Autor: Tati Bernardi
06/06/2013 | Categoria: Autores, Crônicas, Escrita, Textos

Ontem depois que você foi embora confesso que fiquei triste como sempre. Mas, pela primeira vez, triste por você. Que outra mulher te veria além da sua casca? E você não sabe como vale a pena gostar de alguém e acordar na casa dessa pessoa e tomar suco de manga lendo notícias malucas no jornal como o cara que acha que é vampiro. Tudo sem vírgula mesmo e, nem por isso, desequilibrado ou antes da hora.Você não sabe como isso é infinitamente melhor do que acordar com essa ressaca de coisas erradas e vazias.

E eu tenho vontade de segurar seu rosto e ordenar que você seja esperto e jamais me perca e seja feliz. E entenda que temos tudo o que duas pessoas precisam para ser feliz. A gente dá muitas risadas juntos. A gente admira o outro desde o dedinho do pé até onde cada um chegou sozinho. A gente acha que o mundo está maluco e sonha com a praia do Espelho e com sonos jamais despertados antes do meio-dia. A gente tem certeza de que nenhum perfume do mundo é melhor do que a nuca do outro no final do dia. A gente se reconheceu de longa data quando se viu pela primeira vez na vida.

E você me olha com essa carinha banal de ‘me-espera-só-mais-um-pouquinho’. Querendo me congelar enquanto você confere pela centésima vez se não tem mesmo nenhuma mulher melhor do que eu. E sempre volta. Volta porque pode até ter uma coxa mais dura. Pode até ter uma conta bancária mais recheada. Pode até ter alguma descolada que te deixe instigado. Mas não tem nenhuma melhor do que eu. Não tem. Porque, quando você está com medo da vida, é na minha mania de rir de tudo que você encontra forças. E, quando você está rindo de tudo, é na minha neurose que encontra um pouco de chão. E, quando precisa se sentir especial e amado, é pra mim que você liga. E, quando está longe de casa gosta de ouvir minha voz pra se sentir perto de você. E, quando pensa em alguém em algum momento de solidão, seja para chorar ou para ter algum pensamento mais safado, é em mim que você pensa.

Eu sei de tudo. E eu passei os últimos anos escrevendo sobre como você era especial e como eu te amava e isso e aquilo. Mas chega disso. Caiu finalmente a minha ficha do quanto você é, tão e somente, um cara burro. E do quanto você jamais vai encontrar uma mulher que nem eu nesses lugares deprê em que procura. Eu vou para a cama todo dia com 5 livros e uma saudade imensa de você. Ao invés de estar por aí caçando qualquer mala na rua pra te esquecer ou para me esquecer.Também sou convidada para essas festinhas com gente “wanna be” que você adora. Mas eu já sou alguém e não preciso mais querer ser. E eu, finalmente, deixei de ter pena de mim por estar sem você e passei a ter pena de você por estar sem mim. Coitado.

Sobre o autor: Tati Bernardi é uma autora e cronista brasileira,  é colunista de variadas revistas famosas brasileiras. Jovem, com uma escrita acessível, Tati é adorada pelas jovens pelo simples motivo de que seus textos transparecem sentimentos, o que os torna mais fácil de serem identificados. Saiba mais sobre ela no seu site.


Autor: Daniel Bovolento
19/10/2012 | Categoria: Amor, Autores, Conto, Crônicas, Escrita, Textos

Carta a quem já me disse Adeus

Eu não vou me desculpar pelo lado ruim, nem me perguntar por quantas vezes você pensou em ir embora antes de fazê-lo. Não vou me ater aos rabiscos, aos malfeitos, às partes tortas e a nenhuma dessas coisas que passam pela nossa cabeça assim que somos abandonados. Não vou te culpar por alguma crise de choro ou por alguma cirrose futura, nem espalhar aos quatro ventos alguma história que me torne vítima e tiranize você.

