Autores (as): Isabela Freitas
02/05/2014 | Categoria: Autores, Escrita, Textos

Resolva seu amor mal resolvido

É de conhecimento geral da nação que manter contato depois que o relacionamento acaba não é sadio. Fala sério. Como manter amizade com uma pessoa que você já trocou saliva? Ops, beijos? “E aí ex namorado, quem você vai pegar hoje?” “Fala linda, hoje vou finalizar aquela sua colega de sala.” “Beleza, boa sorte amigo!”. Exageros à parte, vocês entenderam o que quis dizer.

Experiência própria, não dá certo. Lembro que quando era mais nova tinha um amigo de que gostava muito, gostava tanto que achei que ”fosse dar certo”. Digo, deu certo, só que não para sempre. Daí terminamos e tentamos reatar a amizade. Resultado? Eu morrendo de ciúme da nova namorada dele, a namorada morrendo de ciúme de mim e ele confuso com ciúme das duas. Eu não via motivos para me afastar dele e foi necessário que a vida me mostrasse na marra, que essa amizade não seria possível.

Claro que também não estou dizendo pra você passar do lado do seu ex companheiro e cuspir na cara dele, convenhamos. Respeito e consideração eu acho que nós devemos ter por todas pessoas que já passaram por nossas vidas, o que infelizmente, não é tão fácil na prática. Vai dizer que você nunca virou a cara pra nenhum ex namorado? Ou falou mal dele quando teve oportunidade? É claro que já. Somos seres humanos. Nos magoamos fácil e dificilmente superamos em tão pouco espaço de tempo. Mas chega um dia que a maturidade fala “Alô, hora de crescer”. E a gente cresce, a gente esquece. O tempo passa e ele vira apenas um pontinho na linha cronológica da nossa vida.

O que é difícil mesmo é o tal do amor mal resolvido. Todo mundo já teve – ou vai ter – um amor mal resolvido. Daqueles que por mais que se passem anos, toda vez que você o encontra em algum lugar, o seu coração dispara. Não se sabe devido a que, amor ou ódio, mas o coração reage sempre que chega perto. Isso é culpa da mágoa, sabia? Pois é. Vamos imaginar a mágoa como uma camada de poeira em uma estante. A cada ano que se passa, mais poeira é acumulada. Um ano, dois anos, três anos. E a poeira continua a acumular. Depois que se passam muitos anos, essa crosta de poeira passa a pertencer à tal estante, tornando impossível que ela seja limpa um dia. Não dá mais pra separar poeira e estante, elas são uma só. É isso que acontece quando guardamos mágoa de alguém, quando não damos um fim à história ou melhor dizendo, quando não resolvemos o que se era pra resolver. Uma coisa que aprendi é que por mais que um livro tenha muitos pontos finais, o que conta mesmo, é o ponto final da última página. Você não pode simplesmente virar as costas para os problemas e fugir deles tão facilmente, quem dera. Tudo que você deixa para depois, te consome por dentro. Aquele trabalho que você deixa pra fazer de última hora, o relatório que o chefe pediu, aquela conversa séria com a sua mãe, aquela mágoa do ex namorado… Não tem jeito. Você só vai conseguir seguir em frente quando resolver o passado.

Então não faça isso com seu coração. Abra a gaveta, pegue todas as histórias inacabadas e dê um fim a elas. Não necessariamente feliz, mas fim.

Sobre a autora: Isabela Freitas, 23 anos é blogueira e escritora, terá seu primeiro livro Não se apega, não lançado esse ano pela edita Intrínseca. Conheça mais do seu trabalho aqui


Somos muito mais do que aparências
25/04/2014 | Categoria: Comportamento, Escrita, Textos

Dias desses li no twitter algo parecido com essa frase: “Querida, essa abertura nos seus dentes mais parecem uma entrada para Nárnia”. Li aquele tweet umas três vezes até me certificar que não havia lido errado e vou confessar: mexeu comigo. Porque, primeiro: o que uma falha estética no dente de uma pessoa vai mudar no caráter dela? Segundo: tenho dentes abertos. E não, não me importo com isso. Pelo menos não mais. Um dia me importei, mas depois de um tempo percebi que não vale à pena se preocupar com pequenos detalhes que não acrescentam nem diminuem o que eu sou. Mas quer saber por que aquela frase me deixou chateada? Porque, mais uma vez, tive a prova de que as pessoas mais se importam com a aparência do que qualquer outra coisa.

