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    Reflexão, Textos

    Um adeus para 2017

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    Séries

    Série: Dark

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    Filmes

    Filme: Extraordinário

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    Playlist

    Playlist: Dezembro

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  • December 16, 2017
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    Dark (2017) é a primeira série alemã produzida pela Netflix. Na pegada de dar carta branca para alguns países produzirem suas próprias séries, saindo do eixo EUA-UK (assim como o Brasil emplacou 3% no catálago, um dos melhores lançamentos de 2016), as boas surpresas com as produções estrangeiras continuam. O drama sci-fi, que mistura suspense, viagem no tempo e muitas teorias loucas, estreou no início de Dezembro e foi comparada constantemente com Stranger Things. Porém, é necessário dizer que as duas são muito diferentes! Enquanto a norte-americana aposta, além dos mistérios, em momentos engraçados e personagens cativantes, a alemã é muito mais obscura sem trocadilhos.

    Tudo em Dark nos leva ao mistério e aos questionamentos. A fotografia, a lentidão de algumas cenas, os detalhes (que são muito importantes!) e o clima de produção européia, em que os acontecimentos não são marcados por sequencias de ação impressionantes, característica comum das séries estadunidenses. Mas o seriado não perde em nada: pelo contrário, ele é inovador. O enredo nos leva até o ano de 2019 na pacata cidade de Winden, habitada por famílias que estão lá durante gerações. Cada um deles guarda segredos e intrigas. O número de personagens é bem grande, no estilo de Game of Thrones, por isso, fica difícil lembrar o nome de todo mundo.

    O protagonismo cabe à Jonas (Louis Hofman), um adolescente de 16 anos que perdeu o pai recentemente. Ele passou dois meses em uma instituição psiquiátrica tentando se recuperar, enquanto a mãe, Hanna (Maja Schöne), mantinha um caso com Ulrich (Oliver Masucci), policial da cidade e pai de Martha (Lisa Vicari) – o interesse amoroso de Jonas – Magnus (Moritz Jahn) Mikkel (Daan Lennard).

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    Aparentemente nada acontecia na pequena cidade, onde todos se conhecem. Cada personagem possui uma ligação entre si, mesmo que ela não seja óbvia. Os conflitos – que aconteciam por baixo dos panos – retornam com tudo quando alguns jovens começam a desaparecer misteriosamente, e seus corpos retornam com machucados e os tímpanos estourados. É o caso de Erik, que nunca foi encontrado. Quem também some é Mikkel, desencadeando acontecimentos que vão levar as famílias a desenterrarem brigas do passado, que atingem não só apenas eles, mas também os seus filhos adolescentes. E tudo isso ainda possui relação com o sumiço de Mads, irmão mais novo de Ulrich, que desapareceu no ano de 1986.

    A série, criada por Baran bo OdarJentje Friese mistura referências e muitas teorias físicas. Ou seja, se você gosta do assunto, vai curtir essa série, que é para aqueles que são fãs de montar mil teorias que explicam os acontecimentos. Os temas passam entre Teoria da Relatividade de Einsten, buraco negro de minhoca, o estudo de Stephen Hawking sobre buracos negros, e o longa “Interestelar.” Eu assisto pouco conteúdo de sci-fi, mas minha amiga que é fã do gênero comentou que o seriado segue bem esse estilo para quem se interessa pelos assuntos acima e clássicos como “De Volta para o Futuro.”

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    Se vale a pena apostar na série alemã? Não há dúvidas! A produção é impecável, com uma fotografia linda e escura, que acompanha os acontecimentos misteriosos durante os episódios, e as atuações são surpreendentes. Eu sinceramente já estou na espera da confirmação de uma segunda temporada.

    December 3, 2017
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    Atlanta é uma aclamada série de comédia (ou dramédia) que foi lançada em 2016 nos EUA pelo canal FX. Criada e produzida por Donald Glover (conhecido também pelo seu nome artístico Childish Gambino), que trabalhou como roteirista no clássico “30 Rock“, com a Tina Fey. O seriado possui 10 episódios com duração entre 20 e 25 minutos, que mesmo parecendo pouco tempo, conseguem abordar de maneira honesta e crível a jornada de Earn (Donald Glover), um cara que vive aos tropeços: ele não tem dinheiro, precisa ajudar a pagar o aluguel do local onde ele mora com a filha e a ex-mulher Vanessa (Zazie Beetz), e sofre uma rejeição da família por ter, no passado, abandonado uma faculdade de ponta.