Eu vou sentir sua falta. Aliás, eu já sinto. Sinto que eu deixei escapar a minha melhor chance de ser feliz – e isso não é nenhum estado depressivo que se agrava e se repele automaticamente depois de algum tempo. É conformismo. Constatação das brabas. Daquelas verdades inconvenientes que são pregadas na parede do quarto feito papel de parede que a gente não escolheu. E nem adianta tirar porque a pintura vai descascar e esfarelar tudo. Vai sujar o chão. E as marcas de que um dia eu te perdi vão continuar ali – nas ruínas de um quarto velho e torto no segundo andar de uma casa desalmada qualquer.

Adeus serve pra gente reconhecer no rosto de quem vai embora alguma história da qual tenhamos participado. Os traços do outro vão sempre contar um pouco da gente – principalmente quando a gente ajuda a carregar as caixas, com o coração na mão. Você tinha olhos baixos e meio marejados, e eu sabia que era de saudades da brisa da casa de praia. Dos passeios de barco. Do céu estrelado. E me olhou com tanto carinho antes de me beijar a testa – e eu sei que isso significou muito pra você. Que você foi embora com o coração dilacerado. O meu, em 3/4 e o seu em 7/8. Grudou as mãos suadas antes de devolver as alianças. Mas parece que fez uma força extra-humana para tirá-las dos dedos – é que o costume molda a gente, ainda mais se é voluntário. Moldou o seu corpo. Desacostumou-se aos outros. Se rendeu a minha forma. Mas agora você vai embora quebrada, e eu também. Cada caco reunido com o pouco de força que a gente ainda tinha. E nós deixamos as fotos na estante. Pra lembrar que aqueles dois se amaram, e que amor que é amor não se acaba.

Você foi a melhor coisa que me aconteceu em muito tempo – e só Deus sabe como eu amei você. Do meu jeito, mas amei. Com pretensões, com modos de indicativo e imperativo, sem modo algum, com gentileza e cadeiras puxadas pra você cair diretamente nos meus braços. Com trinta e sete minutos de conversa antes do dentista, com pano e água gelada pra baixar a febre, com o coração na mão pra pedir desculpas depois de ter feito você chorar. Amor não se acaba, morena. Amor fica intacto no espaço e no tempo. A gente é que muda e faz dele fantasia. Abstração. O factual continua com a vida, mas o amor ficou guardado entre o dia em que você me disse que não entendia nada disso de amor, e o dia em que me deu Adeus. Suspenso no ar. Como se ele desacreditasse piamente naquele vocabulário extenso que englobou a nossa despedida.

Sobre o autor: Daniel Bovolento é colunista de alguns sites e blogs e também redator publicitário. Está no twitter @danielbovolento e escreve em seu site, sempre atualizado Entre todas as coisas.


Mensagem de Voz.
13/09/2012 | Categoria: Amor, Conto, Crônicas

“Oi, como você está? É a terceira vez que tento te ligar, mas só fica na caixa postal. Desculpe-me incomodar a esta hora, mas preciso lhe falar algumas coisas. Serei breve, eu prometo.”