Deixa eu falar uma coisa, para quem não sabe: muitas pessoas não tem condições de usar aparelho. Felizmente, não é o meu caso. Poderia ter ido ao dentista antes, colocado esse milagroso aparelho e ter deixado meus dentes certinhos, mas eu sou lerda com essas coisas e acima de tudo ocupei minha vida preocupando com coisas que mereciam mais atenção do que apenas uma abertura nos meus dentes. Nem sempre isso foi tão simples para mim. Teve época que eu nem queria conversar, ou mesmo sorrir nas fotos por vergonha deles, mas aprendi que sou muito mais que esse pequeno errinho que nasceu comigo. Mas e quanto às pessoas que não tem condições do qual me referi no inicio desse parágrafo, será que elas também não se importam? Muitas delas importam sim e, por causa de comentários assim, algumas param de sair para não passar vergonha.

A falha no dente é apenas um exemplo que usei. Existem comentários piores que esse que acabam inferiorizando pessoas e ocasionando em diversos problemas. A gente tem mania de criar um padrão de beleza e se algo fugir daquilo ali imposto é considerado feio e conseqüentemente deve ser excluído da sociedade.

Se eu for magra estarei dentro do padrão de beleza, se eu não for serei excluída, se eu tiver um celular do momento, uma roupa da estação, ou qualquer outra coisa que é imposto pelos doutores da mídia, com certeza serei aceita por todos. Mas caso o contrário, devo ser excluída de todo e qualquer grupo existente ao meu redor. Serio que isso ainda existe? Não da para acreditar e é uma pena ver que em vez de diminuir pessoas que pensam assim, faz é aumentar.

As pessoas são muito mais do que aparências.

Uma falha no dente não determina se alguém é simpático ou não, não determina quem ela é, mas as pessoas importam muito mais com o superficial, do que com o que está lá dentro da gente, nossa essência. É fácil julgar alguém pelo que ela aparenta, mas é difícil conhecer tudo que ela passou e aprender a gostar dela pelo que ela é.

Enquanto tivermos pessoas como essa do citado tweet, continuaremos a ter comentários que inferiorizam outros. Mas se me permite o conselho, aprende que somos muito mais do que aparentamos ser e, não importa o que as pessoas digam, não vai mudar o que somos, por isso não devemos nos importar com certas coisas.


Passado não volta, mas também não morre
16/04/2014 | Categoria: Escrita, Textos

A gente tem mania de perder um bocado de noites de sono só pensando no que poderia ter acontecido se tivesse feito algo diferente. Mania de ser perguntar “e se…?”. De inventar e reinventar acontecimentos em nossa mente. Trazer pessoas de volta. Isso tudo porque achamos que vai amenizar toda forma de arrependimento ou dor. O problema é que em certos casos vai, mas até quando?

É comum recordar certos momentos, o erro está em recordá-los com freqüência e esquecer-se de viver o agora e poder colecionar mais memórias que possam ser lembradas em um determinado tempo. Mas a verdade é que a vida da gente é curta demais para focarmos só no passado e deixar o nosso presente.

Passado não volta, mas também não morre.

Na maioria das vezes eles são colocados no fundo de uma gaveta e quando menos esperamos, ressurgem. Às vezes causando um caos ou só para avisar alguma coisa. Mas é passageiro. Ele não fica e nem deveria ficar, porque – como diz o ditado – se passado fosse bom, seria presente. Pode parecer clichê essa frase, mas é a verdade.

Já foi não volta mais e, caso volte, não é da mesma maneira que antes. Sempre vem com novos ensinamentos e conseqüências.

O que estou tentando dizer é que tudo bem desenterrar vez ou outra o passado, desde que seja só para certificar o ensinamento que ele nos deixou. Somos feitos de pedaços, construídos através das experiências que adquirimos ao longo da vida, nossa essência é nosso passado, por isso ele não morre, mas também não volta.

Eu acho.