    Os outros dois personagens que dividem a maioria das cenas com Earn são o seu primo, Alfred (Bryan Tyree Henry) e Darius (Lakeith Stanfield). Earl está completamente quebrado, ao contrário do seu outro membro da família, que está começando uma carreira promissora na cena de rap musical em Atlanta, capital da Georgia. A cidade, aliás, é o principal cenário que permeia os episódios, e o criador da série revelou que a ideia era mostrar o local de uma maneira que ainda não havia sido feita antes. Eu tive a oportunidade de conhecer a cidade este ano, e foi muito legal poder enxergá-la pelas lentes da série, com uma representação sincera. Apesar de muitos seriados serem gravados lá, poucos se preocupam em mostrar a cidade dessa maneira.

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    É na carreira em ascensão do primo que Earl encontra a oportunidade para ingressar no mundo da música, algo que ele sempre desejou, mas que nunca teve a chance. Mesmo sem nenhuma experiência prévia, ele se oferece para ser o empresário de Alfred – conhecido como Paper Boy -, e essa é a sua única ideia (ou “salvação”) para sair do seu péssimo estado financeiro, e de quebra, talvez realizar o seu sonho de trabalhar no meio. A série, além de ser inovadora e dar visibilidade aos negros, trabalha de maneira profunda e interessante os personagens. Eles possuem camadas e mais camadas, e suas complexidades vão se tornando mais visíveis a cada episódio, algo que nós estamos cansados de saber que raramente acontece em séries produzidas por homens brancos. Por isso é tão importante que o trabalho de Donald Glover esteja sendo reconhecido.

    Alfred, no início, pode parecer alguém superficial que só liga para o dinheiro ou drogas. Mas é pelo desenvolvimento com a sua amizade com Earl que notamos que, como todo mundo, ele tem defeitos e qualidades, e os primeiros apareciam mais nos episódios iniciais. O personagem é um amigo leal, cuidadoso e também o responsável pelas melhores tiradas da série. O episódio número 7, “B.A.N”, em que Paper Boy é convidado para participar de um talk show, é um dos mais engraçados e irônicos da série.

    O fortalecimento da amizade entre os três protagonistas é um dos pontos fortes de Atlanta, que mistura cenas de momentos hilários, outros chocantes e tristes (tudo ao mesmo tempo) entre Earn, Alfred e Darius (este último é o meu personagem favorito!).

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    Apesar da série ser produzida e dirigida em sua maioria por homens (todos os episódios são dirigidos pelo japonês Hiro Murai ou Donald Glover, com exceção do nono, dirigido por Janicza Bravo), a representação das mulheres no seriado não deixa a desejar. Não há muitas personagens femininas na história, e o foco central fica para Vanessa, que é mãe e trabalha duro para fornecer dinheiro à filha dela e de Earl. O relacionamento dos dois é completamente instável. Uma hora eles estão juntos, em outra não, mas o sentimento que fica é que quando um precisa do outro, eles sempre estão lá.

    Van ganha mais espaço no episódio 6, “Value“, em que encontra uma amiga de longa data, Joyce, em um restaurante. O contraponto entre as duas é enorme: enquanto Van trabalha o tempo inteiro e mal tem tempo para ela, Joyce vive uma vida de luxo, e insiste para que a amiga se divirta mais. As duas são diferentes, possuem rotinas completamente distintas, mas ainda assim, a amizade é mais forte que as divergências. Fica claro em muitos momentos também que, por mais que Earl se esforce para ajudar a família, ele não faz mais que a sua obrigação.

    A série coleciona prêmios: Donald Glover levou o prêmio de Melhor Ator em uma Série de Comédia no Emmy e no Globo de Ouro em 2016, além de o seriado ter vencido Melhor Série de Comédia.

    A primeira temporada está disponível na Netflix Brasil!

    September 7, 2017
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    Lançado em Agosto, uma das produções mais aguardadas da Netflix neste ano foi The Defenders, que uniu os quatro heróis da Marvel, que ganharam suas próprias séries no serviço de streaming. Todos esses quatro personagens, apesar de serem muito diferentes entre si – e complexos – apresentam uma semelhança: eles carregam um pouco de antí heroísmo em suas personalidades. Jessica Jones (Krysten Ritter), Luke Cage (Mike Colter), Danny Rand (Finn Jones) e Matthew Murdock (Charlie Cox) não são heróis óbvios, que ganham super poderes e querem salvar todo mundo. Os quatro possuem trajetórias difíceis. Apesar de Jessica, Luke e Matthew agradarem muito mais o público em geral que Danny – o Punho de Ferro -, este último ganha nuances diferentes em The Defenders que o tornam um pouco mais crível.

