eu o segui, infeliz em saber que ele queria uma trégua. No fundo, eu também queria. Mas por outro lado queria mais um motivo pra brincar com ele naquela noite e ver suas expressões de surpresa ao ver que eu já conhecia quase todos os seus pontos fracos. “Assim como ele conhecia os meus”, uma voz me disse no fundo de minha cabeça e eu revirei os olhos para o alto.

— Tudo bem, eu aceito. — Eu disse, já sentindo o efeito de bebida que tomara há algumas horas atrás. Entrei na sala desconhecida e sentei no sofá marrom, olhando para o teto e esperando que alguma coisa emocionante acontecesse. Onde estaria o senso de diversão dele naquela hora?

— Eu sabia que você ia aceitar. — Ele disse, enquanto enchia minha taça com mais vinho. — Aliás, você quase nunca faz nada que eu não queira, afinal.

— Você é muito convencido. — Eu ri, não me importando se ele tivesse me ofendido. Sinceramente, eu já estava cansada de jogar por mais tempo. Ele colocou uma música animada para tocar, e eu quase me preocupei com os vizinhos, até me lembrar que a casa era tão grande e espaçosa, que ninguém nunca nos ouviria. Muito menos a música.

Ela era contagiante e eu logo me levantei, tentando improvisar alguns passos desajeitados. Não pensava mais por mim mesma. Quando vi, já estávamos tentando dançar, gargalhando alto e dando rodopios pela sala, que naquele momento, parecia meio pequena demais.

Saímos dela e eu fui para a cozinha, olhando pela janela a chuva exausta que caia. Nunca havia algo tão impressionante há anos. Me virei para ele, sorrindo. — Parece até que você planejou cuidadosamente todos os detalhes para que eu não fosse embora.

— Não se sinta especial. — Ele disse, ríspido. Mas no fundo eu poderia ouvir a gargalhada na sua voz. — Muitas como você já passaram por aqui. A diferença é que não eram tão ousadas, e normalmente, mais apressadas.

— Ah, é? — Eu virei o rosto, um pouco decepcionada. — Eu quase me esqueci que você era um conquistador barato. As mesmas cantadas, as mesmas situações. Quando vai querer inovar um pouco? Você nunca se apaixona. Qual é a graça de tudo isso?

— Eu já respondi essa pergunta tantas vezes e minhas razões são as mesmas que as suas. — Aconteceu tão rápido que eu nem pude desviar, quando ele logo se aproximou de mim, me beijando pela segunda vez naquele dia, me levando pela casa, os passos rápidos e as emoções ficando cada vez mais intensas.

— Amanhã, vamos fingir que nada disso aconteceu. — Ele me olhou, sério.

— Nada disso aconteceu. — Eu afirmei.

Na manhã seguinte, eu acordei cansada. A chuva havia finalmente parado e a casa era silenciosa. Me lembrei que estávamos sozinhos, afinal, era domingo. E me lembrei de tudo que havia acontecido. Droga. Eu havia quebrado meus principios, havia caído no jogo que ele preparou para que eu caísse. Ele me esqueceria depois daquela amanhã e eu seria feita de idiota. Ou talvez… talvez não. Talvez ele não fizesse isso. E se ele sentisse a mesma coisa?

Mas eu não sabia. Fui até a cozinha e peguei um pedaço de papel, uma caneta e comecei a escrever.

Não sei se o que aconteceu foi real. Foi? Você é o único que pode me responder.

Se for verdade, venha me procurar.

Não estou acostumada com situações como essas, e não se esqueça que sou sempre eu que saio ganhando.

Mas talvez você possa ter uma chance. – Rose.”

Olhei para trás, sem sorrir. Talvez ele não voltasse nunca mais… talvez eu nunca mais o veria de novo, tão rápida foi sua aparição na cidade. Talvez não nos encontrássemos. Mas a decisão era totalmente dele. Calcei meus sapatos altos e abri a porta, segurando o vestido.


Mascarada VII
16/04/2011 | Categoria: Amor, Conto


— Você não é eu. — Eu falei. — Não pode dizer o que eu sinto ou não, por que você não sabe de nada.

— Eu sei mais do que você pensa. — Ele suspirou alto, enquanto fechava a porta e passava o trinco nela, fechando-a com uma chave que estava no seu bolso e guardando-a na camisa.

— Você só pode estar brincando comigo. — Eu coloquei as mãos na cintura, enquanto bufava e tentava sair. Mas não conseguia. A porta estava fechada, os empregados haviam ido dormir.

— Eu nunca brinco com ninguém, tudo o que digo é absolutamente sério. — A pesar dele me deixar irritada, eu não poderia negar que ele tinha um rosto lindo, era cortês, e tinha inúmeras qualidades que eu procurava em qualquer pessoa. Mas como confiar em Henry? Nós estávamos jogando, o tempo todo. Nenhum poderia ceder ao outro, pois não queria se sentir derrotado. Éramos orgulhosos.