Sobre mudanças e tempo.
23/02/2014 | Categoria: Comportamento, Escrita, Reflexão

“Viver é mudar. Você não é o mesmo de ontem, e nem o mesmo de amanhã.” Gabito Nunes

Mudar. A maioria das pessoas tem medo das tais mudanças, mas será que deveríamos temê-las? O que significa realmente mudar? Afinal, por que mudar? Acredito que vivemos uma mudança e estamos com os olhos fechados para ela. O mundo muda a cada novo instante. Algo novo surge e já é “velho”. E nós não podemos ignorar e recusar essas mudanças, exceto se alguém quer parar no tempo, mas quem vai querer ficar para trás?

Mudar é algo natural. Mudamos o tempo todo, junto com o mundo. Quando ainda somos crianças, não entendemos muito bem o significado das coisas, mas gostamos de desenhos animados e programas infantis. Adolescentes, já achamos “bobagem” tudo que fazíamos antes; mudamos. Crescemos. E isso é preciso para nos tornamos pessoas melhores. E fazermos o mundo melhor.

As mudanças podem ser muito assustadoras, sim, principalmente quando acontecem drasticamente; algumas vezes, a vida nos dá um “soco” e te obriga a mudar. Mas sem perder a nossa essência. Sem deixar para trás nossos planos, sonhos e objetivos. Sem esquecer nossos amigos de infância, as pessoas que nos cercam e nos desejam bem.

Decidi escrever sobre isso porque estou numa fase de mudanças. E eu também tenho – muito – medo delas. O motivo, nem sei! Mas assusta, sim. Dá um baita medo. Medo de você não se reconhecer mais. De você não saber mais quem é e o que quer. Mas isso faz parte da nossa vida. Não se negue ao prazer de mudar! Comece devagar, com o estilo musical, os filmes que assiste e os gêneros literários. Mude o corte de cabelo, a cor; modifique-se. Há sempre algo novo e interessante no mundo. Arrisque-se. Conheça novas pessoas, novas palavras, novos mundos, novos sonhos, novas línguas, novos lugares. Viva novas aventuras. Ainda há tempo. Há muito, muito tempo para mudarmos uma, duas, quantas vezes forem preciso. Mas o tempo passa. Como cantam os – queridos – Los Hermanos: “tempo voa e quando vê, já foi”. É preciso mudar, sim. Eu aprendi isso. Ter mais amor. Mais calma. Pensar antes de falar. Saber ouvir. Mais paciência. Mais respeito. Mais confiança. Tirar algumas coisas da gaveta. Encher a mente e o coração com coisas boas. Contar estrelas, dançar ballet, fazer teatro, viajar para a Nova Zelândia. Usar batom vermelho, laranja, amarelo. Pintar o cabelo de rosa e as unhas de azul turquesa. Fazer o que tiver vontade. Ser quem você é, quem você acha que é ou quem você quer ser. Você.


Minha abstinência de você
01/02/2014 | Categoria: Crônicas, Escrita, Textos

Você me transborda de tanta presença em mim. Provoca um rompante e quebra a ponte justamente na intercepção de meus medos e minha coragem insana de amar. Os resquícios não me deixam mentir que você passa por aqui e não permanece, ou permanece e cansa logo e vai embora deixando um turbilhão de neuras que se propagam por todo o meu corpo provocando um alagamento em meus olhos e me afogo em meio às salivas que não descem mais à garganta.

Você me provoca acidez na boca causada pela amargura de suas palavras mal escolhidas para dizer que não me quer mais. Me deixa estacionada em frente a porta da sala após sair sem nenhuma preocupação de ter ferido meu ego emocional. É que a sua ignorância não tem limites comigo e é sua forma de dizer que tem algo ai dentro de você que se importa, mesmo que seja em manter o controle para não perder a sua indestrutível arma da razão.

Mas ambos sabemos que você perde o contexto das coisas ao entrar pela porta da frente novamente e declarar que não sumirá mais e que estava de cabeça quente e que você é aquele amor-vem-e-vai que toda mulher um dia vai ter e que são esses amores os verdadeiros. Você me convence a te deixar entrar e ficar mais um dia comigo, ai é o caos total novamente.