    Na produção, os personagens precisam se unir para enfrentar o Tentáculo, uma organização que consegue monopolizar não apenas Nova York, mas lugares no mundo inteiro, com o seu poder e influência enormes, que interferem não apenas em empresas que controlam bilhões de dólares, mas na vida dos próprios nova iorquinos, e dos nossos quatro protagonistas também. Em Iron Fist já foi possível entender mais sobre o Tentáculo, que apareceu pela primeira vez em Daredevil.

    Eles não se encontram de primeira, mas os seus caminhos se cruzam, apesar de alguns deles já terem uma história antiga, como Luke e Jessica. O confronto inicial dos quatro não é tão amigável: Danny e Luke, por exemplo, possuem milhares de diferenças. Enquanto o primeiro é um milionário dono de uma das empresas mais importantes de NY e cresceu no luxo, o outro vive no Harlem, e é responsável por tentar tirar garotos negros jovens da cena de crime do bairro. Um dos diálogos mais interessantes da série acontece entre os dois: Danny afirma para Luke que o dinheiro não o define, e esse responde para ele, que ele já nasceu com poder. É uma cena clara que alfineta o privilégio branco enorme que o personagem de Finn Jones carrega consigo.

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    Duas personagens que também ganham um merecido espaço durante os oito episódios são Claire (Rosario Dawson) e Colleen (Jessica Henwick). Elas não possuem nenhum super poder, mas isso não tira o fato de que ambas se estabelecem como verdadeiras heroínas durante a história. Claire e Collen possuem os seus próprios “poderes”, e elas lutam com as armas que possuem. Claire, que é uma personagem bem conhecida, possui todas as suas habilidades como enfermeira, mas em The Defenders ela se arrisca também a lutar, e se transforma em uma amiga importante para Colleen.

    Colleen lutou artes marciais durante a sua vida inteira, e além de ser uma lutadora experiente, ela também é corajosa e é responsável por, em muitos momentos, incentivar Danny (que acaba levando o título de “herói”) a se arriscar e buscar fazer o que é certo. Porém, a sensação que nós temos é que sem Colleen, ele não teria nem metade da força que possui. Eu acredito também que a personagem poderia ser mais explorada e ganhar um destaque que não esteja tão vínculado ao Punho de Ferro. E os primeiros passos, digamos assim, foram dados no arco entre ela e Claire.

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    Apesar de serem os grandes protagonistas da história, Os Defensores contam com a ajuda de outras pessoas, como Misty Knight, que havia sido uma das grandes aliadas de Luke durante Luke Cage. As cenas de luta e ação ganharam uma qualidade de um nível superior às cenas de Iron Fist, por exemplo. Dessa vez, é impossível não tirar os olhos da tela. Cada episódio conta com um clímax que além de nos surpreender, faz quem está assistindo apertar no “play” para o próximo episódio em segundos. Os vilões, como Alexandra (Sigourney Weaver) nos convencem, e são mais complicados que qualquer coisa que cada um dos heróis já enfrentou.

    Destaque também para a amizade desenvolvida entre Jessica e Matthew, que promoveram as melhores cenas da série quando estavam juntos. Eu confesso que estava morrendo de saudades de Jessica Jones, que apareceu pela última vez em 2015. A segunda temporada de JJ já foi confirmada (CHEGA LOGO!)

    Os oito episódios de The Defenders mesclam ação com bons diálogos e cliffhangers que deixam qualquer um de boca aberta, tudo isso com episódios que possuem em torno de 50 minutos.

    June 25, 2017
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    A série norueguesa Skam, que estreou na Escandinávia em 2015, virou um fenômeno nas redes sociais rapidamente (ela é exibida na internet), e ganhou milhares de fãs no mundo todo e no Brasil também. Nós já vimos diversas séries adolescentes ganhando popularidade, mas o diferencial do seriado, criado por Julie Andem, é que os dramas da série são relatados de maneira honesta e o mais próximo possível da vivência dos jovens, pelo menos os da Noruega (que foram a inspiração principal da criadora).