— Mentiroso. — Eu disse, enquanto subia as escadas em busca de um local para dormir. Odiava ficar vulnerável, sozinha, em um lugar que não conhecia ninguém. A pesar daquele lugar ser especial, com uma arquitetura nunca vista por ninguém antes, peças e objetos perfeitos.

— Não é educado sair por ai em uma casa que você mal conhece. — Ele me seguiu, segurando o meu braço e me colocando mais perto dele. Pude sentir sua respiração se misturando com a minha, aquele par de olhos me encarando atentamente.

— Não é educado prender uma dama em uma casa que não é a sua. — Eu me soltei, olhando com desdém para ele, caminhando pelo longo corredor. Portas e mais portas enfileiradas mostravam diversos quartos, quadros na parede e uma iluminação que quase me fazia pensar era dia, estava em cada canto da casa.

— Não entendo sua paixão por tantos objetos… quando não tem ninguém para compartilhá-los. — “Ponto para mim”, eu pensei.

— Não preciso que os outros saibam o que eu tenho quando eu mesmo já sei do que preciso. — Ele respondeu, com a voz grossa, como se minha pergunta tivesse ido longe demais. Eu não entendia o por que.

— Você tem uma obsessão por viver sozinho, por não estar cercado de nenhuma pessoa. — Eu o olhei. — Parece que você tem medo de criar amizades. De não ser sozinho.

— Eu já disse porque vivo sozinho. Qual é o motivo de precisar de alguém, quando ela já te decepcionou?

— Lá vamos nós de novo. — Eu bufei, dando meia volta. — Eu não entendo suas atitudes. Você muda demais, o tempo todo. Primeiro, diz que estamos em um jogo. Depois, diz que quer viver sozinho, que não gosta de sentir nada. E, em outro momento, me julga pelo que eu sou. De que lado você está afinal?


Mascarada Parte IV
10/04/2011 | Categoria: Amor, Conto

— Eu não tenho medo do amor. Eu só tenho medo das conseqüências tolas que ele faz com as pessoas, as tornando preocupadas, vulneráveis e mesquinhas o tempo todo, como o mundo só girasse por um motivo. — Eu dei um sorriso irônico enquanto esperava pela sua resposta. — É claro que já me apaixonei, todo mundo já se apaixonou uma vez e isso é um pouco… comum para os dias de hoje. Mas não deixa de ser triste, quando as pessoas descobrem que não é nada daquilo que elas imaginavam.

— Não, você está errada. O amor não é algo triste. As conseqüências podem ser difíceis, mas não são tão importunas. No fim, você descobre que tudo vale a pena, como agora.

Eu tirei os meus olhos dos castanhos escuros dos dele. — O que você quer dizer com isso?

— Eu quero dizer que sempre vale a pena depois de um tempo, pelas memórias que você guarda. Quando você se apaixona por alguém que sempre gostou.

— Você não me conhece. — Eu o cortei, me levantando do sofá. — Não pode dizer que está se apaixonando por mim. Eu não irei cair nesse jogo. Mentiroso.

Ele se levantou também, segurando meus braços e me forçando a olhar para ele.

— Não finja mentiras, Rose. — Ele disse, sussurrando no meu ouvido em um tom baixo. Parecia que só eu estava ouvindo aquilo, que naquela cena, só havia nós dois. Mas eu sabia que no fundo ele estava esperando para que eu caísse aos seus pés e risse de mim. Como já me fizeram antes.

— Eu não estou fingindo, Henry. — Eu me soltei dele, pegando minha bolsa e me aproximando da porta de saída com a pressa maior do que minhas aflições. Eu vi a chuva intensa pela janela. Um lado meu quis ficar, continuar ali, naquele jogo interminável que se seguiria noite a fora. O outro decidiu que eu tinha que ir embora, e logo. Antes que ele vencesse. — Eu só…

Não consegui terminar as palavras quando foi tomada por um beijo dele. Seus lábios colaram nos meus rapidamente sem que eu pudesse me soltar. Era um jogo de rato e gato. Ele era intenso, e eu, não queria fazer nada daquilo. Suas mãos caíram na minha cintura e ele continuava à me beijar. Com amor, com paixão. Até que eu consegui me desprender de suas mãos.

— Você está maluco? — Eu ajeitei a barra do meu vestido e meus cabelos que, naquela altura, já estavam bagunçados demais para uma dama como eu. — Ponha-se no seu lugar. Não são os homens que me beijam. Eu é que beijo eles. Sempre.

— Rose, pare de fingir que você… não sente nada.