Você me sorri e me desenha. Seus olhos conversam comigo e me dizem que você é aquele cara-com-cara-de-idiota-mesquinho-possessivo e eu sorrio da forma como me pede um abraço de reconciliação. Você não tem jeito, eu não tenho jeito e nós não temos jeitos. Somos aquele emaranhado de sensações que causam choques, desentendimentos e reconciliações. Nos chocamos com nossa teimosia. Cada qual contando uma versão, querendo descrever de forma diferente o mesmo lado da moeda.

É que você não entende o que eu quero dizer quando te digo que não importo mais e você foge de novo para o seu mundo de cafajestes que tiveram uma desilusão amorosa e bebe um porre e esquece na mesma hora que te mandei embora e me liga falando as palavras carregadas e embargadas. Custo entender o que você diz: “eu bebi para substituir a minha abstinência de você”. Vinte minutos depois entrego o dinheiro para o taxista enquanto você já deitou de qualquer jeito na minha cama e caiu no sono.

Cansada dos nossos jogos te observo dormir e decido: não vou mais te expulsar da minha casa. É porque percebo que você me pertence e eu a você. Que em cada célula do meu corpo você está presente e a cada gota do seu sangue eu habito. E não há briga que nos tira a presença do “nós” em nossas vidas.


A mudança não chega de um dia para o outro
14/01/2014 | Categoria: Comportamento, Escrita, Textos

Virada do ano e inicio de janeiro é sempre a mesma coisa: a gente jura que vai mudar. Que não fará mais as mesmas coisas. Que vai deixar de vez o passado. A gente jura que não será mais o mesmo. O pior é que caímos sempre nessa mentira. E já virou rotina declarar mudança para o primeiro dia do ano. Mas na semana seguinte estamos lá, do mesmo jeito. Fazendo as mesmas coisas. E é cômico porque esperamos pela mudança como se ela realmente fosse chegar de paraquedas.

Sei que já estamos no meio de janeiro e que o inicio do mês ficou lá para trás.  A verdade é que estou ensaiando escrever este texto desde o dia 3 desse mês e só hoje sentei em frente ao computador para digitá-lo. Mas porque estou contando isso? Porque planejei algumas metas para esse ano e uma delas era sobre isso: não deixe para fazer amanhã o que foi pensado e planejado hoje! E percebi que estava fazendo exatamente isso, então tirei uma conclusão.

Não adianta você preparar uma lista ou programar metas para o novo ano que está por vir, você provavelmente não irá cumprir e isso só te trará aborrecimento pessoal. Isso é porque a mudança não chega de um dia para o outro, assim num passe de mágica. Ela vem gradativamente e ao seu tempo. Não compensa você planejar certas coisas se você não está apta a buscar pela mudança. Porque pode ter certeza ela não vem de passagem num trem para visita-la, você precisa correr atrás dela, se esforçar para chegar aonde quer chegar.

Então querida leitora, tenho uma coisa a te dizer: nem todos os seus sonhos serão realizados e suas metas programadas certamente não serão atingidas só porque você escreveu em um simples papel e ficou esperando que ela acontecesse.

Quer um conselho? Rasgue sua lista ou esqueça suas metas. Não se prenda a ela. Claro, você deve sim traçar objetivos, mas deve também correr atrás deles e ter sempre em mente que o que tem que acontecer um dia vai acontecer independente do que for. As suas chances pode surgir e escapar todos os dias, mas cabe você a ficar atenta aos detalhes para não jogar as oportunidades fora. E quando você estiver lá na frente irá compreender que suas experiências, sendo boas ou ruins são uma parte de você e que nem todas as coisas são como planejamos.


Pretérito Perfeito
07/11/2013 | Categoria: Crônicas, Escrita, Textos

Tentar voltar no tempo para mudar algo é a mesma coisa que tentar calçar um sapato que não te serve mais: é esforço em vão. Isso acontece porque o passado não permite que ninguém o mude, ele permanece intacto mesmo diante de suas forças para muda-lo. Não adianta bater o pé porque o que ficou para trás não muda mais. O que resta a nós são as lembranças, que por sinal devem ser guardadas em um local seguro com tanto carinho quanto possível.