    Outro detalhe é que os atores são todos iniciantes e bem novos. Ou seja, os personagens de 17 e 18 anos são interpretados por pessoas desta idade, dando um tom bem mais verdadeiro aos episódios (eles tem espinhas e repetem roupas, assim como na vida real, sem ilusões). Além da trama bem executada, os personagens também são bem trabalhados. O destaque do post de hoje fica para a representação feminina na série, que tenta ao máximo fugir dos clichês, nos mostrando garotas fortes, mas humanas, que falham e cometem erros como nós. Como a produção da série é chefiada por uma mulher, essa representação é mais verdadeira do que as das séries que conhecemos, que retratam a vida dos adolescentes.

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    A primeira protagonista da série é Eva Mohn (Lisa Teige). Acompanhamos a entrada dela no ensino médio (no tão turbulento primeiro ano), o relacionamento dela com o seu namorado Jonas e o término da amizade com as suas duas melhores amigas, que eram muito próximas de Eva no ano anterior. Eva é insegura, tem poucos amigos e tem que enfrentar mudanças não apenas no ambiente em que vive, ao mudar de colégio, mas em si mesma. Ela se sente perdida: sua vida gira praticamente em torno do namorado, já que ela perdeu as amigas, e ainda não conseguiu se enturmar na escola nova.

    É uma personagem bem realista, que podia ser você, a sua amiga, ou alguém que você conhece. O único relacionamento que ela tem em sua vida não é estável: o ciúmes permeia o seu relacionamento com Jonas, apesar dos dois gostarem um do outro. Eva tem medo de que o namorado esteja a traindo, e eles ficam nesse jogo de brigas e desconfianças, quase que interminável. Fica claro que a personagem ainda está descobrindo quem ela é, mas não possui espaço para fazer isso no namoro.

    Eva também enfrenta slut shaming no colégio, quando ela fica com um cara mais velho do terceiro ano que tinha namorada, sem saber. Skam aborda de maneira bem real o fato das garotas sempre receberem o título de “vadias” ou “vagabundas”, enquanto os homens normalmente saem ílesos. É nesse momento difícil que Eva recebe o apoio de amigas que ela conheceu recentemente: Sana e Noora, que a defendem sem pensar duas vezes.

    Um dos temas abordados na temporada é como relacionamentos adolescentes – e namoros no geral – podem limitar algumas pessoas, quando o casal não possui o próprio espaço ou não conhece a si mesmo de verdade. É aquele clichê tão real: “como amar ao outro, se você nem ama a si mesmo?”.

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    A evolução da personagens é nítida ao longo das outras temporadas. Apesar do seu destaque ter diminuído, é possível observar outras fases pelas quais Eva passa: a de fim do namoro, quando ela se liberta e vai para todas as festas possíveis, ou decidindo que não quer se envolver de maneira séria com mais ninguém, e focando apenas nas suas amizades. O interessante é o paralelo com a Eva do primeiro ano e a do segundo: ela era insegura, e agora, Eva encontra confiança em si mesma para fazer o que tiver vontade, sem medo de julgamentos sobre a sua vida sexual.

    Essa tornou-se uma das características mais legais da representação da personagem: Eva fica com quem quiser, quando quiser, e tem diversas ficadas ao longo dos episódios, sempre sentindo-se livre para dizer quando ficou com alguém ou quando não quer um relacionamento sério. Ela torna-se feliz com as suas decisões. Quer character development maior que esse?

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    A segunda temporada é protagonizada por Noora Saetre (Josephine Frida Pettersen), uma das personagens mais querida pelos fãs da série. A primeira imagem que temos de Noora – vista na primeira temporada pelos olhos de Eva – é de uma garota independente, corajosa, confiante, bem resolvida, feminista e obcecada por batom vermelho. Em todas as cenas ela aparece com esse batom: um dos fatores que só incentiva aquela imagem de garota poderosa – e sem grandes problemas na vida, pelo que as cenas nos mostram – que temos de Noora.

    Mas conforme vamos conhecendo quem Noora realmente é, é que a autora da série só confirma o fato de que a imagem de que temos que alguém, pode não ter muito a ver com o que ela é de verdade. Não que Noora não seja todas as características que citamos: ela é, mas também tem grandes doses de insegurança e dúvidas, como qualquer outra pessoa. Ela também é extremamente sentimental, característica que só percebemos mais tarde. O lema da segunda temporada é: “Todo mundo que você conhece está lutando uma batalha da qual você não sabe nada sobre. Seja gentil. Sempre.”