Talvez você não tenha mais o meu número na agenda do seu celular, nem mesmo as mensagens que lhe mandava naquele tempo (o nosso tempo, se é que você é capaz de lembrar). E as nossas fotografias? Tudo bem, era apenas uma ou duas, pouquíssimas, já que você nunca se sentia muito à vontade em frente às câmeras. Lembra daquela vez da nossa formatura no último ano do Ensino Fundamental? Você ficou tão revoltado com os flashs e gritou em meio ao discurso da Elisa. É verdade, um discurso muito chato e quase todos os formandos dormiam. Prometi ser rápida, mas estou enrolando, né? Desculpa, não gosto nem de imaginar o que você vai pensar de mim quando ouvir esta mensagem – se é que vai.
Eu só queria te lembrar de tudo que nós vivemos um dia. Já faz um ano, exatamente um ano hoje (o relógio que fica no meu quarto marca meia-noite) que o laço existente entre nós “acabou-se”. Devo te dizer que acreditei que seria fácil. Que eu iria superar logo, afinal, nunca alguém despertou tanto sentimento em mim quanto você… O primeiro beijo, o primeiro namorado, o primeiro amor. E é como dizem: O primeiro a gente nunca esquece! E isso não é tão bom quando se trata de sentimentos, bem… Eu sempre te achei o garoto mais bonito da escola. E o mais idiota, também. Todas as garotas eram apaixonadas por você e eu ficava com ciúmes, mas negava até o fim. Éramos amigos até a oitava série, quando nos beijamos pela primeira vez no baile do final do ano. Não poderia ter sido mais perfeito, mas, ao contrário de mim, você não aparentava querer algo mais sério. Nosso primeiro encontro foi em um parque de diversão que havia acabado de chegar à cidade. Admito que preferia ir ao cinema ou ver um filme em tua casa, com aquele frio que sempre faz nos invernos gaúchos e estava em alta, é claro: Final de julho, início de agosto. Desde então, ficamos mais próximos, você sabe da história, creio eu. Não quero te contar tudo porque irei chorar. Sei disso. E sei também que você conhece minha voz de choro como ninguém. Estou vestindo aquela sua camisa azul listrada, que você me deu quando derramou café na minha camiseta dos Ramones. Ainda sinto seu perfume e as lembranças daquela noite em que você apareceu em minha casa com flores, uma caixa de bombons em formas de coração (que você nunca me disse onde comprou) e alguns DVDs de filmes românticos, muitos deles eram adaptações das obras do Nicholas Sparks. Algo completamente surpreendente, afinal, era você. E, para me confundir ainda mais, estava chovendo. Aquelas chuvas que os raios chegam a clarear a casa inteira como se tivesse uma lâmpada prestes a queimar: Pisca uma, duas, três vezes e apaga de vez. Então você me pediu em namoro. Foi engraçado porque, mesmo querendo, você não sabia fazer um bom jogo de palavras, mas eu lembro de como terminamos aquela noite: Apertados no sofá, com um cobertor que mal cobria nós dois. Não vimos os filmes, não comemos os bombons… Só dormimos com o barulho da chuva. Mas tudo acabou como era previsto. Nada é para sempre, principalmente o amor de dois jovens que não têm noção do que é o futuro e quais são as surpresas que existem lá, neste tão temido tempo… E eu tentei esquecer. Mas não tinha como, entende? Não sei como ou porquê tivemos um fim. Quem foi que decidiu? Por que foi tão de repente não dando tempo nem de reparar nossos erros? Por que tudo se quebrou tão rápido e cedo? Procurei em outros homens o que encontrei em você. Mas essa é a verdade: Só você tem. E eu mal sei o que é que me prende tanto a ti. Passei maquiagem na noite de hoje, coloquei um vestido para festa e prometi não me abalar. “Promessas foram feitas para serem quebradas”, aquela frase que você mesmo escreveu na parede do meu quarto, com a tua caligrafia torta. Tenho até hoje os travesseiros coloridos. Procurei também aquela coragem que você me passava, a proteção, o carinho. Lembra-se daquela vez em que decidimos pintar nossos cabelos o mais colorido possível para a viagem de formatura? Ou quando você perdeu a aposta com seus amigos e teve que ir de pijama para a escola, onde nós fomos juntos? Eu preciso encontrar isso. Em outro alguém, mas é algo totalmente impossível. Não há outra pessoa com carisma, sorriso, olhos, inteligência, o jeito. Eu precisava só te dizer isso, mesmo que você mal se lembre de mim. Só não esqueça que sou capaz de enfrentar o mundo com apenas uma mão, se você estiver ao meu lado, segurando a minha outra mão e dizendo que tudo vai ficar bem. Eu não te amo pelo que você é, simplesmente te amo por tudo que você me fez ser quando estivemos juntos. E é por isso que eu te agradeço.
Tu, tu, tu, tu.

Escrito ao som da música Love Story, da Taylor Swift. Aconselhável ler escutando-a.

P.S: Estou pensando em continuar a escrever essa crônica/conto, deixe um comentário dizendo o que achou!