O tempo não é como uma música onde você pode voltar e começar a ouvir desde o inicio. Ele é permanente. O que aconteceu agora não pode ser mudado depois. E também não vejo razão para tentar mudar algo. O que foi feito era o que parecia certo e mesmo que no final tenhamos errado, sempre aprendemos alguma coisa. Se todas as vezes que quiséssemos mudar o passado e pudéssemos o fazer, não sairíamos do lugar, não evoluiríamos e nunca conheceríamos o futuro.

Como diz nossa querida Clarisse Lispector: se passado fosse bom, seria presente. Aprender a perdoar o passado é a melhor forma de deixa-lo para trás. Estar de bem com ele é garantia de felicidade para o presente e futuro. Esse tempo é responsável pelo maior parte do que somos hoje e são por causa de escolhas feitas antes que encontramos onde estamos. Porque a decisão que tomamos no passado nos levou para esses caminhos que trilhamos no presente.

Talvez a razão de sermos tão apegados ao passado é que não damos valor às coisas que possuímos e só vamos saber o quanto elas nos são importantes quando as perdemos, quando as deixamos no pretérito perfeito e não podemos fazer nada para as possuirmos novamente. Esse é o nosso erro: não dar valor ao que possuímos enquanto os temos e tentar recuperá-lo quando já nos é inalcançável, o que nos leva a querer a voltar ao passado e tentar muda-lo.

Mas tratando-se de pretérito perfeito precisamos nos conformar que ele é imutável, estático e voltar a ele não é a melhor solução, pois ele não permite devolução. O que resta é aceitar o produto sendo estragado ou não e construir em cima deste o seu futuro.


Autor (a): A primeira vez
15/10/2013 | Categoria: Autores, Crônicas, Escrita, Textos

Você sempre me disse que sua maior mágoa era eu nunca ter escrito um texto sobre você. Nem que fosse te xingando, te expondo. Qualquer coisa.

Você sempre foi o único homem que me amou. E eu nunca te escrevi nem uma frase num papelzinho amassado.

Você sempre foi o único amigo que entendeu essa minha vontade de abraçar o mundo quando chega a madrugada. E o único que sempre entendeu também, depois, eu dormir meio chorando porque é impossível abraçar sequer alguém, o que dirá o mundo.

Outro dia eu encontrei um diário meu, de 99, e lá estava escrito “hoje eu larguei meu namorado sentado e dancei com ele no baile de formatura”. Ele, no caso, é você. Dei risada e lembrei que em todos esses anos, mesmo eu nunca tendo escrito nenhum texto para você, eu por diversas vezes larguei vários namorados meus, sentados, e dancei com você. Porque você é meu melhor companheiro de dança, mesmo sendo tímido e desajeitado.

Depois encontrei uma foto em que você está com um daqueles óculos escuros espelhados de maconheiro. E eu de calça colorida daquelas “bailarina”. E nessa época você não gostava de mim porque eu era a bobinha da classe. Mas eu gostava de você porque você tinha pintas e eu achava isso super sexy. E eu me achei ridícula na foto mas senti uma coisa linda por dentro do peito.

Aí lembrei que alguns anos depois, quando eu já não era mais a bobinha da classe e sim uma estagiária metida a esperta que só namorava figurões (uns babacas na verdade), você viu algum charme nisso e me roubou um beijo. Fingindo que ia desmaiar. Foi ridículo. Mas foi menos ridículo do que aquela vez, ainda na faculdade, que eu invadi seu carro e te agarrei a força. Você saiu cantando pneu e ficou quase dois anos sem falar comigo.

Eu não sei porque exatamente você não mereceu um texto meu, quando me deu meu primeiro cd do Vinícius de Morais. Ou quando me deu aquele com historinhas de crianças para eu dormir feliz. Ou mesmo quando, já de saco cheio de eu ficar com você e com mais metade da cidade, você me deu aquele cartão postal da Amazônia com um tigre enrabando uma onça.

Também não sei porque eu não escrevi um texto quando você apareceu naquela festa brega, me viu dançando no canto da mesa, e me disse a frase mais linda que eu já ouvi na minha vida “eu sei que você não gosta de mim, mas deixa eu te olhar mesmo assim”.