    Na minha visão, a Julie Andem tentou quebrar aquele estigma de que as mulheres feministas são intocáveis. Que nós não podemos demonstrar nossos sentimentos, nos apaixonar ou mostrar vulnerabilidade, algo muito presente nos episódios de Noora, principalmente quando ela se envolve com William, um garoto que, segundo ela própria, “é o maior clichê de todos”, mas que de alguma forma consegue conquistá-la.

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    O relacionamento dos dois divide opiniões entre os fãs da série. Alguns odeiam, e outros amam. O fato é que a personagem, muitas vezes, parecia anular-se ao lado de William. Mas a criadora da série – pelos dialógos, por exemplo – deixa claro que isso não seria o ocorrido. Entre uma conversa de Noora Sana, em que a primeira questiona a amiga dizendo que ela não queria mudar suas opiniões por causa de William, Sana argumenta que não havia nada de errado em alterar suas opiniões – se ela não se sentisse obrigada a fazer isso -, não importasse o gênero da pessoa.

    Para mim, o lado mais especial da personagem é a sua relação com as amigas, principalmente com a Vilde. Noora é observadora, e quando percebeu que a amiga tinha problemas alimentares, tentou ajudá-la, mesmo não a confrontando diretamente sobre o assunto. Durante todas as temporadas, ela é atenta ao que acontece com as pessoas que ama: quando ajuda Sana a revelar os seus sentimentos para o garoto que ela gosta, por exemplo.

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    A última temporada é construída a partir dos olhos de Sana Bakkoush (Iman Meskini). Logo nos primeiros episódios da série, a personagem já diz uma das suas frases mais famosas, ao explicitar na frente das novas amigas que ela “é a maior perdedora de todas, pois é uma muçulmana em um país sem fé”. Tudo isso é dito em um tom irônico e debochado, características da personagem que não tem papas na língua. Durante as três temporadas, Sana dá alfinetadas na cultura norueguesa e na sociedade machista em que vive. Ao se tornar amiga de Eva, Noora, Vilde e Chris, ela começa a interagir mais com a cultura do seu país, mas sem nunca abandonar os preceitos islâmicos, como não ingerir bebida alcóolica.

    Na terceira temporada, vemos a aproximação inusitada da personagem com Isak, que se torna seu parceiro na aula de biologia. Os dois, tão diferentes, acham coisas em comum, mas se aproximam de verdade porque vivem debatendo sobre religião, homossexualismo, islamismo e até mesmo a teoria da evolução. São cenas em que mostram dois contrapontos: um garoto ateu e uma menina muçulmana, que apesar de começarem uma amizade aos tropeços, se tornam melhores amigos, porque passam a compreender as dificuldades um do outro.

    Isak é um garoto que se descobriu gay e tem medo de sofrer preconceito, e Sana, uma muçulmana que é julgada constantemente na escola, nas ruas, e às vezes até no próprio grupo de amigos.

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    Mas é na quarta temporada que conhecemos Sana a fundo: seus hábitos, suas relações famíliares – como a amizade com o irmão Elias -, os seus questionamentos sobre a sua própria religião, e como é difícil ser fiel aos seus costumes, quando todos os seus amigos e o ambiente que vivem caminham de maneira completamente contrária. Ao mesmo tempo que suas amigas mantém relacionamentos e vão a festas, Sana quer acompanhá-las, mas sem perder a sua essência, as suas raízes e a sua fé. As cenas mais importantes são as que a personagem se silencia em um quarto e reza: ela faz isso no primeiro episódio desta temporada, quando procura um quarto vazio em uma festa lotada, para realizar a sua oração. Ela é interrompida, porém, por um casal que entra no quarto de maneira abrupta. E então fica claro a grande dúvida da personagem: como conciliar a sua fé com o ambiente que ela está?

    Sana sempre demonstrou uma imagem de garota forte e que aguenta tudo: ela não tinha medo de ninguém, sempre falava a sua opinião e parecia conseguir enfrentar qualquer dificuldade. Mas quando passamos a ver tudo pelos olhos dela, é que enxergamos que Sana usa a sua personalidade dura para se proteger do preconceito e das críticas da sociedade perante ela e a sua família, que são constantes no seu dia-dia. É interessante também ver o interesse amoroso dela com Yousef, um garoto ex-muçulmano. Porém, a relação deles é construída apenas na base de diálogos, trocas de reflexões e em alguns momentos a falta de comunicação (tão comum entre os adolescentes) que gera desentendimentos entre os dois. Mas o mais legal é ver que a autora construiu um “ship” de maneira bem diferente, respeitando ambas as religiões dos atores, que também são muçulmanos na vida real. Ou seja: ela mostra que dá sim, para dois adolescentes gostarem um do outro, sem ter contatos sexuais.