Talvez eu devesse ter escrito um texto para você, quando eu te pedi a única coisa que não se pede a alguém que ama a gente “me faz companhia enquanto meu namorado está viajando?”. E você fez. E você me olhava de canto de olho, se perguntando porque raios fazia isso com você mesmo. Talvez porque mesmo sabendo que eu não amava você, você continuava querendo apenas me olhar. E eu me nutria disso. Me aproveitava. Sugava seu amor para sobreviver um pouco em meio a falta de amor que eu recebia de todas as outras pessoas que diziam estar comigo.

Depois você começou a namorar uma menina e deixou, finalmente, de gostar de mim. E eu podia ter escrito um texto para você. Claro que eu senti ciúmes e senti uma falta absurda de você. Mas ainda assim, eu deixei passar em branco. Nenhuma linha sequer sobre isso.

Depois eu também podia ter escrito sobre aquele dia que você me xingou até desopilar todos os cantos do seu fígado. Eu fiquei numa tristeza sem fim. Depois pensei que a gente só odeia quem a gente ama. E fiquei feliz. Pode me xingar quanto você quiser desde que isso signifique que você ainda gosta um pouquinho de mim.

Minhas piadas, meu jeito de falar, até meu jeito de dançar ou de andar. Tudo é você. Minha personalidade é você. Quando eu berro Strokes no carro ou quando eu faço uma amiga feliz com alguma ironia barata. Tudo é você. Quando eu coloco um brinco pequeno ao invés de um grande. Ou quando eu fico em casa feliz com as minhas coisinhas. Tudo é você. Eu sou mais você do que fui qualquer homem que passou pela minha vida. E eu sempre amei infinitamente mais a sua companhia do que qualquer companhia do mundo, mesmo eu nunca tendo demonstrado isso. E, ainda assim, nunca, nunquinha, eu escrevi sequer uma palavra sobre você.

Até hoje. Até essa manhã. Em que você, pela primeira vez, foi embora sem sentir nenhuma pena nisso. Foi a primeira vez, em todos esse anos, que você simplesmente foi embora. Como se eu fosse só mais uma coisa da sua vida cheia de coisas que não são ela. E que você usa para não sentir dor ou saudade. Foi a primeira vez que você deixou eu te olhar, mesmo você não gostando de mim.

E foi por isso, porque você deixou de ser o menino que me amava e passou a ser só mais um que me usa, que você, assim como todos os outros, mereceu um texto meu.

Sobre o autor: Tati Bernardi é uma autora e cronista brasileira,  é colunista de variadas revistas famosas brasileiras. Jovem, com uma escrita acessível, Tati é adorada pelas jovens pelo simples motivo de que seus textos transparecem sentimentos, o que os torna mais fácil de serem identificados. Saiba mais sobre ela no seu site.


Síndrome do Peter Pan
12/10/2013 | Categoria: Comportamento, Conto, Escrita, Saudades, Textos

Um dia a gente já brincou na lama, teve medo de monstro, acreditou no Papai Noel, no Coelhinho da Páscoa, na Fada do Dente. Fez perguntas indiscretas para os adultos, bagunçou o quarto, se divertiu assistindo desenho animado. Bebeu suco de maracujá, comeu biscoito recheado, bolo de cenoura, sorvete e chocolate até dizer chega. Fez castelo de areia na praia, acampou com os amigos, dormiu na casa dos avós. Fez festa de  aniversário de boneca, princesa, fada.

Levou bronca do pai, da mãe, do irmão mais velho, da professora. Ficou de castigo por semanas e semanas, e quase sempre foi perdoado antes do prazo. Gastou todo o dinheiro da mesada com chiclete, e levou mais uma bronca por isso. Caiu de bicicleta, patins, skate. Ralou o joelho, quebrou o braço, tem quatro pontos debaixo do queixo. Brincou de pique-esconde, pique-pega, pique-tudo-que-se-possa-imaginar. Imaginou um mundo onde todas as pessoas eram felizes e tinham o poder de voar. Vestiu uma capa feita de lençol e tentou voar. Inventou um amigo imaginário, mudou o nome dele.