    May 6, 2017
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    Título: “Dear White People”

    Estréia: 28 de Abril

    Diretores (as): Justin Simien, Berry Jenkins, Nisha Ganatra, Tina Mabry, Charlie McDowell e Steven K. Tsuchida

    Dear White People pode ser considerada uma das melhores séries já produzidas pela Netflix. O motivo? Com apenas 10 episódios, com 30 minutos cada, a série consegue abordar diversos temas importantes que envolvem a negritude: racismo, colorismo, militância, violência policial, e também a vida do negro nos espaços como a universidade. Na série, nós conhecemos Samantha White (Logan Browning) que é dona de um programa de rádio que leva o nome da série. Samantha usa a sua voz para denunciar todos os problemas que ela e os seus amigos vivenciam todos os dias. Tudo começa quando os estudantes de um dos jornais da faculdade organizam uma festa com o tema de “black face”, causando uma reação de Samantha e dos seus amigos, que também são personagens importantíssimos nesta história.

    A série não possui só um protagonista, e sim vários, no qual temos a oportunidade de conhecer a história, os medos e a vivência de cada um. Os personagens são complexos e muito bem trabalhados em episódios dedicados à eles, dando espaço para mais assuntos serem abordados, como por exemplo, o desafio de Lionel (DeRon Horton) em lidar com a sua homossexualidade, em como as maneiras de resistência podem ser diferentes com Coco (Antonitte Robertson), o esforço de quem sempre é o líder dos movimentos, como o Reggie (Marque Richardson), e a busca pelos seus objetivos, por sempre querer agradar o pai, de Troy (Brandon P Bell).

    Eu assisti tudo em uma só tarde, tamanho foi o jeito que a série me prendeu. Ela te faz questionar, refletir, e traz um episódio extremamente comovente: o episódio 5, dirigido por ninguém menos que Berry Jenkins, de Moonlight, é impactante, honesto e precisa ser discutido. Não quero dar spoilers, mas ele aborda um dos assuntos mais atuais do momento, que originou o movimento Black Lives Matter.

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    Título: You, Me, Her

    Estréia: 10 de Fevereiro

    Diretores (as): Nisha Ganatra e Sara St. Onge

    You, Me, Her possui duas temporadas e a sua primeira estreou este ano na Netflix. A série é uma comédia (com um pouquinho de drama) bem diferente do que estamos acostumados a ver. Sem muitos clichês, a série aborda o casamento de Emma (Rachel Blanchard) e Jack (Greg Pohler). Os dois estão juntos faz um bom tempo e se amam. Eles não possuem problemas no casamento, mas algo os incomoda: a rotina bateu e os dois não tem mais aquele romance que possuíam antes. É aos poucos que Izzy (Priscila Faia) entra na história, após conhecer Jack. Ambos se atraem instantaneamente por Izzy, e ela pelos dois.

    Izzy está na universidade. Ela tem uma rommate, a Nina (Melanie Papalia), e alguns relacionamentos frustrados na bagagem. Ela até tem alguns rolos, mas nenhum deles funciona de verdade. Izzy, de início, fica com medo de se envolver demais com Emma e Jack, mas eles tem muita química e a paixão acontece. You, Me, Her é sobre poliamor, aceitação, confiança, bissexualidade e relações não monogâmicas que funcionam sim, muito bem.

    O enredo é responsável por desconstruir estereótipos e aqueles tramas em que relacionamentos LGBTQ+ sempre acabam em tragédias (estamos cansados de ver essa repetição). Óbvio que nem tudo são flores – assim como em qualquer outro namoro – mas  os personagens conseguem lidar com os conflitos, os ciúmes, e os problemas que aparecem no meio da relação. Eles também tem que encarar o preconceito dos amigos e das pessoas ao redor, que não tem absolutamente nada a ver com a vida deles, mas insistem em se meter na relação dos três. Sim, bem parecido com a vida real!

    Ah, e o cast é excelente. Os três atores principais tem uma interação incrível juntos.

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