Quis mudar nosso próprio nome. Jogou video-game até cansar. Fez aula de karatê, natação, balé. Calçou o sapato da mãe, andou pela casa toda borrada de batom, querendo ser adulto por um dia.Mal sabíamos o que era, na verdade, crescer. Ter responsabilidades, horários, prazos. Pensar na vida, resolver problemas. Problemas muito mais complicados do que a matemática, que parecia ser o pior dilema do mundo, na quinta série. Me faz lembrar da história de Peter Pan, o menino que vivia na Terra do Nunca, e nunca crescia. Quem fosse com ele, seria criança para sempre, imagine só? Uma vida inteira só de chiclete, brinquedos, sonhos. Uma vida em que o único problema fosse o da matemática. Seria pedir demais, não é? Sim. Só crescendo vivemos coisas diferentes, conhecemos pessoas, erramos – muito, aprendemos – muito, vivemos. É o ciclo da vida, não se pode querer mudá-lo. É o que precisamos. Mesmo assim, posso apostar que qualquer um de nós, desde os que acabaram de sair da infância até os que quase não se lembram dela, gostaríamos de pedir, pelo menos por um dia: Peter Pan, ainda dá tempo de ir com você?

Entrando no clipe do dia das crianças trouxe um texto da Maju Sonali que escreve no blog Depois dos Quinze


Não houve adeus
25/09/2013 | Categoria: Amor, Crônicas, Escrita, Saudades, Textos

Você soltou minha mão e continuou seu caminho sem mim. E eu fiquei apenas observando nossas vidas se afastarem a cada novo passo que dava sem olhar ao menos para trás. Não houve despedidas. Sua partida surpreendeu-me tanto que não pude pensar em um modo de te fazer permanecer, e mesmo se houvesse uma maneira, não seria o suficiente para te fazer ficar, porque você, meu bem, já havia decidido ir. O seu silencio por tanto tempo já era a resposta para a pergunta que me incomodava por dentro. Eu só não sabia que silencio também é resposta, mas agora eu sei e percebi que há muito você me dava pistas de que iria embora deixando comigo a sua falta e alguns poucos pertences. Eu só não previa que seria tão logo. E se fosse possível pedir, pediria que voltasse, que ficasse mais um pouco e me desse a honra de apreciar a sua insubstituível companhia e pudesse preparar-me para a sua ida, ou talvez ficasse mais difícil ainda o adeus.

Não houve nem mesmo um olhar de “sinto muito!”. Não houve troca de olhares porque você não foi capaz de sustentar a angustia que meus olhos traziam. E enquanto me permanecia – ou tentava – determinado a olhar-te com meus olhos duros e cheio de dores, porem em busca de respostas, sua cabeça cabisbaixa dava a certeza que a sua covardia e orgulho eram maiores que qualquer sentimento de afeto que um dia sentiu por mim. A sua falta de consideração por uma despedida justa me trouxe uma sensação esmagadora que me afeta nas noites de solidão causada pela sua não presença. E fico horas deitado na cama acompanhado com o silencio que um dia foi preenchido por sua respiração. Duas, três, quatro horas da manhã e nada do sono chegar me tirando o vazio que ficou por você ter ido. É comum acostumarmos com rotinas, porém não se acostuma com noites silenciosas, pelo contrario se torna cada vez mais difícil.

É que os dias também ficam monótonos quando não esta aqui e fico preso nas lembranças que você deixou, na esperança de que um dia elas não doam mais e que só me arranquem sorrisos ao invés de lagrimas. Já aprendi que devo evita-las porque a dor latejante que sentimos ao lembrar de algo que partiu fica insuportável quando estamos sozinhos, mas fica difícil não pensar em você quando esta tudo quieto ou quando meu olhar vago se prende a algo. E eu te encontro e reencontro nos meus sonhos, no sofá da sala e em cada lugar que frequento, porque você foi, mas deixou um pedacinho seu em cada canto.

E eu sinto a sua falta. Falta porque ela é a única que me trás você de volta. E você não disse um “adeus, meu bem” o que me deixou esperanças de que sua partida fosse breve e que logo voltasse. Você foi e eu fiquei. Fiquei na angustia da espera e esqueci de continuar meu caminho. Ate mesmo quando sumiu de vistas permaneci parado no lugar na expectativa de que meus olhos voltassem a te ver retornando para meus braços que continuam abertos para você. Enfrentei a chuva do inverno e nada de você retornar. Peguei gripe, fiquei todo ensopado esperando por você, no final tudo em vão, porque você não voltou.

Mais uma noite chegou. Apaguei a luz, mas dessa vez também apaguei você.